Contra todas as previsões, o governo de maioria absoluta do PS, com o mandato de quatro anos e meio, é demitido ao fim de pouco mais de ano e meio, desde que tomou posse. Em apenas 16 meses, 13 governantes deixaram o governo. O clique final foi dado com a detenção do chefe de gabinete do 1.º ministro, Vítor Escária, de Diogo Lacerda Machado, consultor próximo, alegadamente envolvidos em altos negócios privados, e com o comunicado da Procuradoria-Geral da República, que implica o próprio António Costa na “Operação Influencer”.
O governo do PS autodestruiu-se pelos sucessivos casos de justiça, mas, sobretudo, pelo fracasso das suas políticas.
As políticas do governo do Partido Socialista não estancaram ou inverteram a degradação económica e social do país, o agravamento das desigualdades sociais, o custo de vida insustentável para a larga maioria das famílias portuguesas, os problemas enormes no acesso à habitação, os baixos salários que perduram, a precariedade laboral dos mais jovens, a perda de rendimento da chamada classe média e a inexistência de um combate efetivo à corrupção e à promiscuidade entre política e negócios. O fracasso do governo estendeu-se ainda ao continuado desinvestimento público no Serviço Nacional de Saúde (listas de espera, encerramento de serviços, falta de profissionais, desvalorização das carreiras), e no setor da educação (recuperação do tempo de serviço, desvalorização das carreiras e do professor), que tem conduzido a intensa conflitualidade nestes setores profissionais e ao descontentamento da população.
Mais uma vez se prova que as maiorias absolutas não são sinónimo de estabilidade, o que conta, aquilo que é determinante, são os resultados, a eficácia e a justeza das medidas das políticas públicas que são postas em prática.
Mais uma vez também se prova a falácia do voto útil no PS por eleitores dos partidos à esquerda do espectro partidário. São votos desperdiçados.
É importante reter que os falhanços da governação, o incumprimento das promessas e as expetativas goradas, são o caldo perfeito para a descredibilização dos políticos (classificados, erradamente, como sendo todos iguais) e para o crescimento das forças extremistas de direita (Chega, IL), que aparecem como salvadores da Pátria, cavalgando ou colando-se a tudo o que é luta ou protesto, difundindo repetidamente mensagens simples, deturpadas e enganosas, mas eficazes na chegada a boa parte do eleitorado; escondendo o seu verdadeiro ideário e programa político; fundados no ultraliberalismo e no princípio “cada um, por sua conta”; direcionados para o esmagamento dos direitos laborais e sociais, a privatização de tudo o que resta, a defesa dos grandes interesses, a subversão da Democracia e a destruição do sistema constitucional vigente, conquistados em consequência da revolução do 25 de abril de 1974.
Neste contexto o atual PSD também não é fiável, não se diferenciando dos tempos de Passos Coelho. Este, aliás, afirmava antes de chegar ao governo o seguinte: “O país não precisa de mais promessas de impostos e de mais sacrifícios só porque o Estado não faz aquilo que deve.” No governo fez o contrário. No período da troika (2011-2015), Luís Montenegro liderava a bancada parlamentar do partido e não poupava encómios às políticas desastrosas do governo PSD/CDS – de brutal austeridade, empobrecimento, cortes cegos nos salários e pensões (eliminação do subsídio de férias e subsídio de natal, sobretaxas), cortes na despesa com a saúde, educação e segurança social, enorme aumento de impostos, desemprego, fuga em massa para a emigração – que foram implementadas naquele tempo terrível para a sociedade e economia portuguesa. À época, numa entrevista ao Jornal de Notícias, o atual líder do PSD, saiu-se com esta coisa inacreditável: “Os portugueses estão piores, mas o país está melhor.” Como se o objetivo das políticas públicas não fosse melhorar a vida das pessoas. As pessoas não são números.
O insuspeito José Pacheco Pereira, foi claro na avaliação: “Eles (governo do PSD/CDS) são bons, o país não os merece. E é verdade, o país não os merece. Merece muito melhor.” O PSD também não é credível no que respeita a eventuais coligações com o Chega, que atualmente renega. Não é de fiar. Nas eleições legislativas antecipadas de 10 de março de 2024 o povo é soberano, mas convém saber ao que vai, evitando ser ludibriado, comendo novamente “gato por lebre”.








