Cessou a laboração, no passado dia 9 de Junho, a fábrica de cortiça da Corticeira Amorim, em Silves, e com ela fechou-se um ciclo de mais de 180 anos na história da cidade.
Desconhecemos quando ali se terão instalado as primeiras fábricas, ainda que em 1839 já existissem. A partir da década de 1860, aquela indústria conheceu grande desenvolvimento local. A primeira fábrica de grandes dimensões foi fundada, em 1870, por Salvador Gomes Vilarinho. Natural de Monção, tornou-se numa figura relevante na história local, que já aqui recordámos (edição do «Terra Ruiva», n.º 202, de Junho de 2018).
Em 1873 existiam em Silves seis fábricas (três destinadas ao preparo de cortiça em prancha e as restantes ao fabrico de rolhas), que empregavam 638 pessoas. Naquele ano, segundo o jornal «Gazeta do Algarve», na sua edição de 21 de Maio, encontravam-se, na cidade, famílias vindas de todas as partes do Algarve, atraídas pelo trabalho certo e constante proporcionado por aquela indústria. A afluência era de tal ordem que não havia casas disponíveis para arrendar, enquanto as existentes estavam sobrelotadas. Em 1890, a Fábrica de Salvador Gomes Vilarinho constituía o maior estabelecimento fabril do país. Treze anos depois, a autarquia estimava em aproximadamente 1.000 o número de operários que na cidade se dedicavam àquela atividade.

Silves, que chegou ao início do século XIX, ainda que com a nomenclatura de cidade, com as dimensões urbanas de uma pequena aldeia, cresceu e afirmou-se sobremaneira ao longo de Oitocentos. Uma realidade que se manteve até meados do século seguinte. Em 1941, só na cidade, existiam mais de 40 fábricas que davam trabalho a cerca de 1500 operários. Depois, por diversas razões, aquela indústria entrou em declínio e os industriais abandonaram paulatinamente Silves e o concelho, fixando-se na margem sul, junto à capital, ao contrário do que sucedeu em São Brás de Alportel, onde a sua presença ainda se faz sentir. A partida desses industriais e familiares veio a revelar-se desastrosa a vários níveis, desde logo pela perda de capital humano e intelectual. Por outras palavras, a elite abandonou Silves. Massa crítica que a cidade, tantos anos depois, tarda em recuperar.
Ora, o fim de um ciclo pode e deve ser a oportunidade para abrir um outro, ou mesmo outros. Com uma localização central no Algarve, servido de excelentes vias de comunicação, que o atravessam de norte a sul, Silves tem todas as condições para deixar de constituir uma terra das oportunidades perdidas, assim o queiram as forças partidárias e demais habitantes do concelho. Este é o momento para fazer essa reflexão. Isto é, pensar o território, os seus constrangimentos e as mais valias e projetá-lo no futuro. Realizando-se eleições autárquicas no Outono, essa reflexão ganha outra relevância, por poder ser apresentada e concretizada nos diferentes programas partidários das forças políticas concorrentes à autarquia.
Já agora, que esses mesmos programas contemplem ideias para o destino a dar a um prédio em construção, interrompida há cerca de 15 anos, em São Marcos da Serra. Pensado para Albergaria e Museu do Azeite há 20 anos, a edificação, promovida pela Câmara, foi suspensa no fim de 2009. Ainda que em 2022 a autarquia tivesse aventado uma outra solução, nada se concretizou até hoje, e ali permanece, no centro daquela aldeia, uma ruína abandonada, à espera de uma utilidade que tarda em aparecer. Não muito longe, mas noutro concelho também da «serra ao mar», uma velha fábrica de cortiça adquirida pelo município local originou, num prazo de oito anos (entre a aquisição e a concretização), um ninho de empresas, que poderá servir de exemplo e ponderação para algo diferente e inovador.

Antes de terminar, deixamos uma nota para a ousadia que houve em São Bartolomeu de Messines há precisamente 200 anos. Com o culto anual a Nossa Senhora da Saúde restringido a nível local, os messinenses juntaram-se e decidiram promover esse mesmo culto a regional e fizeram-no com a criação de uma feira, não só como fonte de receitas para a confraria, mas também como promoção económica da freguesia. A petição que dirigiram ao rei D. João VI com esse intento, foi por aquele monarca deferida a 7 de julho de 1825.
Mais de 130 anos depois, em 1958, constituía um dos certames mais importantes do Algarve, acorrendo a ela forasteiros de toda a região e do Baixo Alentejo, através de comboios e carreiras de camionetas especiais organizadas para o efeito, que por sua vez tinham ligação a todo o país, conforme se lê na edição de 20/9/1958, do «Jornal do Algarve». Estamos certos de que, decorrendo a feira este ano ao fim de semana, a Câmara Municipal de Silves e a Junta de Freguesia de São Bartolomeu de Messines não deixarão de assinalar, com letras de ouro, aquele momento solene e o início de uma tradição com 200 anos, cujo programa comemorativo é possível que já esteja em preparação.
Que a ousadia destes messinenses de há dois séculos, constitua fundamento de inspiração aos políticos e sociedade, para a reflexão em torno do futuro de Silves e do concelho, para que a nova estratégia a seguir e implementar seja tão próspera e duradoura como foi a presença da indústria corticeira na cidade.
Boas férias!








