A cavalo da opinião

A grande maioria das opiniões é transportada naqueles enormes sacos reutilizáveis dos hipermercados. Traze-las nas mãos não dão jeito nenhum, são tantas, depois é a chave do carro, o telemóvel, o álcool gel; uma maçada!

E são a grande maioria porque a verdadeira, a mais pura, a peneirada, aquela que escorre da pena sob a luz de um candeeiro indolente, essa, reclama do seu autor uma profunda reflexão, horas, dias, sacrifícios: uma dedicação rara e quase absoluta devoção ao tema, à matéria, ao substrato da ideia, e por fim, bem vistas as coisas, após tal depuração, é redutor, quase ofensivo, até apodar aquele pensamento, aquela reflexão, de opinião.
Com efeito, a opinião, alias a mera opinião, cai que nem bátegas de água em madrugadas de Janeiro, destituída, despida de profundidade, desaguando para o mar e diluindo-se sem nada, ou com muito pouco a acrescentar, ao compêndio de boas ideias que jazem como ornatos de sala em poeirentos armários.

Dizer que as opiniões são na maioria transportadas em sacos de hipermercado tem subjacente 2 ideias, a saber: a primeira é a colocação desenfreada, e portanto sem lógica nem critério, de assuntos, que pela sua natureza, não se devem misturar; a segunda, de ordem quantitativa, é acogular prosa leviana, onde o rigor informativo tem um cariz tão enciclopédico, como um rótulo de um pacote de bolachas e, consequentemente, só aborda os factos pela rama. Dito isto o saco é ideal: uma coisa em cima da outra, apressadas, desorganizadas, cabe tudo lá dentro!

Os opinadores encartados têm as suas fontes, em regra, outros opinadores com a carta tirada há mais tempo. Ora não será ousadia, a meu ver, e utilizando o brocado popular “ir a cavalo de”, dizer: os opinadores vão a cavalo de outros opinadores.

É incontestavelmente mais fácil colocar uns orégãos numa pizza congelada, pronta a comer; na verdade, dá outro toque, às vezes até parece outra coisa, mas dificilmente iludem os convidados acerca da sua proveniência.
Reflectir dá trabalho, é penoso, e sobretudo inimigo da produção em massa. Neste tempo de informação feroz analisa-se todo um tratado de factores múltiplos, da mesma forma que se discorre sobre as razões que levaram o treinador do Benfica (sou do Benfica) a optar pelo jogador A em vez do jogador B no jogo com o Portimonense.

A premissa aponta para 2 caminhos: rapidez, quantidade. Quem não apanhar este comboio no mundo da criação de informação o melhor é dedicar-se a fazer sonetos e colocá-los numa arca à espera, que um dia, alguém os possa vir a ler.

Além do mais, actualmente, os requisitos para ingresso, ou admissão se quiserem, na carreira jornalística não são um curso superior, nem tão pouco uma aptidão natural para as letras tal como acontecia com os jornalistas do passado -honra lhes seja feita-, basta tão só abrir conta numa rede social. E é aqui que começa a pândega, que literalmente andam todos a cavalo na opinião uns dos outros e onde se denota com uma evidente clareza o aniquilamento total da reflexão e do rigor.

A gravidade de tudo isto, escorada pelos princípios que consubstanciam a liberdade de expressão, é que actualmente, tudo, ou quase tudo, se pode dizer irreflectidamente, e por sua vez, impunemente, sem cuidar dos danos que possa vir a causar na esfera de terceiros, ou de uma forma mais abrangente, na sociedade e no mundo.

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