O concelho de Silves está ameaçado pelo deserto. Não falo da seca. Falo do deserto de notícias. Mais de metade dos concelhos em Portugal está, ou corre o risco de se vir a tornar, um “deserto” de notícias locais.
Dos 308 concelhos existentes em Portugal, há 78 em “deserto total”, 24 em “semi- deserto” e 88 “sob ameaça”. Feitas as contas: 6,3% da população vive em algum tipo de deserto de notícias; enquanto 13,4% vive no “deserto total ou em comunidades em risco de se tornarem desertos”. É mais de um milhão e quatrocentas pessoas.
Estes são dados do estudo “Desertos de Notícias Europa 2022: Relatório de Portugal”, realizado pelo projeto MediaTrust.Lab, da Universidade da Beira Interior, divulgado há poucos dias.
Sendo um estudo pioneiro em Portugal pretende “lançar um primeiro olhar para o problema da falta de cobertura noticiosa sobre os territórios mais pequenos.” Territórios em que a população tem acesso à informação nacional e internacional, mas pouco ou nada sabe sobre o que se passa na sua terra.
Nos mapas apresentados no referido estudo, verifica-se que o nosso concelho se encontra “ameaçado de deserto”, tendo apenas um jornal impresso – o Terra Ruiva, e um jornal digital – o site do Terra Ruiva.
O que nos coloca na lista dos 54 concelhos onde existe uma publicação mensal que conta com outros meios não impressos (digital e/ou rádio).
Um pouco melhor do que a situação de 182 municípios de Portugal onde não há jornais impressos a fazer a cobertura noticiosa frequente – 59% dos concelhos.
Mas estamos no “deserto total”, no que respeita a rádios. Neste sector juntamo-nos a uma lista de 118 concelhos que não têm nenhuma rádio para veicular notícias locais.
E de que maneira a ausência de noticias locais impacta na vida das comunidades? É o próximo tema que os autores deste estudo – Pedro Jerónimo, Giovanni Ramos e Luísa Torre – pretendem analisar.
A nossa experiência de vida dir-nos-á que uma comunidade que não se conhece a si própria, que não festeja os seus sucessos e não contraria as suas debilidades, será sempre mais fraca, com os seus membros desligados entre si, todos mais pobres do ponto de vista de conhecimento, quer coletivo quer pessoal.
A grande questão é, no entanto, aquela que todos colocam: como se garante a sobrevivência – que é de sobrevivência e não de vida plena que falamos – de um jornal local? Como pagamos os meios técnicos e humanos necessários? Um dado inquietante que este estudo revela é que existe uma relação muito evidente entre o poder de compra nos concelhos e a produção ou ausência de notícias locais. Quanto menor o poder de compra, mais avança o deserto das notícias.
… na altura de “fecho de ano” muitos de nós, a nível pessoal ou coletivo, fazemos o balanço do ano e desenhamos os projetos para o ano seguinte, idealizamos o futuro com maior ou menor expetativa…. às vezes desejando que nada mude, outras que tudo seja diferente…
Para um projeto como este, o Terra Ruiva, fundado por uma associação e levado a cabo, mês após mês, com uma extraordinária dose de trabalho gratuito e resiliência dos colaboradores e uma enorme dose de trabalho não remunerado e persistência da sua direção e amigos, a questão da continuidade é hoje um desafio sério. Que se torna ainda mais complexo na situação de crise global que atinge os meios de comunicação social e as dificuldades que o país atravessa.
Para não terminar numa nota muito pessimista, deixo os votos para que o novo ano nos traga esperança, amor, saúde, solidariedade e… muitas notícias locais.







