O “Rebolo”

Despertou o meu “Messinensismo” a publicação recente de Patrícia de Jesus Palma nas redes sociais, refente à «personalidade e distinção geológica» da nossa terra, reportando-se ao grés de Silves.

Impulsivamente comentei ser oportuno repescar o artigo do Aurélio Cabrita – Terra Ruiva, 3 de Maio de 2018, onde as ideias então explanadas poderão e deverão integrar este vetor de desenvolvimento socioeconómico sustentável, que é o surgimento do geoparque “Algarvensis”,onde o “grés de Silves” se constitui como um dos seus pilares.

Dizia o autor: «O casco genético da vila, … , exibe um conjunto vasto de particularidades de valor, como a singularidade dos afloramentos de grés de Silves, que o tornam único em Portugal».

E adiantava Aurélio Cabrita que Messines, pelo relevo e importância do grés de Silves, constitui-se assim como “um pequeno e generoso diamante por lapidar”.

Efetivamente “a pedra vermelha” impôs-se na comunidade como património cultural, integrando-se sob as mais diversos usos e aplicações no seu quotidiano.

A nós “antigos” gasta-se-nos a sabedoria, devorada pela roda do tempo que um dia nos levará. E há que a legar aos mais novos, como o faz Bruno Matos (o Derruba da actualidade), que tão bem está a dar continuidade á tradição da família. O “rebolo” foi, e pela acção empenhada do Bruno, continuara a ser uma ”marca” da nossa terra.

Em nossas casas, no poial da porta de entrada, no banco da rua onde se apanha o fresco da noite, lá estava o arenito vermelho, identitário do nosso quotidiano.

Quem não tinha em casa uma pedra de amolar?

Qual o corticeiro que não fazia uso do rebolo para afiar as ferramentas de corte?

Que pedreiro não utilizava a pedra talhada nas mais variadas aplicações?

Quantos cevões não foram criados comendo e bebendo na pia de pedra de grés?

Que rei árabe não se socorria da pedra vermelha para as suas fortificações?

E que comunidade a elas não recorreu para a edificação das suas ermidas e igrejas?

Quais as mais seguras “minas de água” que alimentavam as populações e irrigavam as culturas? – As “talhadas no grés”!

Até a pavimentação das ruas era feita com a pedra vermelha! Fora os valados, as cercas …

Por esta pequena resenha das valências do grés se pode avaliar da sua riqueza cultural e dos diversos usos que induzem em todos nós uma inconsciente afetividade por este elemento da natureza.

Actualmente é de novo considerado pela arquitectura e pelo sector da construção como um material de características únicas, natural, que embeleza e constitui imagem de marca da nossa zona.

Será da maior oportunidade o encontrarem-se meios e formas de valorizar a nossa terra, concebendo um projeto que afirme Messines como a terra do Grés, integrando a requalificação em curso do centro histórico da vila num projeto de maior dimensão e ambição, preservando os afloramentos e o edificado, um projeto que inventarie, mapeie, e divulgue esta nossa tão marcante característica.

Aponte-se para a criação/instalação dum centro expositivo permanente, com formato de centro interpretativo, em instalação apropriada, dotado de “oficina” adstrita, onde se faça a divulgação desta característica com que a natureza nos brindou, configurando-o como ponto de interesse turístico, sendo a nossa sala de visitas do Algarvensis.

O desafio que se lança será o de fazer o levantamento exaustivo das aplicações da pedra, inventariar todo o edificado simbólico, os utensílios ainda existentes, as estruturas prevalecentes (pavimentos, muros, obras de arte, arranjos de adros em edifícios religiosos, etc…) e a recolha das ferramentas e utensílios utilizados na arte de trabalho da pedra.  Suporte digital, fotografia, modelos etc…. tudo o que seja documentável e que possa originar um polo museológico ou um centro interpretativo. Paralelamente dotar a Vila de Messines de elementos escultóricos (arte de rua), identificativos da interação da nossa comunidade com este elemento natural.

Possivelmente tal “projeto” já estará em marcha. Se assim for, resta-me aplaudir. Se ainda não, que se desenhem os actos que o levem a bom porto. Será honroso para qualquer Messinense que este tema se constitua como valia cultural e identitária da nossa terra. Um projeto não efémero, com raízes ancestrais, que salvaguardará uma característica sócio-cultural desta nossa boa gente, os beira-serrenhos algarvios.

Texto e Foto : Rui Cabrita

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