- 1. Este ano assinalam-se 49 anos da revolução dos cravos de 25 de abril de 1974 – a data mais importante do século XX português – que colocou fim à mais longa ditadura da europa, instaurada em 28 de maio de 1926 e consolidada em 1933 (regime fascista). Tratou-se de um período tenebroso, onde os cidadãos não se podiam exprimir livremente e as liberdades individuais e coletivas se encontravam totalmente proibidas e cerceadas, os sindicatos, associações e partidos, impedidos de se constituírem livremente, e uma imprensa agrilhoada e submetida à censura prévia.
Período que a poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen, define no seu poema “Este Tempo” de forma magistral: “Este é o tempo / da selva mais obscura / até o ar azul se tornou grades / e a luz do sol se tornou impura / esta é a noite / densa de chacais / pesada de amargura / este é o tempo em que os homens renunciam.”
Portugal era um país vigiado e amordaçado por ampla rede de bufos e pela ação sanguinária da polícia politica (PIDE), que perseguia, amedrontava, prendia, torturava e assassinava selvática e impunemente, lançando intrépidos e heroicos resistentes antifascistas (republicanos, socialistas, anarcossindicalistas e comunistas, com relevo especial para os comunistas portugueses) nos inóspitos e precários campos de concentração no Tarrafal (Cabo Verde), em Angola, Guiné e Timor, bem como nas inumanas prisões em Angra do Heroísmo, Peniche, Caxias e Aljube.
“A polícia política e a sua rede de denunciantes, os julgamentos sumários, a detenção arbitrária, o encarceramento sem culpa formada, a tortura, os assassinatos, a censura, a fixação de residência, a deportação, a emigração, o colonialismo e a guerra colonial, todos estes atributos caraterizam a ditadura do regime nascido em 1926 e consolidado em 1933.” (Aníbal C. Pires, Angra do Heroísmo, 25 de abril de 2022)
Em matéria de desenvolvimento económico e social, Portugal era um país sem infraestruturas, de analfabetos, anacrónico e atrasado. Estima-se que entre 1960 e 1974 tenham emigrado, legal ou clandestinamente, cerca de um milhão e meio de portugueses, motivados pela fuga à fome, à miséria e às opressivas condições de trabalho e insuportáveis condições de vida. Salazar dava-se ao luxo de proclamar: “Portugal é um país conservador, paternalista e – Deus seja louvado – `atrasado`, termo que eu considero mais lisonjeiro que pejorativo”.
- A democracia e a liberdade arduamente conquistada na madrugada do 25 de abril de 1974 pela ação do Movimento das Forças Armadas (MFA) e o atual regime democrático consagrado na Constituição Portuguesa, encontram-se sob ameaça da extrema-direita, com a complacência da direita. A extrema-direita apresenta-se como força antissistema, anticorrupção e defensora do ultraliberalismo. É contrária ao Estado Social, defensora de mais Estado Penal, populista, xenófoba, racista, homofóbica, neofascista, anti-imigração, autoritária e intolerante, mas é ardilosa e escandalosamente demagógica na forma como vai cavalgando a justa contestação social e o sentimento de revolta dos trabalhadores e das diferentes camadas sociais, que sofrem o agravamento das suas condições de vida. Hoje afirmam uma posição, amanhã o seu contrário. Oportunismo levado ao extremo. O seu líder mente mas comunica bem com a ajuda de alguma comunicação social. Mantêm uma agenda escondida. Anote-se a correção tática do teor do seu programa, eliminando passagens como a extinção do Ministério da Educação e a total privatização da Escola Pública! O mesmo com o sistema de saúde, optando pelo negócio privado (da saúde), deixando o SNS para os pobres. De igual modo com o Fundo de Pensões que pensam atirar para a roleta do casino financeiro. Não, por acaso, defendem a eliminação da palavra “fascismo” da Constituição. Não têm propostas para a solução dos reais problemas do país mas são perigosos. E mais perigosos se tornam quando o próprio PSD, de nome, social-democrata, na ânsia de regressar ao governo, não se demarca de um eventual entendimento no futuro, com eles, se necessário.
- Recordemos as palavras de Sophia de Mello Breyner Andresen sobre o alvorecer de abril de 1974: “Esta é a madrugada que eu esperava / o dia inicial inteiro e limpo / onde emergimos da noite e do silêncio / e livres habitamos a substância do tempo.”







