Emendar a mão

Desde que foram instituídas, em 2010, pelo então primeiro-ministro José Sócrates, as portagens nas vias ou auto-estradas sem custos para o utilizador (SCUT) têm sido alvo de muito debate e promessas eleitorais mas até à data, a abolição das mesmas nunca avançou. Eis que subitamente, após proposta do Partido Socialista que contou com os votos a favor do PS, Chega, BE, PCP, Livre e PAN, contra de PSD e CDS-PP e com a abstenção da IL, prevê-se que a partir de 1 de Janeiro de 2025, os custos com a Via do Infante/A22, assim como outras seis vias do interior do país, deixarão de ser suportados pelos condutores passando para todos os contribuintes. Um encargo para os cofres do Estado estimado em cerca de 157 milhões de euros.

Uma mudança de rota do PS que contrasta com os últimos oito anos em que esteve no poder, onde não só recusou sempre abolir as portagens nas ex-SCUT como votou sempre contra todas as propostas apresentadas pelos partidos para essa abolição. Diga-se em abono da verdade que admitiu reduzir as taxas das portagens e fê-lo como sucedeu no início deste ano, mas nunca aceitou acabar com as portagens nestas vias, apesar das promessas eleitorais do passado. É caso para dizer, como escreveu um dia Luís de Camões: “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser, muda-se a confiança”.

Como algarvio, foi com satisfação que acolhi a notícia da abolição das portagens na A22 (que para auto-estrada deixa muito a desejar) numa altura onde ainda decorrem obras na Estrada Nacional 125 que foi convertida numa avenida estreita, com pinos, rotundas, passeios de largura considerável em alguns locais e uma altura propícia à prática de trial de todo-o-terreno, inviabilizando a passagem de veículos de emergência ou até do trânsito em caso de uma simples avaria e que no verão piora exponencialmente. Com as portagens na A22 agravaram-se as desigualdades económicas, sociais e territoriais, para além de se ter prejudicado a mobilidade das pessoas, a competitividade de empresas e da região.

Será este um pequeno sinal da vontade em responder às necessidades e de criar melhores condições para quem vive e trabalha no Algarve? Por ora, mais parece uma esmola para um território do país que é apenas recordado no período de férias para ir a banhos ou em período eleitoral.

É preciso muito mais para um território que é contribuinte para o PIB nacional, mas que pouco ou nada tem recebido de volta. Oxalá sejam ventos de mudança.

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