O que (de facto) se quer para o Algarve?
Toda gente sabe que é preciso construir aquilo que se quer. Seja quando temos um projecto para a realização de um trabalho, aquisição de um carro, obtenção de um certificado ou a conquista de um objetivo, é preciso planeamento, esforço e nos lançarmos na busca pelo propósito que queremos conquistar.
Ouve-se, lê-se e fala-se muito sobre o Algarve, ainda mais e principalmente, quando o verão nos bate à porta. A crise hídrica, seca e falta de água e de chuva cá em baixo, os hospitais, o trânsito, a violência, a agricultura, os preços, o turismo, a hotelaria, e o equilíbrio necessário para que exista um mínimo aceitável entre o bom funcionamento de tudo e os desafios que vivemos.
Acaba-se, muitas vezes, por deixarmos o barco andar, gerimos as crises e dificuldades e empurramos à frente o que nos vai surgindo pelo caminho. Mas, e a pergunta sobre o que se quer de facto para o Algarve? Onde está, em nós, a nossa contribuição pessoal para aquilo que queremos nós para o Algarve? Alguma vez será que já nos perguntamos sobre isso? O que estamos nós, individualmente, a construir para o futuro Algarvio?
Pergunto, porque apesar de não ser Algarvia, este é o sítio que escolhi para viver, aqui está a contribuição pessoal, profissional, emocional, social e de impostos que deixo e pretendo continuar a deixar, e preocupa-me o futuro que estamos a construir. Vejo de perto, dia após dia, o quanto as pessoas preocupam-se e manifestam um interesse genuíno e sincero para que sejamos mais e melhores do que somos agora, e quando olho à minha volta… preocupo-me.
Faz talvez já cerca de 6 anos que trabalho, com imenso orgulho, naquela que é a última das Adegas Cooperativas do Algarve, antiga Adega de Lagoa que anos atrás, uniu-se a Adega Cooperativa de Lagos e deram origem a Única.
Quantas críticas já ouvi sobre a Cooperativa, nem sou capaz de enumerar, mas lembro-me perfeitamente bem de todas as mãos que se estenderam para apoiar e ajudar a manter aquela que é a última Adega Cooperativa do Algarve. Sim, a última. Todas as outras fecharam as portas, tendo visto a grande diminuição dos seus sócios, das terras cheias de vinhas e da dificuldade de compor os custos e gastos com as despesas e lucros reduzidos ou inexistentes.
É um facto que muitos erros de gestão e falhas administrativas existiram ao longo dos anos em todas as Cooperativas, e que por si só, o propósito de existência das Cooperativas para impulsionar e garantir a aquisição dos produtos agrícolas por preços justos sempre foi um desafio a ser conseguido, assim como é conseguir permanecer em actividade quando Adegas privadas conseguem ter maior poder económico e assim, alavancarem e publicitarem talvez com bastante mais propriedade e força os seus produtos.
Mas, deixando de lado as dificuldades e desafios e voltando a pergunta inicial, sobre o que se quer realmente para o Algarve, será que queremos o fim da agricultura familiar? É o que estamos a ver acontecer, ano após ano, cada vez em maior escala. Não bastasse o preço da terra, a seca, a falta de mão de obra e o custo excessivo de impostos e faltas de apoio, temos um problema bastante visível a aproximar-se e (quase) nada está a ser feito.
O Algarve poderá vir a ser das poucas, ou única, região demarcada de vinhos sem uma Adega Cooperativa. E há com certeza quem possa perguntar… mas e daí?
Daí, que um dos papéis principais de uma Adega Cooperativa é a compra de uva dos seus sócios, independente de “vontade”, de stocks baixos ou cheios, pandemias, preços de mercado, sol, chuva, seca ou inundações. E para quem depende da agricultura familiar, é sempre uma garantia, uma segurança. Há excesso de uvas no mercado? Não importa – a Cooperativa compra. Foi criada para isso. Mas temos um revés, que muitas vezes nos prejudica e é o facto de que temos vindo a “funcionar” como uma alternativa, e não como principal comprador.
Há muitas razões para isso, desde a falta de recursos para elevarmos o preço acima do que o mercado paga, até as castas de moda, em que outras Adegas elevam o preço que podem pagar e assim, os sócios optam por vender a quem paga mais – o que compreendemos perfeitamente e tentamos ao máximo, acompanhar de forma igual (quem nos dera chegar a pagar mais, como a Abegoaria tem dado o exemplo através das Cooperativas no Alentejo) o preço que é pago pelo mercado – nossos agricultores merecem!
O problema é que no Algarve somos apenas 1 Cooperativa, e estamos a morrer. O impacto do fecho da Única, caso venha realmente a ocorrer, é que nos primeiros anos o mercado irá comprar apenas e somente aquilo que lhe interessar (não há obrigação de compra), e faz parte da natureza dos negócios a famosa lei da oferta e da procura. Se ninguém é obrigado a comprar, em um ano ou para uma casta que deixe de ser interessante, deixa de haver compradores. Sem Cooperativa, quem paga aos agricultores em um ano que sobrem uvas? Quem compra uma casta que ninguém mais quiser? Se agora o quilo da uva está em 1 ou 2 euros, sou capaz de lançar uma aposta à quem quiser aceitar: sem Cooperativa, em 5 anos o quilo da uva perderá metade do valor. Se agora é difícil para os agricultores com os custos elevadíssimos conseguirem obter lucro, quem dirá depois. A não ser que estejamos a falar de monopólios, onde os mais fortes ditam as regras e o restante de nós empurra o barco como pode, e enquanto consegue.
E aí eu pergunto… queremos um Algarve sem uma Adega Cooperativa?
O que, individualmente, estamos a fazer para que isso não aconteça?
Lagoa, 03/07/2024
Membro 4143 da Ordem dos Biólogos de Portugal



