A recente campanha eleitoral para a Assembleia da República demonstrou que subsistem diferenças substanciais entre a esquerda e a direita do espectro político partidário, sendo que os modelos de economia e sociedade, as soluções defendidas para o desenvolvimento do país, são claramente divergentes, embora, creia o autor – e aqui reside a tragédia – sejam impercetíveis para a maioria do eleitorado (abrindo um parêntesis e por analogia: as classes sociais “ainda” não desapareceram, a luta de classes é realidade incontornável, as ideologias entram-nos diariamente pelas portas adentro, a ideologia dos que proclamam a sua extinção idem e a vida atesta todos os dias que o capitalismo não é o fim da história).
Para o comum do cidadão, a perceção das dissemelhanças entre esquerda e direita ou a avaliação do mérito/demérito de ambos os quadrantes, é dificultado, designadamente com a estratégia dos partidos da direita ou da extrema-direita pró-fascismo, que dissimularam ou embrulharam os seus reais objetivos programáticos, não os explicitando, quando a verdade é esta: antagonizam os interesses das massas populares, das classes trabalhadoras e dos micro, pequenos e médios empresários, antagonizam a transformação da sociedade no sentido da liberdade, do progresso e da justiça social.
Venderam gato por lebre, propagandeando demagogia populista, disseminando intolerância, instrumentalizando as pessoas mais pobres e desesperadas – na ânsia da obtenção do voto nas urnas – tendo sido recompensados, nomeadamente os partidos à direita do PSD, com exceção do CDS. No geral, as propostas da direita são dirigidas para o enfraquecimento/destruição do Estado social, caminhando para um Estado mínimo, regulador e assistencialista, focando-se na mercantilização e privatização gradual de vários setores: da saúde (deixando o Serviço Nacional de Saúde para os pobres, promovendo o negócio da doença), da educação (desinvestindo na escola pública, favorecendo os colégios privados) e da segurança social (entregando parte das pensões ao jogo especulativo do mercado), sob a ideia fantasiosa da “liberdade de escolha”, mas na curiosa condição do “odioso” Estado pagar a fatura aos privados.
Franjas importantes da população tomaram consciência destes objetivos? Não me parece. No geral, as propostas da direita preconizam um modelo económico neoliberal assente em baixos salários, cortes e congelamentos, emagrecendo os direitos laborais, liquidando a contratação coletiva, desequilibrando ainda mais a relação trabalho/capital e promovendo a desproteção social de quem precisa. Franjas importantes da população tomaram consciência destes objetivos? Não me parece. Neste enquadramento, soma-se o facto dos dois partidos dominantes do sistema, PS (esquerda), mas com tendência para a realização de políticas de direita, e PSD (direita), convergirem em áreas fundamentais (políticas europeias, leis laborais, privatizações), escasseando vontade e opção de classe ao PS para desenvolver políticas alternativas; relançar o investimento público; reindustrializar; defender solidamente o Serviço Nacional de Saúde; valorizar a Escola Pública; promover a Habitação; repor a contratação coletiva e os direitos laborais sonegados no período da troika; preconizar o aumento geral de salários, pensões e reformas; combater a precariedade; afrontar os grandes interesses e a corrupção; libertar-se dos garrotes externos impostos em sede de política orçamental e recuperar outros instrumentos de soberania.
O desfecho do sufrágio direto e universal, mostrou que António Costa, ao provocar as eleições, quis libertar-se dos seus parceiros de esquerda (CDU e BE), enfraquecendo-os significativamente, através da maioria absoluta conquistada, que sempre perseguiu. Obteve um resultado esmagador, sobretudo – à conta das sondagens, lançadas em vagas sucessivas e brutais até à boca das urnas, da parcialidade das televisões e do desequilibrado comentário televisivo, condicionando e lavando o cérebro dos cidadãos, que promoveram a bipolarização PS/PSD e a vigarice do voto útil, que se concretizou à esquerda. Estratégia vitoriosa, mas empobrecedora da democracia pluralista, tão vangloriada pelos seus paladinos. Torna-se, assim, inútil ao PS, respeitar o “Acordo de Cavalheiros” com o PSD, que o precavido Ministro Augusto Santos Silva, anunciou uns dias antes do escrutínio. O futuro do país enfrenta dura encruzilhada. Certamente, não por acaso, objetivos importantes dos programas eleitorais, quer do PS, quer do PSD, foram ignorados durante a campanha eleitoral: conciliar a redução significativa da dívida pública num curto período de tempo, na ordem dos 41 mil milhões de euros em 5 anos (PS) ou dos 103 mil milhões de euros em 9 anos (PSD), com o crescimento económico, fator indispensável para a melhoria das condições de vida dos portugueses, assemelha-se à quadratura do círculo. Claro, a vontade do povo é soberana!






