Dezembro é mês de Natal e de festa em família. A família deve ser, embora nem sempre o seja, um espaço de união, o principal espaço de referência, proteção e socialização dos indivíduos, independente da forma como se apresenta na sociedade. Ela exerce uma grande força na formação de valores culturais, éticos, morais e espirituais.
Família, para mim, é formada por aquelas pessoas cujos laços, de sangue ou não, são tão fortes que têm a capacidade de conectá-las para sempre, independentemente de tempo, distância ou ausência. Esta conexão não implica a vivência sobre o mesmo teto. A distância perde a sua força, quando a conexão pelo afeto aproxima os seus elementos.
A Organização Mundial Saúde (OMS) define a família como o contexto de promoção da saúde e redução da doença, onde, desde que nascem, os indivíduos desenvolvem crenças e comportamentos de saúde. É na família, que cada membro se constitui como sujeito autónomo, lugar de referência para a garantia da sobrevivência e proteção dos seus membros, independentemente da sua forma ou estrutura.
A origem da família estende-se por um passado imensurável, e perde-se no tempo, por ser impossível definir sua extensão. No entanto, é singular a ideia de que os seres vivos se unem e criam vínculos uns com os outros desde sua origem, seja em decorrência do instinto de perpetuação da espécie, seja pelo desejo de não viver só, transmitindo-se, muitas vezes, a ideia de que a felicidade só pode ser encontrada a dois.
Por estar em constante evolução, diversos foram os modelos familiares existentes ao longo da história, cada qual com seus ditames, diretrizes, costumes e práticas. O homem percorreu um longo caminho que levou a novas descobertas e à progressão da humanidade. A família sofreu nas últimas décadas profundas mudanças de função, natureza, composição e, consequentemente, de conceção. O patriarcalismo que outrora havia feito com que a sociedade esquecesse a atração natural entre os seres humanos – affectus -, abriu-se a novas formas de constituição, mais flexíveis e plurais, baseadas nos laços de afetividade entre seus membros. A família, que antes existia apenas para ser transmissora de bens, passa a ser local de relacionamento. A função social da família é deveras importante, na medida em que permite a incorporação dos novos valores sociais no Direito Jurídico, reconhecendo o atual conceito de família. Não é requisito para haver família, que haja homem e mulher, nem pai e mãe; há famílias nucleares só de homens e só de mulheres, como também sem pai ou mãe. O afeto é o que une.
Muitas mudanças têm ocorrido. Antes, a mulher era a única responsável pela criação e educação dos filhos, além de cuidar das atividades domésticas; aos poucos, passou a ser incumbida também ao homem a participação nas questões familiares; mãe e pai passaram a gozar de licença de maternidade/paternidade. A sociedade do século XXI é uma sociedade plural, complexa, diferenciada.
Quando as famílias conseguem construir um LAR – Lugar de Afeto e Respeito, a família torna-se num terreno fértil onde o individuo pode crescer e desenvolver-se física e psicologicamente, construindo o seu caracter e desenvolvendo a sua personalidade. Desse modo, pouco importa a “espécie” ou “tipo” de família na qual o indivíduo está inserido, o que deve ser levado em consideração é o seu fundamento, que deve ser a plena realização e o bem-estar de seus membros, na proteção e respeito pelas individualidades de cada um.
Neste Natal, mais do que presentes materiais, coloque afeto na sua Arvore de Natal, coloque os ingredientes que transformem a sua família numa família feliz e construa em 2023 um verdadeiro LAR – LUGAR DE AFETO E RESPEITO.
Não é pequenina contradição ser dotado de tão pouco sentimento familiar e ter tanta necessidade de uma família. E isto sei eu que não tem remédio. Dir-se-à que tenho a Pilar, mas Pilar não é família, é Pilar. Só por ela não me sinto num deserto.
José Saramago – Cadernos de Lanzarote (1993)
Feliz Natal e Feliz Ano 2023!








