A vinda do Papa Francisco a Portugal, no âmbito da Jornada Mundial da Juventude, trouxe para a ribalta a sua visão progressista sobre questões fundamentais do mundo contemporâneo, num conjunto de intervenções públicas que perfaz cerca de meia centenas de páginas, cujo conteúdo mais profundo passou despercebido à opinião pública, desmerecendo o devido relevo por parte da comunicação social.
Disse o Papa: “Reparai, quando alguém tem de levantar ou ajudar uma pessoa a levantar-se, que gesto faz? Olha-a de cima para baixo. Trata-se da única ocasião, do único momento em que é lícito olhar uma pessoa de cima para baixo: quando queremos ajudá-la a levantar-se.”
Este trecho enquadra-se na “economia moral” de Francisco, vertida em várias Encíclicas: a provisão dos bens necessários à vida tem de ser a terra onde pode florescer um igualitarismo que se reflete primeira e ultimamente nas relações fraternas entre pessoas.
A economia nunca é neutra. Existe uma economia política e neoliberal, “a economia que mata”, na expressão do Papa, mas também existem alternativas que permitem a resposta às necessidades humanas.
É cristalino o que disse o líder da Igreja Católica no Centro Cultural de Belém, ao criticar uma Europa que aposta na corrida armamentista e na guerra, ao invés de defender o Estado Social e a paz, realçando o fenómeno da desigualdade económica, o ambiente natural e o ambiente humano que se degradam em conjunto.
Todo este posicionamento se encontra em linha com a sua Carta Encíclica “Laudato Si”, de 2015, que explica aqueles fenómenos com os “modelos atuais de produção e consumo”, em resultado das engrenagens da atual economia globalizada, constituída por um “sistema de relações comerciais e de propriedade estruturalmente perverso”, onde predominam os “limitados interesses das empresas” e o “princípio da maximização do lucro”, condenando o Papa a dominação absoluta das finanças e o endeusamento do mercado. Na sua visita à Universidade Católica Portuguesa, uma instituição de ensino superior, rica e elitista, que promove entre outras coisas um “programa executivo de gestão do luxo”, onde o neoliberalismo e o pensamento neoconservador são hegemónicos, orientações que contradizem a economia moral (de Francisco) – o Papa foi de novo bem claro: “Á Universidade que se comprometeu a formar novas gerações, seria um desperdício pensá-la apenas para perpetuar o atual sistema elitista e desigual do mundo com o ensino superior que continua a ser um privilégio de poucos.”
O Papa Francisco confirmou mais uma vez, na visita a Portugal, a sua natureza de Homem fraterno, simples e direto que se dirige a todos, crentes e não-crentes. “É melhor ser-se ateu do que ir à missa e depois semear o ódio.” Neste contexto não foi de espantar que o lídimo representante do neofascismo lusitano, André Ventura, se ausentasse para a Madeira durante a Jornada Mundial da Juventude, mostrando-se publicamente arrependido mais tarde, regressando à postura oportunista e demagógica.
Considero no mínimo curioso e, certamente, surpreendente para muitos, que o Papa Francisco tenha defendido em 2016, o seguinte: “São os comunistas que pensam como os cristãos. Cristo falou de uma sociedade em que os pobres, os débeis e os excluídos é que decidem. Não os demagogos, os Barrabás, mas o povo, os pobres, tenham fé em Deus ou não.”
Na realidade, o pensamento do Papa Francisco, a sua economia moral de caráter antissistémico, não encaixa no ideário da direita, apresentando-se como um precioso antídoto contra o florescimento dos novos rostos do fascismo gerados pelo neoliberalismo e um estímulo para a construção de uma nova sociedade, além do reino do dinheiro e da mercadoria, sustentada nos valores da liberdade, solidariedade, tolerância, inclusão, justiça social e respeito pela natureza.








