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Editorial

O dinheiro do Costa

Paula Bravo
Última Atualização: 2022/Nov/Sáb
Paula Bravo
4 anos atrás
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Alguns talvez me olhassem com rancor, outros ficariam ressentidos, com certeza. Mas é o que me tem apetecido fazer, interpelar quem, do alto do seu conforto, acha por bem ridicularizar o “dinheiro do Costa”… Ai, o Costa deu-me 125 euros, diz-se na rua e nas redes sociais, mesmo antes de se soltarem as gargalhadas, o escárnio e com frequência a maledicência…

Não vou elogiar a medida do Governo, porque o que defendo é salários dignos que não necessitem de ajudas, apoios, solidariedades e muito menos caridades. Mas as coisas são como são e enquanto não as conseguirmos mudar temos que ter o pragmatismo suficiente para as ver tal como se apresentam. E a realidade – a triste e crua realidade – é que estamos mal. Mal. E a realidade é que 125 euros, o dinheiro do Costa, permite a muitas famílias comprarem a alimentação do mês. Com esforço o farão, mas, quero crer que esta insignificância fará a diferença, em muitas casas, entre a fome, e o “remedeio”, como dizia a minha avó.

Numa sociedade cada vez mais rendida ao cinismo é fácil a chacota dirigida ao Costa, ao Governo e a “eles”  ou  “àquela cambada”.

Mas àqueles que enveredam por esse caminho fácil e popularucho gostava de lhes perguntar: E vocês, sabem o que é ter fome? Sabem o que é passar necessidades? Sim, necessidade a sério, daquelas coisas básicas, pão, carne, fruta, comida para por na mesa? Sabem o que é receber uma conta de luz e não ter como a pagar?

Estou convicta de que praticamente todos os que desdenham da “ fortuna que o Costa me deu” responderão negativamente às questões colocadas. Porque a fome, a miséria, a necessidade remediada ou escondida não se manifesta com risotas, anedotas ou chacota política. Manifesta-se com revolta. Ou com um silêncio que nem sei descrever porque há sentimentos que só quem os vive pode saber. Aqueles que surgem quando não se tem dinheiro para colocar comida nos pratos dos filhos. Ou quando se teme não conseguir pagar a renda nesse mês. Ou simplesmente não ter possibilidade de oferecer uma prenda no Natal.

Talvez o passar dos anos me tenha tornado mais lamechas, sentimento reprovado por um antigo primeiro-ministro que gostava de ir mais longe do que a Troika, no que respeita à austeridade… talvez… mas sinto-me incapaz de gozar com “o dinheiro do Costa” por um profundo respeito a quem dele verdadeiramente necessita.

Há, no nosso país, um número assustador de pobres. Uma percentagem vergonhosa de trabalhadores que não obstante terem um emprego e um salário não conseguem suportar as despesas. E uma classe média cada vez mais sufocada, literalmente a desaparecer. Tudo isto a par de empresas que não param de engordar com os lucros extraordinários (extraordinária expressão!), que a crise proporcionou. E que, ainda assim, mostram-se estarrecidas com a tímida pretensão manifestada pelo Governo de lhes aplicar uma taxa suplementar….

No caldo da incerteza em que vivemos, há quem pense. Hoje tenho 125 euros na conta. Hoje não terei fome. Amanhã não sei. (E se isto não nos provocar um aperto no peito, então não andamos cá a fazer nada.)

 

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PorPaula Bravo
Natural de S. Bartolomeu de Messines, nascida em 1963. Licenciada em Comunicação Social. Desde 1986, trabalhou em vários órgãos de comunicação nacionais e regionais. Dirigente associativa. Fundadora e diretora do Terra Ruiva desde abril de 2000.
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