Just a small town boy
Johnny Cougar
Éramos apenas miúdos numa pequena cidade de província. A sul, no Algarve. Tu, entre tantos outros. Mas às vezes lembro-me de ti. Mais sonhador, difícil de conter nos limites da previsível oferta diária.
Quando Abril chegou e o país libertou, a adolescência despertava turbulenta em ti. Como se a emoção da multidão se confundisse com a revolução do teu corpo.
Ainda no ciclo preparatório, sentados nos bancos dos pré-fabricados contentores sala, saíamos para a rua a manifestar-nos, desafiados pelos mais velhos da escola técnica/liceu que atravessavam o jardim irrompendo escola adentro. Lembro-me de com a Lurdes Mealha e uns poucos mais abandonarmos as aulas, apesar do olhar de censura de quem nos ensinava, pois o apelo era demasiado irresistível. E seguíamos naquela imensa e festiva corrente de vida pelas ruas até ao centro. De mãos dadas, com as raparigas mais crescidas e de formas mais atrativas, que nos recebiam felizes, achando graça nos teus cabelos louros que enrolavam entre os dedos. As hormonas saltando ao ritmo das palavras de ordem.
E como Silves não chegasse, Portimão, cidade vizinha do litoral, também era destino. Corria o rumor de que iam cercar a sede da PIDE. E de comboio e à boleia, mais sedentos de emoção, partíamos sem saber bem ao que íamos. Apenas conscientes da novidade do que vivíamos. Aí, ao sabor do acaso, dei por nós num grupo de pessoal mais velho, (talvez levados pela politizada irmã do Arménio, namorado da minha irmã), que estava a ocupar uma casa devoluta.
Em Silves, a notícia da morte do Dr. Mealha, diretor da escola e da Mocidade, pai da minha entusiástica colega de turma e um dos amigos do café Havaneza do meu pai, pairava como uma triste sombra sobre a alegria estudantil. Vá-se lá saber porquê, não aguentou a pressão, pôs fim à vida.
Na escola preparatória, as aulas ganhavam em abertura ao mundo e no modo de estar informal e mais próximo entre alunos e professores. Numa sala disposta em U, com o professor descontraidamente sentado numa das mesas, discutíamos o Brasil colonial passando fotocópias de gravuras dos engenhos de açúcar com os negros a trabalhar, falando de escravatura e da injustiça da exploração do homem pelo homem. E a Visual, o professor José Gameiro, sim, esse mesmo, o fundador e durante muitos anos diretor do museu municipal de Portimão, fez-me um muito perfeito desenho do panteão comunista (com os filósofos Marx e Engels, criadores do socialismo científico, e os líderes políticos Lenine, Estaline e Mao Tsé-Tung).
Nos bancos do jardim, discretamente protegidos pelas frondosas pimenteiras, hoje desaparecidas da geografia sentimental desse espaço, o amor despertava inocente e suculento no entre abrir dos lábios entre ti e a Fatinha. Lado a lado, sentados, o tremor da vida nos primeiros arrepios da pele.
A primeira namorada a sério, daquelas que nos visitam quando estamos doentes e que, apesar de sermos tão novos, fez questão de falar com a minha mãe quando me comecei a dispersar.
E outros caminhos se faziam desvios por explorar: do snooker aos flippers da casa de jogos do Marinho, onde a música da jukebox por vezes ganhava mais intensidade; as revistas para adultos quase clandestinamente vendidas na papelaria Serrano; os cigarros avulsos comprados no Zé Fraqueza e religiosamente guardados numa pequena bolsa para serem fumados às escondidas; no cinema os filmes que os pais proibiam mas também viam; os primeiros roubos de chocolates e livros. O namoro a perder o amor no estertor fugaz de outros andamentos. Percorrido por mais sábias mãos. As espigas precocemente amadurecidas no corpo de Maio tingidas de femininas papoilas.
E outras e outros amigos – a amizade, outro nome do amor, um caminhar a um tempo caloroso e arriscado.
Afinal, éramos apenas uns miúdos.







