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Opinião

A Hora Mudou

António Guerreiro
Última Atualização: 2021/Nov/Sex
António Guerreiro
5 anos atrás
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A hora mudou. A luz do dia antecipou-se numa hora ao mecanismo do relógio. A alteração horária de inverno provoca em nós uma incomodidade inicial, especialmente ao crescer da noite, pelas cinco horas da tarde. Olhamos pela janela e, lá fora, está escuro e, naturalmente, como muitos dos restantes animais, fazemos tenção de recolher, mas consultamos o nosso engenho cultural, de medida do tempo, e pensamos, ainda é cedo, são só seis horas, são só sete horas. Hora da janta. E depois ainda vêm as notícias e outros programas televisivos, da chamada hora nobre, destinada à convivência familiar, como nos antigos serões, só que, nestes tempos modernos, sem interação intrínseca nem tempo para a comunhão dos familiares. Por vezes, já é hora tardia, quando, finalmente, acabamos por desligar os apetrechos televisivos e informáticos e ir deitar, ir dormir, num horário algo desfasado com os remanescentes seres vivos.

O desconforto da tarde anoitecida é compensada por uma manhã luminosa, vivenciada após o raiar do dia. O aflorar da luminosidade entre as sete e as oito horas, nestes dias de outono e de inverno, constitui um despertar já luminoso para muitos de nós, cujos compromissos se iniciam pelas oito e trinta ou mesmo nove horas.

E assim, andamos ao ritmo do instrumento de medida do tempo, desacertados com os horários da natureza.

A luz da manhã encurta-se, porque não vivida na sua totalidade, e as trevas da noite estendem-se, num constante distender até ao solstício de inverno, porque insistimos em permanecer enérgicos ao longo de um dia, pautado pelos ponteiros das horas e dos minutos de um qualquer relógio.

Esta divergência com a natureza não é apenas horária, é também alimentar, quando consumimos produtos de outras paragens, como do hemisfério sul, onde agora se iniciou a primavera. Os nossos campos próximos oferecem-nos peras, maçãs, laranjas, castanhas, romãs. Porque insistimos no consumo de mangas, kiwis, papaias, abacates, abacaxis? Funcionar ao ritmo da natureza, absorver a energia do dia, realizando mil tarefas, e a languidez da noite, num recolhimento pessoal e social, próprio da ausência de luz, poderá constituir um acréscimo de felicidade e bem-estar pessoal.

Esta associação do nosso dia à claridade convoca ao simplificar da vida, reduzindo as tarefas e os sons exteriores no final do dia e após o pôr do Sol, vivendo o recolhimento no lar, o aconchego no nosso retiro. Viver recolhido, mas não viver isolado, viver coletivamente a vida social e cultural com o sentido energético do outono e do inverno.

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PorAntónio Guerreiro
Natural de Silves, nascido em 1962, é doutor em Educação Matemática, professor e diretor da Escola Superior de Educação e Comunicação da Universidade do Algarve. Os seus interesses atuais nos tempos livres são a escrita, a leitura e a fotografia.
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