O título é de uma canção de Sérgio Godinho, editada em 1974. Alinhada na chamada música de intervenção, a trazer para as canções as reivindicações (e sonhos) que o 25 de abril permitia que andassem na ordem do dia.
Nos dias em que escrevo, março de 2023, penso que não seria muito descabido se, daqui a poucos dias, a comemorar abril, essa canção se ouvisse de novo nas ruas.
A paz, o pão, habitação, saúde, educação
Só há liberdade a sério quando houver
Liberdade de mudar e decidir
Quando pertencer ao povo o que o povo produzir
E quando pertencer ao povo o que o povo produzir
Nos difíceis dias para quem vive do seu salário ou pensão e vê o pão cada vez mais ameaçado, para quem espera e desespera nos corredores de um hospital ou à porta do centro de saúde tentando marcar consulta para o mês que vem; para quem procura e não encontra uma habitação que seja compatível com o valor do seu salário e não signifique escravidão para toda a vida; para aqueles que desejam que a educação de qualidade e de oportunidades não seja só para alguns… para todos estes homens e mulheres, cidadãos comuns, em que me incluo, a canção do Sérgio Godinho faz todo o sentido.
Lemos e ouvimos sobre os milhões ganhos pelas gasolineiras, os milhões ganhos pelas empresas de energia, os milhões ganhos pelas cadeias de hipermercados e sobre a distribuição de dividendos milionários aos acionistas e sabemos, mesmo que pouco entendamos de finanças, que é à nossa custa que esses números crescem e florescem, engordando cada vez mais a lógica capitalista selvagem do lucro acima das pessoas.
Tanta glória, tanta glória /Na história que dei na escola /Agora educo o meu filho /Com a glória a pedir esmola
Foi o Cabo das Tormentas/ Cabo da Boa-Esperança /Agora é o cabo dos trabalhos/ Para aguentar com a finança
Trazer comida p’ra mesa/E o sorriso p’rá família/Não mostrar a incerteza/ De vir a faltar um dia
Fizeram cortes mais cortes/Rebentaram o orçamento/E aumentaram as taxas/Cortaram nosso sustento
Amigos no restaurante/Inimigos no parlamento/Eles são os iluminados/E nós somos o jumento
(…)A verdade é muito pobre /E a mentira endinheirada/ Com guita tu tens justiça /Sem guita levas banhada
Nossos putos no interior/Vão à escola sem almoçar/Parlamento gasta o tempo/ P’ro gay poder adotar
Eu assisto a isto tudo /Tenho de manifestar /O desejo e a vontade/ Do povo se organizar
Até perco a poesia/ ‘Tou só a verbalizar/Até pareço um cantor pimba/Dos que apetece matar
Desses que estão no sistema/De fazer o povo burro/Juntam à nossa senhora/Para ficar mais orelhudo
Assim se manifesta o cantor portuense Bezegol, autor de várias músicas/ manifestos. E aqui a trago, para que, de outro modo se ponha o dedo na ferida e se lembre os valores de abril que importa não só defender mas também concretizar e desenvolver. Vivemos hoje num país incomparavelmente melhor do que aquele em que “orgulhosamente sós” detínhamos recordes de pobreza, analfabetismo, mortalidade infantil. E nas “colónias” matávamos uns e ordenávamos a outros que se sacrificassem pela Pátria – amordaçada, censurada, sem direitos políticos ou civis.
Mas as nuvens negras da pobreza, da censura, da desigualdade social não nos abandonaram. Quando se comemora de novo abril, acho importante sublinhar esta mensagem e lembrar que só é possível mudar e evoluir com a participação dos cidadãos na vida social e política da comunidade.
Dito isto, faço a ligação perfeita aos agradecimentos que pretendo deixar a todos, anunciantes, colaboradores e leitores que com a sua contribuição nos fizeram chegar até aqui- ao mês de abril em que o Terra Ruiva comemora o seu 23 º aniversário. A todos nós, parabéns! E obrigado.






