O povo foi novamente chamado às urnas para escolher os seus representantes. A Aliança Democrática (AD) PSD-CDS venceu as eleições de 18 de maio e, para surpresa de muitos, o Chega de André Ventura conseguiu eleger mais deputados (60) do que o Partido Socialista. Um resultado expressivo que coloca o Chega como líder da oposição, o PS em busca de um novo Secretário Geral, e o país dividido ao meio entre AD e Chega, sendo Évora o único distrito do país onde o PS venceu.
Recorde-se que, em 2024, o resultado eleitoral do distrito de Faro chamou a atenção a nível nacional pois foi no Algarve que o Chega obteve a sua primeira grande vitória eleitoral, ao reunir neste distrito mais votos do que outras forças partidárias. Para tal, o Chega tinha vencido em Portimão, Lagoa, Silves, Albufeira, Loulé e Olhão, enquanto nos restantes municípios o Partido Socialista tinha sido o mais votado em 2024.
Dois anos antes, em 2022, o Algarve estava pintado de rosa. O PS tinha vencido em todos os municípios algarvios. Um claro contraste com o cenário actual onde o PS perdeu em toda a linha. Já o Chega reforçou a sua posição e aos seis municípios que tinha conquistado nas legislativas de 2024, somou agora mais cinco: Aljezur, Vila do Bispo, Lagos, Castro Marim e Vila Real de Santo António, sendo que esteve mesmo muito perto de conquistar Faro e Tavira (neste último caso ficou a 10 votos da AD). Ou seja, dos dezasseis municípios que compõem o Algarve, onze escolheram o partido de André Ventura para os representar na Assembleia da República e os restantes cinco escolheram a AD.
Perante um crescimento do Chega tão drástico e expressivo a nível regional mas também nacional, a mensagem parece-me evidente: Senhoras e Senhores Políticos abram os olhos, as pessoas não querem saber de politiquices nem de tricas políticas, e confrontadas perante o abandono, o desalento, o medo, a falta de perspectivas encorajadoras no futuro e de soluções para os seus problemas, acompanham e ouvem quem para elas comunica. Há um partido que concentra em si todos estes sentimentos para capitalizar. Um partido que cresce perante um vazio do poder que fala mais alto, mas que recusa ouvi-las, e no qual não se reveem, que esbate as fronteiras ideológicas entre esquerda e direita ao levar as pessoas a passar da esquerda para a direita mais à direita sem qualquer problema e por mais contraditórias que possam ser as suas próprias posições. Já não é apenas protesto, as pessoas já não acreditam nas soluções que lhes são oferecidas há anos e que deixaram o país na situação em que está, num marasmo económico com uma carga fiscal muito elevada e de baixos salários. É ressentimento e pertença, o que traz consigo fortes cargas emocionais. Não perceber isto poderá ser fatal.
Aqui chegados, o que fazer? É preciso ouvir as pessoas, reconstruir a confiança, reaproximar o discurso da realidade, responder aos anseios e desesperos, informar e aprender, aceitar que há problemas reais e que por mais incómodos que possam ser não desaparecem se nada se fizer ou se forem silenciados. É preciso falar mais com o povo e menos sobre ele, sem moralismos ou juízos de valor, com verdade e sem hipocrisias. Mudar, sair da bolha ou da redoma. Se o fizerem poderão esvaziar algum ar deste balão que pretende constituir-se como alternativa governativa a muito breve trecho.
Nota: Por lapso de paginação, na nossa edição impressa do mês de junho, saiu errada a publicação do texto deste colaborador. Embora o título fosse o correto, o texto publicado era da edição de maio. Pelo sucedido pedimos desculpa ao Fabrice Martins e aos leitores.






