O rio Arade é no presente um rio que deve a sua vida ao mar. É um estuário de marés, expressão usada por Francisco Matos, ex-presidente da câmara de Silves, no debate “O futuro do rio Arade”, promovido pela ASPEA e o Grupo dos Amigos de Silves, no âmbito do dia Mundial dos Rios, a 29 de setembro. É um rio que vê o seu caudal, desde a foz em Portimão até Silves, alimentado ao contrário, ou seja, pelo mar e suas marés. Com a seca e a consequente escassez de água, a montante as ribeiras já dificilmente geram corrente, o rio vive dependente do mar. Na baixa-mar é apenas um triste fio de água, esforçando caminho no lodo.
Prova disso é a existência de espécies vegetais, próprias de sapal marinho, como é o caso da salicórnia (também conhecida como sal verde ou espargo do mar), entre outras. Plantas identificadas no decorrer da ação de limpeza da margem direita do rio, com a orientação da bióloga Anabela Pereira da Associação Portuguesa de Educação Ambiental (ASPEA). Assim como a súbita subida de nível de águas, provocada pelas marés vivas de setembro, transbordando partes de margem na zona ribeirinha; ocorrência que estávamos apenas habituados a associar a cidades do litoral como Tavira ou Olhão.
Longe vão os tempos em que chovia e a barragem do Arade, tão cheia estava, abria as suas comportas provocando cheias na cidade. Nas quais os miúdos mais pobres, como os irmãos Rendeiro, enchiam baldes de enguias, para depois vender, pescadas com uma simples cana e isco de minhocas; e as laranjas da Horta Grande flutuavam vistosas numa poética de cor e doçura no lamaçal da enxurrada.
No estado atual do clima com o aquecimento global e as bruscas variações do estado do tempo: com violentas e inesperadas tempestades e chuvas torrenciais e noutras zonas do globo a escassez de chuva e secas extremas, o ambiente do planeta, devido à ação humana, vive um período de grande instabilidade. No Algarve, o problema da seca é cada vez mais sentido, severo e exige uma tomada de consciência e decisões que tardam.
A ideia de Progresso, pensada e debatida no século das Luzes (XVIII) pela filosofia iluminista, exprimia uma confiança absoluta nas capacidades da razão e de realização humanas, (da qual o nosso marquês de Pombal foi o expoente político em Portugal), e alicerçou todo um pensamento progressista que se estende até aos nossos dias. Foi e é uma generosa ideia, motor do desenvolvimento das ciências, da tecnologia, da organização da sociedade e de algumas das mais fantásticas obras da humanidade.
Acontece que o Progresso hoje está doente, devido ao esgotar dos recursos do planeta pela sua exploração desenfreada e terríveis consequências ambientais. Dizia recentemente um cientista – aos políticos, hoje, colocam-se os maiores desafios de sempre, não tanto ideológicos, no sentido estrito, mas na defesa da natureza e da harmonia dos sistemas ecológico, económico e social. No caso concreto do Algarve, o turismo massivo associado a uma excessiva pressão urbanística, pode levar a uma disrupção com efeitos colaterais graves não só no desordenamento do território e destruição da paisagem, mas também na qualidade e consumo de água, na habitação, na produção e tratamento de resíduos. E são estas as questões pertinentes que exigem mais informação à comunidade, uma nova mentalidade política e coragem de decisão. Não somente o negócio e a visão curta imediata.
E volto ao Arade, esse rio tão ligado à história de Silves e tão querido de todos nós, quantas vezes levados pela nostalgia do passado, da riqueza que o rio outrora escoava e trazia, para questionar no presente – Desassorear para quê?…
Para tornar navegável, sim, sem dúvida. Mais aberto, profundo e limpo desde o ilhéu de Nossa Senhora do Rosário até Silves, concordo. Para que nele se desenvolvam atividades desportivas não poluidoras, como a canoagem e a vela; a eventual recuperação de um moinho de maré com uma função pedagógica; turismo de natureza com definição de itinerários de caminhadas e lugares de observação de aves (segmento turístico em crescimento). Estas são excelentes ideias.
Mas não sejamos ingénuos, no momento atual em que os apetites imobiliários estendem os seus poderosos tentáculos para o interior, o mais provável é cair uma chuva de pedidos de licenciamentos urbanos nos municípios ribeirinhos ao Arade, para construção de resorts de luxo ou agro-turísticos, projetos esses sempre redigidos com um belo e enganador léxico (perspetiva sustentável, diferenciadora, avaliação e preservação ambiental, eficiência energética e hídrica, recuperação de habitats e valorização do património natural,…), ou os desmesurados projetos de energia solar e eólica, tão ao gosto do capitalismo verde, tão nefasto quanto o clássico ao não olhar a meios para alcançar o lucro.
Se for o caso, mais vale nada fazer, deixemos o rio tranquilo, de margens ternamente adormecidas na sua recôndita beleza natural. Podemos sempre navegar o futuro de muitas e diferentes maneiras.








