Muito, muito antes do alojamento local ser regulamentado já me maravafa com ele. O alojamento era mesmo local. O local bem meu conhecido, a minha alegre casinha onde me albergava com mulher e filho.
O Algarve no Verão, como sabemos, é um imenso albergue. Algarvio mesmo. Não um albergue espanhol, nos Caminhos de Santiago. O conceito é parecido. Tudo ao molho e fé em Deus. O Deus no Algarve é profano, cremoso, bem besuntado para garantir o bronze das estátuas gregas.
Quando o Verão já ameaçava transpirar, os amigos ligavam-me. Ao telefone punham mel nos lábios e brandura nas vontades. Quase nada pediam. Os seus desejos eram ordens: «- Vou aí ao Algarve passar uns dias e tens de me arranjar poiso. Levo um ou dois amigos, gente porreira!»
Os amigos que faziam o favor de nos visitar eram generosos. Vinham de mãos a abanar. A generosidade que praticavam era a que esperavam de nós. A resposta, naquele tempo em que os calores da revolução ainda refrescavam, só podia ser uma: «- Ok. Tudo bem!»
A casinha enchia-se com um e outro amigo ou amiga, alguns vagamente conhecidos e mais uns quantos que ninguém sabia de onde vinham. Espalhavam-se por todos os recantos assoalhados. Comiam e bebiam à fartazana. Tinham apetite. Nada lhes fazia mal.
Quando o cansaço chegava, altas horas da noite, enroscavam-se para dormir em qualquer buraco onde coubesse cabeça, tronco e membros. E nem mesmo do uso sonoro dos próprios troncos e membros se inibiam. Grudavam-se nos braços de uns e outras, saciados. Trepidavam. Suavam muito. Caíam exaustos nos braços de Morfeu.
A água para as higienes íntimas era do povo. A conta da água era privada. E não era pequena. A hospedagem pagava-se cara. Ninguém dava por isso. A não ser os pagantes, os donos da casinha.
Nunca se sabia quando terminava a época balnear destes turistas, muito remissos em desamparar o albergue. Ao fim de uns dias, a coisa começava a doer. O alojamento local de borla evoluía para aleijamento local.
O agregado familiar ameaçava desagregar-se. Mulher e o filho de dois anos nem espaço tinham para se mexer. O filho de nada desconfiava. A idade da inocência é maravilhosa. Os pais não ousavam acreditar que era mais a idade da indecência dos hóspedes. Sem mal, claro.
Lamúrias muitas sussurravam-se. Com mil cautelas para não acordar ninguém. O sol mordia e a praia cansava até ao crepúsculo. Seria injusto interromper o sono dos justos.
A coisa não tardou a azedar. Quando é que estes gajos se vão embora, era a dúvida que arranhava, engolida em silêncio. Não queríamos perturbar as merecidas férias de quem tinha ainda muito para gozar. E eu só pensava: «- gozar comigo!»
Numa das investidas em que muitos se empurravam para chegar à casa de banho primeiro, abocanhar um naco de pão, ou engolir uma das últimas cervejas frescas, fiquei intrigado. Um dos generosos e gentis comensais ostentava num pulso um enigmático número 19757634. Suspeitei que a tatuagem devia dar-lhe sorte onde quer que metesse a mão.
Depressa tirei dali o sentido. Não sou de cobiçar riqueza alheia. Este numerado, como um boi de feira, era um belga já maduro. Alojava-se aqui de borla e só falava francês. Dava-me jeito para desentaramelar a língua de Balzac. Eu afinava a pronúncia, a cantar Brel. Ele fruía a sua felicidade estival como se estivesse a contemplar o Port d’ Amsterdam, a ouvir la Chanson des Vieux Amants. Eu não podia ficar mais feliz com as alegrias veranis deste Honoré, nascido em Lovaina. Tinha ali pelo menos um espectador, na minha tournée artística europeia, sem sair de casa.
A estadia do Honoré foi curta. Já começava a afeiçoar-me aquela figura meã, ossuda, de olhos azuis baços. Dava-lhe abraços cautelosos para não quebrar o ossário do bom amigo, recém-chegado. E, nunca o coloquei abaixo do pedestal de qualquer um dos meus velhos amigos.
Tudo o que nos enche a alma cedo acaba. Ao terceiro dia o Honoré desapareceu. Não disse água vai. Não se despediu. Nem agradeceu o gentil trato com que foi obsequiado. Ficámos um tudo-nada preocupados. Mas era menos um. Aliviados, apesar de tudo.
No dia seguinte, é que descobrimos a dimensão do alívio. Colares, pulseiras, fios de ouro, relógios, tinham sido furtivamente aliviados da casa. E ninguém dera por nada. Com a sua arte de prestigiador, Honoré aliviou-nos do que pôde. Mais não levou porque a sua mochila tinha pouca capacidade. Nem uma muda de cuecas lá cabia.
Só muito mais tarde, em conversa com uns amigos belgas, é que descobri o significado da tatuagem numérica. O Honoré passara largos anos no xilindró. Tinha cadastro. Era amigo do alheio. De tal modo que, para não se esquecer das suas habilidades treinadas a pulso, os serviços prisionais belgas tinham-no obsequiado com aquele número indelével, que constava em todos os ficheiros da polícia.
O indelével nunca se me apagou da memória. Por isso, tenho um grande respeito e admiração pela arte da tatuagem. Só não tisno o meu corpinho porque ainda não fui engavetado em Pinheiro da Cruz, ou na prisão de Silves. Nunca tive a sorte de me passear entre grades ao lado das obras de arte, duas pernas e dois braços e peito feito, que por lá estagiam a aguardar uma precária. Não uma tatuagem precária, mas uma saída para a liberdade.
Para mim, o alojamento local será sempre um aleijamento local. Ao menos que os proprietários do primeiro saibam cobrar as diárias. E não se fiquem a lamentar de algum objeto surripiado à má fila, já que cumprem uma missão turística importante. Dão poiso a quem dele precisa para uns dias de férias mais em conta. Presumo que devam proteger os seus haveres de mãos habilidosas furtivas.
Por todo o país, e não só no Algarve, o alojamento local tem crescido. A sigla AL vê-se por todo o lado. Só desejo que os proprietários não cometam a ingenuidade de, em vez de cobrar, deixar-se cobrar, à má fila, a peso de ouro e de prata de lei.
Eu nunca mais vi, nem ouro, nem prata, nem lei. E, tantos anos passados, não duvido que o Honoré tenha vendido tudo por uma tuta e meia. Eu ficaria consolado se recuperasse a meia da tuta. Dava-me jeito para fazer uma tatuagem numérica em homenagem ao bom do Honoré. Precária, claro!






