Por vezes tento explicar onde vivo, mais concretamente, onde são os aposentos que considero lar. Porque viver, podemos fazê-lo em lugares distintos e, de quando em vez, ainda vivemos mais quando viajamos, por sítios conhecidos ou desconhecidos, ou quando almoçamos ou jantamos, habitualmente ou não, com amigos, ou quando trabalhamos, valorizando o nosso labor, do que nos nossos compartimentos. O viver acontece em diferenciados locais e situações, com diferentes gentes. O que é diferente do local em que habitamos. E é este lugar que situo, com o apoio de edifícios públicos nas redondezas, como seja a Biblioteca Municipal ou a Praça Al-Mutamid, ou com a indicação do nome de algum dos vizinhos, aqueles mais conhecidos na localidade. Naturalmente que a vizinhança é para cada um de nós uma referência do contexto e do lugar em que residimos.
Os meus vizinhos, pensados de forma restrita, são poucos, vivo num prédio de três pisos com dez apartamentos. Destes, três são de familiares do antigo proprietário do terreno, um de um dos sócios da empresa construtora e os restantes seis de diferentes pessoas com distintas situações e nacionalidades. Algumas das moradias só são habitadas durante a época estival. Trata-se de um imóvel em que reina o sossego e em que os vizinhos pouco se entrecruzam no elevador ou nas escadas. Vivemos silenciosamente, aparentemente isolados, neste condomínio reduzido.
Os ocasionais encontros são cordiais e pouco palavrosos, com a bonita exceção do meu vizinho do 2.º A, apesar das diferenças linguísticas entre nós.
Eu vivo no 2.º C, as portas são frente a frente, e os nossos encontros sonoros são no segundo piso ou na entrada do prédio. O mr. Bentley anuncia a sua presença com um melodioso «Bom dia, António». Trocamos cumprimentos e outros apartes, sem grande valor informativo, numa conjugação de português e de inglês.
Um dia encontrei-o na baixa comercial, com a mulher e um casal amigo, a comemorarem o Remembrance Day,e ele ofereceu-me uma pulseira alusiva à data com as respetivas papoilas. Naquele inesperado dia de novembro surgiram papoilas na esplanada de um restaurante da minha cidade. Recordar as vítimas das guerras é sempre um clamor pela paz, um grito vermelho num campo de batalha. Nem de propósito, esse dia também ficou na minha memória. As guerras criam sempre memórias eternas para quem as viveu, para quem as vive na Palestina.
Para mim, era sempre o mr. Bentley, mas num destes dias perguntei-lhe qual era o seu primeiro nome. Ele sorriu e disse Raimundo, traduzindo Raymond para português. Depois acrescentou que a sua mãe gostaria que ele fosse o rei do mundo, num trocadilho de palavras. Certamente de um mundo sem guerras e com muitas papoilas, como se espera de um sábio protetor.






