Encontrada maioritariamente em países mediterrânicos como Espanha, Itália, Marrocos, Turquia e Portugal, a alfarrobeira marcou durante largas décadas a paisagem campestre do sul do país, onde não raras vezes ali estava junto de oliveiras, amendoeiras e figueiras, compondo o tradicional pomar misto de sequeiro algarvio.
Se no passado o seu fruto, a alfarroba, era essencialmente utilizado para fins de alimentação animal (ração) ou humana (farinha), actualmente, a sua utilização, quer da polpa como da grainha, é mais diversificada sendo possível encontrar uma panóplia de produtos desde goma, xarope, agente estabilizador, doces, tabletes, barras e bolachas de alfarroba (como substituto do chocolate), licores e muito mais, para além da sua integração nas indústrias farmacêutica, cosmética e até têxtil.
Esta diversificação na utilização e o aumento da procura por um produto natural tem impacto na valorização que se tem feito sentir nos últimos anos, recompensando não apenas quem investiu e apostou na produção de alfarroba – maioritariamente pequenos e médios produtores – mas também quem vê nela um rendimento extra para fazer face às reformas de baixo valor numa óptica de subsistência. Infelizmente, isso também significa que para os “amigos do alheio”, o fruto é ainda mais apetecível, pois o potencial proveito será maior.
Diariamente, chegam relatos de pessoas que foram vítimas de furto de alfarroba, de ameaças e de violência por parte de ladrões quando confrontados nas suas propriedades, quer no concelho de Silves como nos concelhos circundantes.
A prática do furto e roubo de alfarroba é antiga e repete-se verão após verão numa espécie de faroeste que opõe, por um lado, os produtores e as autoridades e, do outro, os ladrões e alguns compradores de mercadoria roubada que a adquirem por um preço inferior ao mercado, com pagamento em género, sem existência de faturas, nem guias de transporte. Recorde-se que, segundo dados do Comando Territorial de Faro da GNR divulgados ao jornal Expresso, foram furtadas 63,9 toneladas de alfarroba em 2021 e 65,5 toneladas em 2020. Ainda é cedo para realizar um balanço para o ano de 2022 dado que a época da apanha decorrerá até ao final de Setembro e terminada essa fase, os larápios concentram-se nos locais de armazenamento, contudo, até ao momento e apenas no Algarve, a GNR apreendeu mais de 36 toneladas de alfarroba, sendo que em apenas duas detenções, em Vila Real de Santo António e Castro Martim, foram recuperadas cerca de 23 toneladas.
Cansados deste calvário e da falta de soluções por parte da tutela para terminar com esta prática useira e vezeira, centenas de produtores manifestaram-se em Loulé para expressar o seu descontentamento e expôr a passividade de quem tem em sua posse o poder e, pasme-se, uma proposta de legislação elaborada por um grupo de trabalho que envolveu associações de produtores e diversas entidades – de entre as quais, a ASAE, a GNR, a Autoridade Tributária e Aduaneira e a orientação da Direção Regional de Agricultura e Pescas do Algarve. Um verdadeiro esforço colaborativo que merecia outro tipo de atenção por parte do Ministério da Agricultura, da senhora Ministra e em última instância do Governo, do que permanecer fechado numa gaveta há mais de um ano. Especialmente se tivermos em consideração que Portugal é um dos maiores produtores mundiais de alfarroba. O reforço do policiamento e da fiscalização, apesar de bem-vindos, constituem um paliativo. É tempo de acabar com a conivência.





