O Algarve continua um território estranho para quem se candidata à Assembleia da República. As medidas políticas para a região não são nem debatidas antes das eleições, nem aplicadas depois das mesmas. Os políticos não querem saber e os algarvios respondem não aparecendo nos locais de voto. Recordemos que o Algarve teve uma taxa de abstenção de 54,17% nas últimas eleições legislativas, uma das mais altas no país.
Quando falamos no abandono e desertificação do interior do país não será normal pensarmos no Algarve, pensamos antes no Alentejo ou em Trás-os-Montes. Nem será dos lugares com maiores dificuldades socioeconómicas, porque de facto o turismo e lazer fez com que seja um dos principais pontos do país nesse sector, uma referência na Europa, e também no investimento imobiliário internacional. Esta particularidade da região faz com que a necessidade de reformas não pareça urgente, mesmo que se trate na realidade de um lugar que está em crise, com uma economia extremamente desigual e deprimida. Desengane-se quem pensa que estou a falar de uma realidade pós-pandémica, pois o Algarve encontra-se numa situação difícil muito antes da pandemia.
Neste novo ano, seria uma boa altura para nos começarmos a questionar do porquê de uma região, que contribui com quase 5% para o PIB, continuar a ser desprezada nos sucessivos Orçamentos de Estado (OE), que constituem sempre um vazio quanto a investimentos estruturantes, como é o caso do novo hospital central, a modernização da ferrovia, a requalificação da EN 125, a agricultura sustentável, ou a criação de fundos e iniciativas que auxiliem o aparecimento de novas empresas criadoras de empregos de elevado valor. Não existia nada nisto no OE 2022 (que entretanto foi chumbado), portanto, o que leva um algarvio a ter interesse em votar? Será de facto mais difícil isso acontecer.
Ressurge novamente a discussão da regionalização, em termos ainda ambíguos no que toca o seu contributo real para regiões como o Algarve. Hipoteticamente, a regionalização acompanhada de uma reforma política poderia ser bastante benéfica, simplesmente porque um dos objetivos da regionalização é aproximar a população da classe política e responsabilizar os governantes locais pelas medidas que tomam. A exagerada centralização é um dos principais factores para o subdesenvolvimento de Portugal, principalmente nas áreas rurais ou do interior.
O Algarve há muito que anda à deriva, completamente consumido por uma decisão que foi tomada na década de 60, que possibilitou tornar-se num centro turístico no sul da Europa. As transformações globais que aconteceram (e continuam a acontecer) não permitem mais que apenas isso seja suficiente. A pandemia só foi a confirmação desse facto. Mais dificuldades poderão aparecere dificultar o Algarve no Séc. XXI. A sua população não está preparada para a nova Era da digitalização, das alterações climáticas e da ultra conectividade. Não estamos a canalizar esforços e fundos para esses problemas, o que apenas nos faz cair num maior abismo, onde podemos adivinhar um Algarve ainda mais desigual, com problemas que vão desde a falta de água ao desemprego generalizado.
É aqui que os municípios e os deputados representantes do Algarve na Assembleia têm um papel importante. Quanto mais atenção conseguirem captar para estes problemas, mais os algarvios se interessam politicamente. Não é apenas uma questão de encontrar soluções para estes problemas, é também conseguir com que haja uma consciência no Algarve e no resto do país que este é um território que não está preparado para os desafios do Séc. XXI, muito longe disso. E todos os indicadores económicos são factuais nesse sentido. Quando tudo estiver mau demais, nem o turismo nos poderá salvar dos erros do passado.
Aproveito para desejar um feliz ano de 2022 a todos os eleitores do Terra Ruiva.






