A maçã está ligeiramente descentrada para a esquerda, representada pelo seu contorno negro bidimensional, numa mancha laranja-amarela que extravasa o espaço, como num movimento ondulado pelo vento. Pinceladas de verde adivinham uma natureza, agora morta, que retorna o fruto à árvore em que fora flor. Um amarelo sinuoso agita-se como num campo de milho numa paisagem horizontal. Um chamamento de branco, emoldurado por resquícios de negro, transporta-nos para uma maçã num campo de milho, legenda assim atribuída pelo muito jovem artista Manuel.
Esta pequena tela alude à primavera, este ano algo envergonhada e chuvosa, num sempre florido e maduro, como refere o poeta, mês de maio. São as festividades religiosas e pagãs da consagração da primavera, como o tempo pascoal, que se prolongam verão adentro. São os festejos do 1.º de maio, das romarias enquadradas em piqueniques, com bolos e outros manjares e licores, que nada têm de revolucionário. É a festa e a luta do 1.º de maio vermelho que prolonga o grito de liberdade e de igualdade (de direitos e de deveres, de oportunidades, de justiça social, de dignidade pessoal) iniciado em abril.
Neste mês de maio desagua uma torrente de renovação, de revolução e de rebelião.
A renovação cristã, que culminou no Domingo de Páscoa, encena relatos da vida, da morte e da ressurreição de um homem, num misto de silêncio e de cânticos. Este silêncio abarca a cidade antiga cada vez mais deserta de almas. A velha cidade de Silves está mais bonita, com mais vida, ao longo do dia, mas carece de gentes locais, de vizinhas palradoras e de vizinhos palradores nas portas, nas janelas e nas varandas das casas renovadas. As habitações modernizadas são alojamento local, que trazem turismo, mas não dão verdadeira vida à cidade. Em virtude desta alteração social da malha urbana e da deslocação dos habitantes permanentes das cidades para as periferias, a noturna Procissão do Senhor Morto percorreu em silêncio as silenciosas e desertas ruas da urbe, num percurso outrora movimentado e habitado por gentes de Silves.
A revolução, movimento de translação dos astros, é permanente e, por isso, quem somos nós, pobres mortais, e apenas isso, para não acreditar na possibilidade, sempre presente, de uma nova revolução, que regenere os valores de abril, partilhados pelos homens e pelas mulheres, e que traga dignidade pessoal, económica, social e cultural a todos e para todos.
E as imagens da Faixa de Gaza, na Palestina, uma ocidental vala comum, discretamente suavizada nos nossos ecrãs televisivos, em tempo de arruadas previstas e sempre vistas. Àqueles homens, mulheres e crianças, com tudo destruído, só lhes resta a resistência e a rebeldia.
Tantos R (rê ou erre) para o mês de maio.







