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Editorial

Não são números, são pessoas

Paula Bravo
Última Atualização: 2021/Out/Sex
Paula Bravo
5 anos atrás
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Há coisas que, com o avançar da idade, se tornam mais fáceis de aceitar. A vida e as suas experiências tornam-nos mais complacentes… perde-se o frescor da juventude mas ganha-se maior capacidade de compreensão do facto de sermos seres humanos, com mais falhas, inseguranças e defeitos do que gostaríamos de admitir.
É verdade. Mas confesso que ainda não consegui atingir esse estágio de compreensão para esta situação. Digo o número: 51,61% de abstenção nas eleições autárquicas no concelho de Silves. Dito o número assim por si só, é como se não houvesse ninguém ali representado. Mas existem… muitos alguéns…

Desmonta-se um pouco: Em Alcantarilha/Pêra não votaram 2.075 pessoas. Em S. Bartolomeu de Messines foram 3.428 que ficaram em casa. Em S. Marcos da Serra 405.
Em Armação de Pêra foram mais os ausentes – 2.934 – do que os presentes, tal como em Algoz/Tunes – 2.614 não votaram. E repete-se a situação na maior freguesia do concelho, já que em Silves 4.528 pessoas não compareceram nos locais de voto.

De novo se compõe o retrato global e chega-se à realidade: dos 30.958 eleitores inscritos no concelho de Silves, apenas votaram 14.971 pessoas. Ou seja, houve 15.987 pessoas que disseram tanto me faz…

Não é assim uma meia dúzia que possamos ignorar, são 15.987 pessoas que não quiseram saber… Dirão que nestes números há alguns eleitores fantasma, que há pessoas que, por variadas razões, de saúde a profissionais ou por ausência, não puderam votar. É claro que sim. Mas a realidade continua a impor-se com toda a sua crueza. Há, entre nós, pessoas que não se dão ao trabalho de ir votar. Não são números – são pessoas.

Conheço algumas. Dizem: este sistema não me representa. Dizem: eles são todos iguais. Dizem: não conheço as propostas. Dizem: estou farto de votar e nada muda. Dizem: não fizeram aquilo que pedi, não vou votar. Dizem: é só promessas e depois não fazem nada. Dizem: era para ir, mas estava tanto calor que fui à praia.

São 15.987 razões para não votar. São 15.987 razões para não ter opinião sobre o futuro. São 15.987 pessoas de todas as idades, género, religiões, estatuto social e profissional.
Pessoas que se colocam do lado de lá, espetadores da vida, a dizerem, venham cá, aliciem-me, convençam-me…. Mostrem-me que trabalham para mim, ainda que eu apenas exija e nada contribua…

Não preciso de sublinhar o que o leitor já percebeu. Choca-me esta atitude. E ainda mais quando a mesma parte frequentemente de pessoas que não perdem uma oportunidade de criticar qualquer que seja a força política que lidera os órgãos municipais e locais do concelho. Que não perdem uma oportunidade de exigir e clamar pelos seus direitos (ou pretensos direitos). Esta maioria que só é silenciosa na altura de tomar posição e de fazer escolhas é perigosa na sua dinâmica, na sua indiferença social.

Com o aumento da abstenção e do afastamento voluntário dos cidadãos comuns das políticas locais e nacionais, cresce o espaço dos políticos profissionais, ganham oportunidades os carreiristas da vida – perdemos todos.
Infelizmente nem se poderá atribuir a responsabilidade por tanta abstenção, à pandemia ou ao facto de estarmos todos ainda mais ou menos condicionados por tanto tempo de isolamento e afastamento da vida pública. Porque esta tendência já se manifesta há vários anos e em todo o tipo de eleições.

Houve 15.987 silenciosos no dia do voto. Mas há um grande número a emitir opiniões sobre tudo e sobre todos nas redes sociais. Estranhos (e tristes) tempos em que vivemos. Tempos em que um direito fundamental, que nos coloca no mesmo plano de igualdade, todos cidadãos, todos com uma voz, é desprezado por tantas pessoas…

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PorPaula Bravo
Natural de S. Bartolomeu de Messines, nascida em 1963. Licenciada em Comunicação Social. Desde 1986, trabalhou em vários órgãos de comunicação nacionais e regionais. Dirigente associativa. Fundadora e diretora do Terra Ruiva desde abril de 2000.
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