A inflação está de volta e parece que veio para ficar, afetando tanto a economia nacional como a internacional, refletindo-se na redução da taxa de crescimento económico e no agravamento da pobreza e das desigualdades sociais.
A subida generalizada dos preços prejudica, sobretudo, os rendimentos fixos, i.e., salários e pensões (trabalho), já de si, degradados, ao contrário dos detentores de rendimentos variáveis (capital), sendo que podem subir os preços quando querem. Veja-se o exemplo das petrolíferas que aumentam os preços todas as semanas (a GALP em 2021 obteve 614 milhões de euros de lucros, e só no 1.º trimestre de 2022, acrescentou mais 155 milhões de euros).
O governo não tem coragem para taxar os chamados lucros “extraordinários e inesperados”, resultantes da atual crise energética, a exemplo da Itália, Espanha e outros países (medida recomendada pelos insuspeitos FMI e OCDE), como se opõe à imposição de um regime excecional e temporário de preços máximos à comercialização dos combustíveis, manifestando o receio de hostilizar o Capital.
As crises são momentos ideais para os especuladores e para obter grandes fortunas.
Não é possível ignorar que as consequências da guerra na Ucrânia, nomeadamente as sanções impostas à Rússia, país invasor daquele país (invasão que condeno), no contexto do conflito que teve início em 2014, afinal, produzem um efeito de bumerangue e destruidor sobre as economias europeia e mundial, que os seus autores e mentores, não previram, adivinhando-se no curto prazo, agitação social e forte contestação popular.
O aumento brutal dos preços resulta da guerra e das sanções, sendo indissociável da natureza globalizante e interdependente do capitalismo dominante.
A subida brusca da inflação é, efetivamente, consequência das sanções e da exclusão parcial do mercado mundial, de um dos maiores produtores de petróleo, gás natural, cereais, fertilizantes, minérios e outras matérias-primas fundamentais (Rússia) e da Ucrânia, esta, no setor dos cereais, que levou a desequilíbrios na relação entre oferta e procura, menor crescimento económico, crise energética, crise alimentar, crise de cereais, falhas nas cadeias de abastecimento, maior especulação, subida das taxas de juro, etc. É duvidoso que seja com sanções e mais armas, que se termina com a guerra inter-capitalista e a disputa geoestratégica que se trava na Ucrânia. O mundo corre o sério risco de uma guerra nuclear, que colocaria em causa a própria existência do planeta Terra. Os governos da União Europeia, submissos perante os EUA, na sua política de confronto com a Rússia e a China, brincam com o fogo e com a vida dos europeus. Onde parará a escalada dos preços? Ao contrário dos governos, as entidades internacionais (FMI, OCDE, Banco Mundial) defendem que a inflação elevada vai perdurar. Para já, os efeitos revelam-se severos para a dinâmica da economia e o nível de vida dos portugueses. O problema também está em que, perante a crise, o governo socialista não se dispõe a afastar-se das soluções neoliberais, insistindo na obsessão pelo controlo do défice e da dívida pública, recusando-se a intervir, por exemplo, no aumento dos salários e pensões, dando assim, um sinal para que o privado também o fizesse, declinando igualmente o caminho do incremento do investimento público, decidido com critério, que teria um efeito multiplicador sobre a economia. Desde 2010, apenas foram feitas duas atualizações nos salários da função pública, uma de 0,3% em 2020 e outra de 0,9% em 2022. Portugal transforma-se progressivamente num país de salário mínimo, que pouco se diferencia do salário médio.
Poder Local. Os municípios também sofrem duramente as consequências da inflação. Desde logo, na redução da sua capacidade de investimento e realização. Os preços-base das novas empreitadas lançadas a concurso subiram consideravelmente, se compararmos dezembro de 2021 com o mesmo mês de 2020, sendo que o ano de 2022, vai piorando o cenário. As empreitadas em fase de execução sujeitam-se a revisões extraordinárias de preços, por força da aplicação do Decreto-Lei 36/2022, de 20 de maio.
É impressionante e dramático o aumento dos preços de matérias-primas, combustíveis, materiais e equipamentos, para além da disrupção que se verifica nas cadeias de abastecimento.
No período atrás indicado, o aço em varão e perfilados aumentou 41,7%, os betumes a granel, 61,2%, os derivados de madeira, 65,2%, e o tubo de PVC, 71,3%! No conjunto das empreitadas de obras públicas promovidas pelo Município de Silves, assistimos a aumentos inesperados na ordem de alguns milhões de euros, que abalam a capacidade orçamental e inviabilizam vários dos investimentos programados. Esta realidade “importada” reforça a necessidade de uma gestão municipal ainda mais eficaz, eficiente e prudente, que não falhe na priorização e controle do volume do investimento.








