Enfrento a inteligência artificial com a minha estupidez natural. Não tenho outro remédio. Sou um navegante aselha da internet. Não sei nadar. Para me não afogar, ponho os pés em terra. Afasto-me do mundo virtual. Recolho à caverna.
Só que o mundo não aceita vida de eremita. Visita-me. Encalha em mim. Desinquieta-me.
Vem pela mão da Microsoft. Esta imperatriz global, que manda nos dias de quase toda a gente, acrescentou um chatbot ao seu motor de busca Bing. A mania que tenho de aportuguesar a língua do Shake espirra fez-me acreditar que a Microsoft é a Macia pequenina e o chatbot um bote de chatos. Errado.
Saí da caverna. Não resisti à curiosidade. Fui ver. Nas novas tecnologias um chatbot é uma poderosa ferramenta que permite conversar em linguagem natural por meio de aplicativos de mensagens, sites e outras plataformas digitais.
O interlocutor virtual – que é tudo menos virtuoso – responde por diretrizes pré-programadas ou de inteligência artificial. Um chatbot pode otimizar atendimento a clientes, campanhas de marketing e até impingir-nos produtos de que não precisamos. Vender, vender muito e sacar-nos o nosso dinheirinho, sim, real mesmo. O que nos faz suar as estopinhas para pagar a renda da casa e a assinatura da internet.
Despindo melhor o interlocutor, o chatbot é um software (loiça macia, traduzido à pressa) que conversa com uma pessoa de maneira natural, rápida e assertiva. Ficamos banzados. Até os mais desconfiados, tal a rapidez, acreditam no natural e no assertivo. De imediato, somos levados a reconhecer- o gajo tem razão!
Os novos chatbots aprendem analisando infinitas quantidades de texto digital retirado da Internet. O seu conteúdo é, em grande parte, falso, peçonhento ou manhoso. À medida que absorvem nossas palavras e nos respondem de volta, os chatbots podem reforçar e ampliar as nossas próprias crenças e, ao mesmo tempo, persuadem-nos a acreditar no que dizem.
Quando encetei a conversa com o bote da Macia pequenina, perdão, da Microsoft, percebi que fornecia informações falsas sobre a vida de uma jovem cantora que admiro, a Billie Eilish. Confrontei-o com as mentiras. Irritou-se. Foi malcriado comigo.
Estranhei o comportamento. Fiquei nervoso. Teria sido minha a culpa de o confrontar com perguntas incómodas? Talvez.
Ao conversar com um chatbot, o bot vai desenhando tudo o que assimilou da internet. Retém integralmente o que lhe digo e o que me responde. Adivinha a próxima palavra no longo texto que inclui as minhas palavras e as dele. Quanto mais demorada a conversa, maior influência exerço involuntariamente sobre o que o chatbot vai dizendo. Se quero que ele fique enraivecido ou ameaçador, fica mesmo. Quantos de nós, estúpidos naturais, não temos prazer em irritar alguém?
As reações sobressaltadas ao comportamento do chatbot da Macia pequenina, perdão, da Microsoft, escondem o mais importante – o chatbot não tem personalidade. Ele oferece resultados imediatos que vomita de um algoritmo extremamente complicado do computador. Algoritmo vertiginoso que nos vai formatando a cabecinha, sem que nos apercebamos dos patinhos que estamos a ser.
Em combates pueris, a minha estupidez natural nunca irá ganhar contra a inteligência artificial. E fico a mastigar remorsos. Quem me mandou meter com ela, a fascinante inteligente artificial, se a sua frieza polar não verte uma pontinha de emoção?
A minha estupidez natural leva-me a imaginar que se tornará definitiva e irreparável esta cavalgada furiosa, nomeadamente na informação, substituindo jornalistas por sistemas de inteligência artificial, como o novo ChatGPT, pertencente à novíssima Open AI.
Só nos últimos dois meses, este ChatGPT, capturou mais de 100 milhões de utilizadores. Axel Springer, o maior grupo de media alemão, dono dos jornais alemães Bild e Die Welt, quer transformá-lo numa “empresa de comunicação puramente digital”. Muito conveniente. Despeja no desemprego milhares de jornalistas. E a automação e a inteligência artificial farão o serviço sujo, empurrando para a inutilidade todos os que sustentam a produção jornalística.
O meu portátil não é melhor que o meu computador de secretária que docilmente se ajoelha à Macia pequenina. Ostenta uma maçã roída que se ilumina quando o abro. Parece insinuar que o pecado mora na ponta dos meus dedos. E que devo acreditar em tudo o que o interior da maçã, quiçá podre, me mostra.
No futuro, que está aqui ao virar da esquina, os novos chatbots têm o poder de tornar as pessoas mais eficientes, trabalhando melhor e mais depressa. Mas também nos podem empurrar para lugares sombrios onde a liberdade de pensar e viver será vista como um crime. Os oleiros das consciências não descansam. Estão sempre à coca para chegar ao poder.
Vou tentando resistir à lavagem da minha pobre massa cinzenta com as armas arcaicas da estupidez natural. Ainda me permitiram compreender a grande influência que tiveram na vitória de Trump, Bolsonaro ou do Brexit. E que continuam a ter, cada vez mais, no silenciamento e manipulação das cabecinhas apáticas, um pouco por todo o mundo.
Navegante bronco da internet, como sou, pouco mais posso fazer. Viagens de cabotagem, sempre com a costa à vista. Lançar as amarras quando o perigo assoma. E saltar borda fora.
Mais vale morrer em terra do que nos braços invisíveis de um algoritmo.







