Quando deveria estar a terminar a edição de julho, tive de enfrentar a doença por Covid-19. Por uns dias, debati-me com os sinais de uma gripe forte e uma tremenda vontade de não fazer nada, além de estar deitada.
Há uns anos atrás, estar doente significava ausência no local de trabalho e inatividade profissional. Hoje, com o teletrabalho vulgarizado em muitos sectores e com as ferramentas de trabalho dentro da habitação, o direito ao descanso em caso de doença perdeu-se para muitas pessoas. Assim se passou comigo, a aproveitar os minutos de maior capacidade para ir mantendo ativo o site do jornal, responder a emails, fazer telefonemas…
E aqui chegamos…. quase sem nos apercebermos. A atividade profissional invadiu a esfera pessoal de muitos de nós, impondo a sua presença, manifestando a sua urgência e gritando as suas exigências, em período de doença, nas férias, aos fins de semana, ao final do dia, à noite… os telemóveis, os emails, as mensagens, as redes sociais, tudo absorve a nossa atenção.
Sem surpresa, muitos de nós andamos sobrecarregados, cansados, extenuados. Mas nem todos têm a capacidade e/ou a possibilidade de “desligar”. E chegamos ao ponto em que houve a necessidade de criar uma lei, publicada em Diário da República a 6 de dezembro de 2021, que confere ao trabalhador o direito ao descanso. E o direito a coisas tão básicas como desligar o computador e o telemóvel da empresa quando termina o dia de trabalho.
Esta, como tantas outras bondosas leis que o nosso país tem aprovadas, só fará sentido se puder ser aplicada, sem constrangimentos, por parte dos trabalhadores. Mas oiço mais do que um relato de jovens, recém-chegados ao mundo do trabalho, que só se atrevem a levantar do seu posto de trabalho duas ou três horas depois do horário, porque encontraram na empresa o tal espírito de “ter que dar tudo”. E quem não adopta este comportamento, ainda que cumpra todas as suas obrigações, sente que está em falta…
A pandemia, como temos ouvido até à exaustão, baralhou ainda mais as regras do trabalho, empurrou-nos os dossiers e os compromissos para dentro de casa, privou-nos do convívio e socialização com os colegas e deixou-nos num estado de indefinição entre os direitos e os deveres.
Na prática, perdemos o direito ao nosso descanso, “o direito à preguiça”, como reclamavam os trabalhadores há umas décadas atrás, quando o direito às férias (e pagas!) era uma miragem. Em Portugal, o direito a férias só se tornou uma prática comum após o 25 de abril, apesar de estar regulamentado na lei desde 1937. Mas o que persistia, eram os longos dias de trabalho e o direito a oito dias de férias, ao fim de cinco anos de trabalho e apenas com os domingos como dias de descanso, enquanto os trabalhadores rurais lutavam pelas oito horas de trabalho diário. Só o conseguiriam em 1962, mostra a história do trabalho… e interrogo-me: o que diriam estes homens e mulheres se vissem agora os “escravos modernos”, sempre ligados, sempre contactáveis?!…
O que se requer neste verão, que se inicia com temperaturas elevadíssimas, é um pouco de tranquilidade, um espaço que nos permita respirar e sermos apenas, nem que seja por alguns dias, apenas humanos, em conexão com a natureza, com a família, os amigos. Há quem lhe chame “férias”.
Lutemos por elas, sem constrangimentos, tal como lutamos pelo direito ao trabalho. Pelo direito à preguiça que nos faz pessoas melhores.
Nota: “O Direito à Preguiça” é o título de um livro de Paul Lafrage, jornalista, escritor, socialista e ativista político franco-cubano.
Nesse livro, publicado em 1880, o autor fala da “religião do trabalho” que “exige dos seus fiéis crescentes sacrifícios laborais, em troca de um lugar na santa comunidade de cidadãos honestos”.
Critica a “devoção ao trabalho” e aponta este “absurdo zelo” vivido numa sociedade em que o indivíduo prescinde do seu tempo livre “em nome da sobreprodução e da acumulação obsessiva”. “O Direito à Preguiça” é descrito como um “eloquente manifesto contra o vício do trabalho, que corrompe as faculdades humanas, e em defesa da liberdade fundamental de empregarmos o tempo a nosso bel-prazer”.






