“Bem-vindo à selva, temos diversão e jogos. \ Temos tudo o que tu queres, sabemos os nomes. \ Nós somos as pessoas que podem encontrar tudo o que precisas. \ Se tens o dinheiro, nós entregamos a tua doença.”
Esta é uma possível tradução de uma das músicas mais famosas da banda de rock “Guns N’ Roses”, “Welcome to the Jungle” (Bem-vindo à Selva), e a razão pela qual a trago ao leitor é por haver turistas que a interpretam de forma demasiado literal quando pensam no destino turístico “Albufeira”, para passar as suas férias. Um local onde, desde que haja dinheiro, é permitido consumir bebidas alcoólicas até cair enquanto se vagueia em trajes menores (uma mera tanga) ou simplesmente nu pela selva urbana que é a Avenida Doutor Francisco Sá Carneiro, mais conhecida por “Rua da Oura”.
Quem nunca por lá passou, dificilmente imaginará o quão lastimável poderá ser. Pessoas completamente embriagadas circulam nesta Avenida importunando transeuntes e lojistas, participando em actos de vandalismo, violência e roubos, deixando para trás um rastro de garrafas partidas, lixo, sangue, urina e outras coisas desagradáveis, requerendo frequentemente a presença da GNR, INEM e bombeiros. Há poucos dias ocorreu mais um exemplo de comportamento reprovável que envolveu oito turistas britânicos que se exibiram completamente nus, em pleno dia, e que simularam posições sexuais em bares da Oura. Como diria o Diácono Remédios: “não havia necessidade”.
Este episódio surge dois meses após a autarquia de Albufeira ter apresentado uma “Estratégia de Desenvolvimento, Promoção e Captação de Novos Turistas para Albufeira 2024-2030”. A principal ambição é ser o melhor destino turístico em Portugal e se é verdade que Albufeira apresenta uma oferta de alojamento e restauração premium, sem contar com as fabulosas praias, não será menos verdade que existe uma elevada perceção de Albufeira como um destino turístico de massas com uma vida noturna muito vibrante e comportamentos frequentemente excessivos que denigrem a imagem deste Concelho algarvio, para além de afectar turistas e residentes.
Apesar de 89% dos residentes considerarem que “o turismo é determinante para a economia de Albufeira e para a geração de emprego”, apenas “20% concordam que a maioria dos turistas atuais respeitam os residentes e adotam um comportamento cívico quando visitam Albufeira”.
Do ponto de vista dos agentes económicos os dados avançados no documento também são elucidativos: “76% consideram que existiu, nos últimos 10 anos, uma alteração do perfil do turista de Albufeira, que agora se envolve menos na cultura local, gasta menos e tem menor preocupação com a preservação dos recursos naturais”. Além disso, “52% referem estar insatisfeitos com o comportamento cívico da maioria dos turistas que Albufeira recebe.”
Cientes deste problema é assumida, na estratégia apresentada, a posição de não apostar em perfis de turistas que procuram destinos low-cost (mais baratos), estadias curtas (inferiores a 3 noites) e cuja única motivação seja o “divertimento”. Será este um adeus aos grupos de despedidas de solteiros e de viagens de finalistas? Talvez. Ao invés, a aposta passará por atrair casais, famílias multigeracionais, reformados activos, nómadas digitais, desportistas amadores, entre outros, que tenham capacidade para despender mais dinheiro, procurem outro tipo de actividades e adoptem um comportamento mais respeitoso para com a comunidade local e o património natural, arquitectónico e cultural.
O caminho e a estratégia definidos parecem-me acertados para fazer a ruptura com o passado e reposicionar Albufeira.
Poderá o Concelho de Silves, vizinho do Concelho de Albufeira, aproveitar as oportunidades desta nova estratégia e colher alguns proveitos?
O Concelho de Silves apresenta pontos de contacto em algumas áreas importantes: sol e mar, cultura, natureza, desporto, bem-estar, gastronomia e vinhos. Projectos como o aspirante Geoparque Algarvensis (que partilha com Loulé e Albufeira), o Parque Natural Marinho do Recife do Algarve – Pedra do Valado (uma das áreas com maior biodiversidade e o maior recife rochoso costeiro de Portugal com valores ecológicos ímpares no contexto da Costa Portuguesa), o património histórico, arquitectónico e religioso do Concelho, entre outros, poderão ser excelentes cartões de visita para os turistas que partam à descoberta de outras experiências e vivências, mas para tal Silves deverá realizar o seu trabalho de casa pois “aproveitar oportunidades quer dizer não só não as perder, mas também achá-las” (Fernando Pessoa).






