Já a meio da subida da rua da Sé (a medieval rua Direita), em tarde desesperadamente quente, depois de comidas umas sardinhas à beira-rio e de regresso a casa, o espírito peregrino decide-se por uma ida até à Sé, a qual avistava admirável como sempre, mas de imediato como possível local de refúgio ao calor.
À entrada, a placa a indicar 2 euros visitantes, na secretária aonde uma senhora, sentada, fazia o seu crochet, para ajudar a passar o tempo. Entrei com as boas tardes e disse que ia rezar. Ao que me respondeu que para rezar havia a capela, não sei bem qual, mas era fora da Sé. Ao que respondi que a minha vontade era rezar ali. Sim, ali, no aprazível e familiar espaço da imensidão gótica da catedral. Insistiu que para rezar não podia ser ali, havia outro lugar a isso destinado.

Não querendo pagar, não pelo valor monetário em si (igrejas há em Portugal e por essa Europa fora onde se paga bem mais), é uma forma possível de ajudar à conservação do património ou à ajuda cristã. Simplesmente, não sou turista, sou natural da cidade.
Falhado o argumento, verdadeiro, diga-se, pois apesar de não praticante e acreditando que um dia hei-de de entregar corpo e alma, bem juntinhos, à terra e desejando como os antigos romanos que a terra me seja leve ou então, alternativa mais poética, as cinzas atiradas ao mar em Sagres; contudo, sou um simpatizante agnóstico da ideia de Deus, ao qual de quando em vez faço umas ligações diretas, não para pedir nada, não gosto da humildade pedinte, mas para agradecer o reconhecimento da vida e da beleza do mundo. Então, pobre mortal acalorado, em tarde ardente de junho, procurava não apenas o fresco da sombra mas também o refúgio do sentimento espiritual. Até porque uns passos mais e estaria em casa. Mas apetecia-me a casa de Deus.
Decidido a entrar, avanço então com o argumento da naturalidade, dizendo de quem sou filho, ao que a senhora, apesar da idade já avançada, responde não conhecer, pois esteve muitos anos fora. Pois bem. Digo então que foi nesta igreja que fiz a catequese e fui dos escutas.
Dizendo – o senhor é muito insistente, não me deixava entrar. Repetindo que não podia ser, que estas eram as regras, que tinha de cumprir. Obstinada e tão descabida na sua certeza, confesso que estava a ficar de saco cheio.
Mantive-me educado e, não desistindo, avanço agora o argumento de que sou professor de História e gosto de rever o interior da Sé, pois em boa verdade estava a pensar a agradável penumbra da capela onde estão os túmulos dos navegadores, com as suas pequeninas janelas e vitrais e, claro, a contemplação do esplendoroso gótico misturado ao pensamento prosaico da vida e dos afazeres que ainda me esperavam.
Nada feito. Não havia volta a dar. Já no limite, desatinado, digo – sabe, foi a obediência cega de quem se limita a cumprir ordens que levou milhares e milhares, milhões de judeus aos campos de concentração. O que talvez não tenha sido a melhor e mais compreensível afirmação, pois se a zelosa senhora for igualmente beata do espírito ultramontano da Igreja, até nem está mal; pois foram os judeus do templo e o povo hebraico quem entregou Jesus, um dos seus, à autoridade romana para ser crucificado.
Não conformado, saí. Pensando: vou ter de escrever sobre isto, pois tão obstinado zelo não é de bom cristão, nem revela boa compreensão. E não me vejo a ter de pagar sempre que quiser entrar na Sé da terra onde nasci e cresci. Baptizado e tudo, minha senhora! Santa paciência!
Não, turista à força não!






