Ao contrário da ideia geralmente divulgada e do que se verifica nas árvores de arruamento de diferentes municípios, estas não necessitam de sofrer podas radicais.
A poda deve ser feita unicamente como forma de limpeza, retirando os ramos velhos e mortos, ou a título excecional quando, por alguma razão, não se pretende que os ramos se expandam, impedindo uma passagem, por exemplo.
As árvores devem desenvolver-se de forma natural e os resultados das podas são, na maioria dos casos, negativos: as feridas criadas tornam-se zonas mais propícias ao desenvolvimento de doenças e esteticamente os resultados não são os melhores.
Infelizmente e à semelhança de outros concelhos, também por cá acontece, em Silves e S. Bartolomeu de Messines, por exemplo, algumas belas árvores, altas e frondosas, são vítimas da prática errada de cortar alguns dos seus troncos principais e o seu veio de crescimento central ao alto. É estúpido. Não se percebe.
Se o objetivo é que não tirem o sol e evitem as folhas nas varandas das casas (o mais das vezes são as pessoas que desejam e pedem estes cortes…) então deveriam ir sendo cuidadosamente podadas em baixo para crescerem sempre mais ao alto e não o contrário. Então, mal cortadas, é vê-las rebentar onde não deviam. A muitas, nem lhes é permitido crescer, todos os anos desbastadas, reduzidas a um arremedo de árvore.

Talvez o problema também esteja na ferramenta de trabalho, a par da preguiça nacional, com o uso crescente da moto serra (quem não deseja ter uma…) e a desvalorização do tradicional e maneirinho serrote de poda. É que assim o pessoal corta mais e fica o trabalho logo feito por uns anos. Já imaginaram a trabalheira de andar apenas à procura dos troncos mais pequenos, a cortar aqui e ali, pra baixo e pra cima…
Os antigos e frondosos plátanos da rua do cemitério, em Silves, nunca eram cortados. Agora também já se decidiram pela moda do corte anual, bem aplicado e radical, não vá ficar alguma incomodativa ponta espigada com folhas. E pelo menos dois foram cortados pela base, sem dó nem piedade, se calhar estavam doentes... ou a chatear a vizinhança. Aliás, os plátanos e outras espécies de folha caduca permitem que no Inverno os raios de sol passem através dos seus ramos e com o despertar da Primavera de novo se cubram de folhas proporcionando boas sombras no Verão. As cegonhas agradecem, mas penso que já temos cegonhas em número suficiente… e passarada outra há que também tem direito à vida e a fazer ninho.
Felizmente, a cidade continua a beneficiar de uma bela entrada, a sul, quando se passa a ponte, com as muitas e frondosas árvores de diferentes espécies que acompanham o contorno de toda a zona ribeirinha.
Algumas delas resistentes ao tornado de 2012. Outras desnecessariamente apequenadas, pela pequenez humana, como foi o caso de alguns choupos brancos, raros e belos, nas imediações dos Amigos dos Pequeninos, cortados anos atrás, nunca mais voltaram a crescer com harmonia. Muito recentemente foram mais alguns cortes dispensáveis no passeio próximo dos bombeiros.
Aliás, alguns destes exemplares arbóreos cresceram num tempo em que as condições do clima eram normais, o que permitiu potenciar o seu tamanho e frondosa beleza. Hoje, nas atuais condições climáticas (aumento de temperatura a par de escassez de chuva), com o stress hídrico, nem se teriam desenvolvido.
Então para quê cortá-las, feri-las na sua digna antiguidade, já lhes basta a dificuldade da secura… e quanto mais copa, mais tamanho e folhagem, mais humidade atraem.
Parece que a moda está também a ter cada vez mais seguidores no campo. No barrocal, nos campos ainda de sequeiro, alfarrobeiras e oliveiras são depenadas, com aqueles cortes tipo barbershop, tão em voga, em que se rapa tudo à volta e deixa uma crista de cabelo; ou dois ou três ramos e uma árvore despida à força e violada na sua integridade de ser árvore.

O pessoal não está para se esforçar tanto, custa dobrar a espinha, ou porque é velho ou sendo mais novo não está para tais canseiras. Então vá de forçar as árvores a agacharem-se à humana altura. Pois é, meus amigos, muito mais fácil. Pergunto-me: o que acharia o meu avô Vieira destas mudanças?… Ele que até as ameixeiras do quintal deixava fazerem-se enormes, com as ameixas dos ramos mais altos a deliciarem os pássaros.
Mas talvez tudo isto não passem de preocupações pueris, quando no horizonte empreendedor da maioria da sociedade a Natureza não passa de um empecilho a uma vida mal urbanizada, cómoda e acomodada, de preferência sem folhas. E no nosso querido Algarve, sempre temos a praia, não é? Para quê mais árvores e jardins?…








Muito bom e valioso artigo, obrigada