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Opinião

Do balcão à plateia no Cineteatro de Silves

Paulo Penisga
Última Atualização: 2022/Jun/Qua
Paulo Penisga
4 anos atrás
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Quando era miúdo, 7/8/9 anos, aos sábados ia sempre ao cinema com o meu pai. Quase sempre era uma cowboiada, não das melhores, estávamos no tempo do Western Spagetti* e os John Ford e outros passavam era na tv aos sábados e domingos à tarde. Numa dessas noites, o porteiro, o simpático senhor Pessanha, abalou a ansiada expectativa ao dizer ao meu pai que o filme não era para a minha idade. Lá voltei para casa, desolado, onde o meu pai me deixou, para depois voltar ao convívio dos amigos no café Havaneza.

Contents
  •     * Produzidos e realizados em Itália, como o termo sugere, recriavam o Oeste americano em Espanha (no deserto de Almeria, na vizinha Andaluzia) ou em regiões italianas. Nos seus melhores exemplos, raros, destaca-se Sergio Leone com os filmes  Por um punhado de dólares e O bom, o mau e o vilão, com Clint Eastwood e música de Ennio Morricone.
  •             ** Passados muitos anos, em 2013, (divulgado em 2016 pela imprensa), o realizador confessou que a atriz Maria Schneider desconhecia a cena da violação, combinada entre ele e Marlon Brando, o que  se tornou uma mancha na carreira de Bertolucci e alterou todo e qualquer olhar interpretativo sobre este polémico filme.  

Filho da burguesia da cidade, íamos para o balcão, onde o meu pai tinha lugares marcados. Numa dessas noites, no intervalo, pus o pé na cadeira da frente, não o retirando a tempo, distraído, quando se sentou o Dr. José Júlio Martins, figura com grande peso social e também corporal, como os mais velhos se lembrarão. Tímido, sem coragem para incomodar tão imponente figura, nem chatear o meu pai, aguentei um bom bocado, só retirando o pé quando o dito senhor, talvez sentindo algum elemento a mais, se mexeu na cadeira. Ufa, quase esmagava as falanges.

Tínhamos de gramar com o noticiário oficial, ainda a preto e branco, quase sempre uma visita ou inauguração do presidente Américo Tomás, o corta-fitas, ou mais um discurso de Marcelo Caetano. Uma seca para um miúdo e também para muitos dos adultos, creio. Estávamos ainda em ditadura, no início dos anos 70, e a primavera marcelista era uma modorra de propaganda amolecida a retardar o anseio de aventuras a cores de um miúdo no grande ecrã.

Era um tempo em que ir ao cinema fazia parte integrante da vida social, um mundo de aventuras e de emoções com que sonhávamos, então ainda conduzidos por mão adulta. E como era belo o cineteatro, com o seu imenso foyer e o balcão; havia sempre um bombeiro fardado a rigor, de capacete dourado e machado à cinta, vigilante, tinha de aguentar a sessão de pé.

Em Abril de 1974, então com 11 anos, a rotina da manhã de aulas no ciclo preparatório é quebrada por um acontecimento em Lisboa. Os professores algo nervosos e agitados, sem saberem bem o porquê, dizem que podemos sair das salas para o recreio. É grande a alegria e reina a brincadeira com esta inesperada saída das aulas antes do intervalo. A professora Sol e o professor Jordão, mais politizados e quem sabe prenunciando a boa nova, entram com os seus carros para o recinto interior da escola e de vidros abertos e rádio ligada acompanham atentos a escassa informação que é transmitida.

Com o 25 de Abril e o início da adolescência dá-se a passagem do balcão para a plateia. Então, com os amigos, no seio das classes populares é o emergir num outro universo. Na imensidão humana da plateia encontram-se até as famílias mais pobres e vítimas do estigma social, como os Xanbunas, os Calhordas, os Rendeiros que, num tempo sem rendimento social, sobreviviam de biscates e mandados, vendendo castanhas e outros miseráveis sustentos. A animação é grande, pontuada por comentários em voz alta, nos quais se identificam algumas das mais singulares e típicas figuras da cidade. O Baguinho e o Bento Monteiro, por exemplo, produziam sons únicos e irrepetíveis com grande e descuidado mérito igualitário em termos de ronco e sonoridade intestinal.

Moços novos, no esplendor da puberdade, ocupávamos as filas da frente, onde se via melhor e um admirável e excitante mundo novo nos entrava pelos olhos. Os filmes proibidos, já permitidos, chegavam finalmente a esta pequena e pacata cidade. Recordo O último tango em Paris de Bernardo Bertolucci**, com Marlon Brando e Maria Schneider, que vimos sem maturidade para aprofundar, apenas retendo a emoção erótica. Pelo qual   levámos um severo ralhete da professora Sol, quando soube que o tínhamos visto. E com a liberdade chegava também a libertinagem. Sinal dos tempos, o senhor Serrano, da livraria papelaria onde os nossos pais compravam manuais e materiais escolares, iniciava ainda um pouco a medo e com o seu mau feitio uma nova fonte de rendimento em leituras menos propícias ou formativas.

 

    * Produzidos e realizados em Itália, como o termo sugere, recriavam o Oeste americano em Espanha (no deserto de Almeria, na vizinha Andaluzia) ou em regiões italianas. Nos seus melhores exemplos, raros, destaca-se Sergio Leone com os filmes  Por um punhado de dólares e O bom, o mau e o vilão, com Clint Eastwood e música de Ennio Morricone.
            ** Passados muitos anos, em 2013, (divulgado em 2016 pela imprensa), o realizador confessou que a atriz Maria Schneider desconhecia a cena da violação, combinada entre ele e Marlon Brando, o que  se tornou uma mancha na carreira de Bertolucci e alterou todo e qualquer olhar interpretativo sobre este polémico filme.  

 

 

 

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