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Opinião

Venho cantar as Janeiras

António Guerreiro
Última Atualização: 2023/Jan/Sex
António Guerreiro
3 anos atrás
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As festas natalícias decorrem entre vinte e cinco de dezembro e sete de janeiro, entre os natais católicos e ortodoxos. Este desfasamento de treze dias é explicado pela mudança ocidental de calendário, no século dezasseis, conhecido por calendário gregoriano. É por isto que o Natal no nosso país é em vinte e cinco de dezembro e em outros países, como por exemplo a Ucrânia e a Rússia, é comemorado a sete de janeiro, pelas circunstâncias da história e pela vontade dos homens. De qualquer forma muito próximo do solstício de inverno, em torno dos dias vinte e um e vinte e dois de dezembro (no nosso hemisfério), acontecimento milenarmente assinalado, a noite mais longa do ano.

As janeiras ou charolas (em versão do sotavento algarvio) é uma tradição portuguesa que decorre na passagem de ano e prolonga-se com os cânticos dos reis ao menino, num misto de religiosidade e de apelo à dádiva de comes e bebes, principalmente de vinho e alimentos dos senhores abastados. Nos cânticos estão o vinho, o pão, os fritos (“Rabanadas, pão e vinho novo/Matava a fome à pobreza”, de José Afonso e “A senhora desta casa/está sentada num banquinho/Venha o prato das filhoses/e o garrafão do vinho”, popular) e os enchidos e o presunto (“Levante-se daí senhora/Desse banco de cortiça/Venha nos dar as Janeiras/Ou morcela ou chouriça”, “Ó minha rica senhora/Não tenha vergonha não/Ponha a mão na salgadeira/Puxe lá um chourição”, “A senhora que aqui mora/seria boa pessoa/se nos trouxesse presunto/e um pedaço de broa”, popular e “Daqui donde estou bem vejo/um canivete a bailar/para cortar a chouriça/que a senhora me há de dar”, Cancioneiro Popular Português).

A origem da palavra janeiras reporta-se a janeiro, que por sua vez reporta-se a Janus, deus dos princípios ou das entradas, ou das transições, com duas faces, uma envelhecida e outra jovem, passado e futuro.

Todos nós, de alguma forma, somos impregnados pelo deus Janus nestes primeiros dias do ano, imaginamos novos começos, puros e isentos de mágoa, transfigurando o passado, já escrito e memorizado; agimos de forma particularmente carinhosa a desejar bom Natal e bom Ano Novo a todos os transeuntes, mesmo que seja efetivamente só de passagem.

Depois terminam as festas e lá para o dia nove de janeiro já voltamos à normalidade dos dias (felizmente cada vez maiores), dos estudos, das lutas e do trabalho.

Haja Saúde.

Feliz Ano Novo.

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PorAntónio Guerreiro
Natural de Silves, nascido em 1962, é doutor em Educação Matemática, professor e diretor da Escola Superior de Educação e Comunicação da Universidade do Algarve. Os seus interesses atuais nos tempos livres são a escrita, a leitura e a fotografia.
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