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Opinião

Passadiços, pontes e baloiços

Frederico Mestre
Última Atualização: 2021/Jun/Qua
Frederico Mestre
5 anos atrás
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Passear na Natureza não é sair do nosso elemento. É, pelo contrário, voltar a casa. O ato de passear por entre árvores, ouvir o zumbido dos insetos e o canto da passarada relaxa o espírito. Andar pelo campo é pisar lama, arranharmo-nos nas silvas, ser picado por insetos ou molhar os pés na água gelada da ribeira. São esses pequenos desconfortos que me fazem sentir tão confortável. Confortável, porque são marcas de um dia bem passado, porque não acontece todos os dias.

Recentemente, têm surgido inúmeras infraestruturas construídas nos nossos campos para, supostamente, promover o “turismo de Natureza”.

São baloiços, passadiços ou pontes que rasgam a paisagem para receber os visitantes de fim-se-semana. Acho bem que se promovam os passeios no campo, pelos inúmeros benefícios para a saúde e por incutir na população uma maior proximidade com a Natureza. Mas estas novas estruturas comprometem estes objetivos e têm impactos secundários nada negligenciáveis.

Os benefícios para a saúde são menores, visto que o passadiço facilita imenso a caminhada tornando-a menos desafiante para o corpo. Por outro lado, a proximidade com a Natureza, que deveria ser deste modo promovida, é muitíssimo menor. Considero, pois, que esta estratégia de promover os passeios campestres é, definitivamente, a estratégia errada.

Há ainda os impactos para a Natureza: a construção destas estruturas implica uma imensa perturbação do espaço natural, os visitantes atraídos são menos cuidadosos com resíduos e permite-se acesso a zonas que eram, de outro modo, remotas. Há alguns exemplos particularmente maus. Um trilho recentemente criado apresenta-nos passadiços que cortam a paisagem e que culminam em baloiços lilases! Tenho dificuldade em perceber o porquê desta opção estética. O lilás dos baloiços ofende a harmonia verde da paisagem. Há outros que correm ao lado de antigos caminhos, que seriam perfeitamente adequados para um passeio, outros ainda são autênticos cortes, feridas abertas, numa paisagem até aí natural.

Também na freguesia de Messines têm vindo a ser instalados alguns baloiços em zonas proeminentes em redor da vila. Se ficarmos por aí, parece-me que não é demasiado problemático. Já visitei um destes baloiços (que felizmente são da cor natural da madeira!), e são estruturas relativamente discretas que, se servirem de desculpa para uma visita ao campo, não me parecem preocupantes. No dia em que lá estive, um dos visitantes queixava-se de que o caminho até lá era demasiado acidentado, talvez preferisse uma estrada alcatroada. Esperemos que fique assim. Há outra opção que não implica ir de carro mesmo até ao baloiço, e foi isso que nós (o grupo com que eu ia) fizemos: pode deixar-se o carro a alguma distância e ir a pé até ao local.

Depois há os percursos quase integralmente naturais, e temos um bom exemplo no concelho de Silves, o Percurso das Fontes Boião-Azilheira. Aqui promove-se o conhecimento da evolvente natural e etnográfica como ela é, sem passadiços desnecessários. Quem quer ir sabe que se pode molhar, arranhar, ser picado, mas diverte-se e aprende alguma coisa. Neste percurso têm sido promovidas diversas atividades que permitem conhecer as diversas camadas da paisagem local, valorizando, por exemplo, a biodiversidade, o património arqueológico e etnográfico. É tocante ver o entusiamo da população local, que deste modo sente a sua casa e os seus costumes valorizados.

Mas nem todos os passadiços são maus. Há inúmeros exemplos nas nossas praias de passadiços entre os parques de estacionamento e a praia, para proteger a vegetação dunar. Neste caso cumprem um bom propósito, evitar o pisoteio de plantas únicas daquele ecossistema, protegendo a paisagem daqueles que, de outro modo, levariam o carro mesmo até ao areal.

Concluo dizendo que tudo tem a devida medida. Aqui, como em tudo na vida, há uma medida de bom senso. Espero que as autarquias do nosso país saibam valorizar a imensa riqueza natural dos seus territórios, protegendo-os, sem remodelações desnecessárias.

 

 

 

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PorFrederico Mestre
É natural de Moura, no Alentejo, licenciado em Biologia, mestrado em Biologia da Conservação e doutorado em Biologia pela Universidade de Évora. Desenvolve a sua actividade profissional como investigador pós-doutorado na mesma universidade. O seu trabalho incide sobre os impactos que as alterações climáticas e dos habitats naturais têm na biodiversidade. Tem outros interesses, com a fotografia e o urban sketching. Acredita que a ciência deve ser comunicada de modo claro, numa lógica de partilha de conhecimento com o público em geral.
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1 comentário
  • Luis Lanca diz:
    23 de Junho, 2021 às 14:39

    Absolutamente de acordo com a tua perspetiva Frederico. Aliás, também a chamada energia verde ou ecológica, tão divulgada e defendida por certos pensadores ditos ecologistas, deveria ser debatida de forma racional e não extremada de conceitos. Será que a plantação de centenas, milhares, de painéis solares, para produção de energia dita limpa, o será efetivamente? De que materiais são feitos os painéis em questão? Além de que para “plantar” os tais milhares de hectares de painéis solares é preciso abater milhares de hectares de árvores, muito delas sobreiros e azinheiras, com a correspondente eliminação da vida vegetal e animal que daí decorre. Acaso o abate gigantesco de veados e javalis da Herdade da Torre Bela não tiveram por base o projeto de implantação de centenas de hectares da chamada energia verde, com o consequente abate da vegetação correspondente e eliminação das espécies animais (veados e javalis incluídos) que habitavam nessa área? Só constatei o repúdio dos ditos ecologistas quanto ao abate dos animais em questão (que eu considero não terem sido objeto de uma atividade cinegética mas sim de um controlo de densidade motivada pela implantação da chamada energia verde) e não da questão que esteve no cerne da mesma.

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