Encontrei-me com a Margarita e o Said, pela última vez, em 1986. Era agosto, estávamos em Atenas, tínhamos percorrido o circuito turístico e assistido ao Festival do KKE (um festival semelhante à Festa do Avante, organizado pelo Partido Comunista Grego) e escutado algumas das vozes gregas mais poderosas da altura.
Ao nos despedirmos, tínhamos a convicção de que nunca mais nos veríamos e que a Margarita, companheira quase diária dos últimos três anos, não voltaria a alegrar os meus dias com o seu riso alto e com as expressões gregas que eu repetia, imitando a sonoridade. E sabíamos que não haveria mais copos arremessados contra o chão, no final das festas, à maneira tradicional grega, e as danças que o músico Zorba popularizou por todo o mundo.
A Margarita estava decidida, iria acompanhar o marido no seu regresso à terra natal, a Faixa de Gaza. A Margarita era nascida e criada na Grécia, cristã ortodoxa, simpatizante do PASOK, (Partido Socialista Grego). O Said era nascido e criado na Palestina, muçulmano, ocupava um cargo de dirigente intermédio na Fatah (Organização cujo objetivo é o de libertação da Palestina e a criação de um estado independente).
Estavam apaixonados, tinham casado na Grécia, e preparavam a mudança para a Faixa de Gaza, em nome de um futuro que ambicionavam, a libertação do povo palestiniano e o reconhecimento do Estado da Palestina. O Said contava histórias de sofrimento e perseguição e eu ouvia, porque, vinda de um mundo tão diferente, queria saber e entender, ouvir o outro ponto de vista, aquele que tão raramente passava pelas televisões. A Margarita era só riso e alegria, o Said era calado e firme. Ambos queriam ser felizes e eu desejava que o fossem, no estado livre e independente que sonhavam e pelo qual estavam dispostos a lutar, à custa de sacrifícios pessoais.
A Margarita não era uma tonta romântica. Já tinha estado na Faixa de Gaza. Conhecia as dificuldades que iria enfrentar, as condições de vida muito inferiores às que usufruía na Grécia, sabia os perigos que o marido enfrentava na sua condição de membro ativo da Fatah, envolvido na ação política duramente reprimida por Israel e criticada por outras organizações árabes.
Há mais de um mês que, todos os dias, me lembro da Margarita e do Said. E penso nos filhos deles que nunca conheci, nos netos que talvez já tenham. Um destes dias, esmagada pelas imagens dos bombardeamentos criminosos de Israel, abri o álbum de fotos antigo, para relembrar o sorriso da Margarita e ver o sol azul de Atenas por cima do casal abraçado. E chorei.
Todas as guerras são perturbadoras do nosso equilíbrio emocional. Mas umas são mais do que outras. A distância tem muito peso. Mas, paradoxalmente, deixa de existir quando no seio do conflito temos pessoas amigas, familiares.
Nas circunstâncias de guerra, de catástrofes naturais ou desastres é comum a aproximação de pessoas, até de desconhecidos. O espírito de entreajuda, que foi crucial para a sobrevivência da nossa espécie, revela-se e impera.
Uma situação semelhante acontece muitas vezes em caso de doença, em que familiares e amigos que se encontravam mais afastados, surgem para auxiliar e amparar. (Sendo verdade que o contrário também acontece.)
Mas é no dia a dia que a verdadeira dimensão do problema do isolamento e da solidão nos atinge. Ontem liguei a uma amiga bastante querida, porque precisava de uma informação. Nos últimos meses, encontramo-nos três vezes, somente em contexto de trabalho. Disse-lhe que tínhamos de marcar um encontro para beber um café e falar da vida, sem pressas… Verificadas as agendas chegamos à conclusão que isso só seria possível a partir da primeira semana de dezembro, mais de duas semanas após esta conversa… Deixem-me acrescentar um pormenor. Para nos deslocarmos às casas de ambas, não são mais de 10 minutos a pé.
Acredito que a maioria dos leitores que me seguiu até aqui reconheça esta situação. E falo nela também porque se aproxima o Natal e é quase obrigatório surgir este tema. A família, os amigos, a solidão, os presentes. É um cliché, claro, mas que todos os anos repetimos, talvez porque reconhecemos que é necessário falar disto.
Porque a solidão e o isolamento não são exclusivos da terceira idade. Porque os que ainda estão na vida ativa encontram-se tão imersos em trabalho e responsabilidades e a lutar para assegurar uma vida condigna, que se condenam ao isolamento familiar e social, cada vez mais.
Não têm tempo. Não têm dinheiro. Não têm horários certos. Não têm segurança no trabalho. Nem paciência. Nem vontade. Estão cansados. A família torna-se uma obrigação. A empatia um estado cada vez mais difícil de alcançar. Aumenta a frustração de não ser capaz. E sente-se a culpa por não estar presente.
Não há soluções mágicas. E as circunstâncias nacionais e internacionais não são favoráveis à felicidade geral. Mas neste mês de dezembro há o Natal. E para muitos, velhos e novos, esta é uma oportunidade para abraçar quem nos ama, quem nos estima. Desse ponto de vista somos incrivelmente sortudos. Penso na Margarita e no Said. E em tantos homens, mulheres e crianças na Faixa de Gaza, em Israel, na Ucrânia e na Rússia e em tantos outros locais de conflito que não chegam às televisões. Somos todos diferentes. Somos todos iguais na solidão, no sofrimento, no desespero ou na morte.
É Natal. Feliz Natal, vivido na compreensão do outro e no agasalho de quem nos quer bem.
P.S. Segundo o Comité de Proteção dos Jornalistas, entre 7 de outubro e 23 de novembro morreram 56 jornalistas (46 deles palestinianos), 3 estão desaparecidos e 11 foram feridos.





