Cristiano Ronaldo e as marquises da vida

Para nos distrairmos das peripécias dos súditos de Sua Majestade em terras lusas e do aumento dos números da Covid-19, o país assistiu a mais uma querela, com destaque nacional, sobre a construção de uma “marquise” num prédio de luxo em Lisboa. O “empolgante” tema fez até capas num dos jornais mais vendidos no país, curiosamente o mesmo ao qual o visado neste caso se recusa a dar entrevistas, após um conflito anterior. O tema da “marquise” foi alimentado por uns e por outros em órgãos de comunicação social, redes sociais e em círculos de maldizer, por inveja, maledicência ou honesta indignação e naturalmente acabou por surgir o “contra-ataque”. Nas redes sociais, muitos se indignaram com o que consideraram uma campanha contra Cristiano Ronaldo e contrapuseram com a notícia da sua doação avultada para a instalação e apetrechamento de uma unidade de cuidados intensivos, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa.

Isto é: como se a pessoa que faz um donativo para um hospital se torne “não criticável”. Isto é: como se uma pessoa que tenha mau gosto e insensibilidade arquitetónica, não possa ser capaz de um gesto altruísta.
Isto é: como se o bom e o mau ou o feio e o bonito, não convivessem diariamente dentro de cada um de nós.

A incapacidade revelada por muitos em criticar ou aceitar críticas dirigidas a personalidades endeusadas, como é o caso de Cristiano Ronaldo, ou de, pelo contrário, ser mais rigoroso e duro nas críticas a pessoas nesse patamar, é uma característica que esmaga o bom senso e o sentido de avaliação e de justiça.

Não por acaso, certamente, analiso este assunto na altura em que se prepara a campanha para as eleições autárquicas. Têm estas eleições uma caraterística muito própria em concelhos como o de Silves. É que, grosso modo, os eleitores conhecem pessoalmente os candidatos, ou uma grande parte deles, e a avaliação que é feita ao seu desempenho e projetos encontra-se extremamente ligada a este conhecimento e às relações pessoais existentes.
Os números das últimas eleições provam, sem dúvida alguma, que os eleitores estão cada vez menos agarrados a uma sigla e que votam diferenciado, em função da eleição e das pessoas que se apresentam aos cargos. Nas autárquicas é também crescente o número de votantes que escolhem partidos diferentes consoante a eleição seja para a junta de freguesia, câmara municipal ou assembleia municipal. E fazem-no não pelo partido, mas pelas pessoas que integram essas listas. Recentemente, uma sondagem publicada pelo Jornal de Notícias, afirmava que apenas 4% por cento dos portugueses diz votar com base na filiação partidária; enquanto 63 % votam pelo trabalho e obra realizada; 16% pela personalidade do candidato e 11% por ser filho da terra e defender os interesses locais.

Além das óbvias vantagens da proximidade entre eleitores e eleitos há que apontar igualmente as desvantagens, ou seja, a incapacidade, por vezes existente, de se separar a avaliação do trabalho e capacidades reveladas, da simpatia ou antipatia que se sente por determinado eleito. “Não gosto nada dela/dele” ou “ gosto tanto dele/dela” são afirmações que se ouvem repetidas vezes, sem que as mesmas integrem qualquer justa avaliação. Se nos colocarmos nesta posição é extremamente fácil começarmos só a falar da marquise, ou só do donativo ao hospital.

Para a comunicação social local ou regional, este é um tempo especialmente dúbio, no qual são escrutinadas com atenção redobrada as notícias referentes a este assunto. E se alguns verão nas publicações a intenção de elogiar o donativo, outros verão a intenção de criticar a marquise. Esta atitude tão portuguesa (?), tão humana (?) de, alinhando no grupo, passar a ver tudo a preto e branco, o sentido de sermos nós contra eles, é uma péssima inimiga não só da verdade mas também da justiça. E da democracia.
Usando uma frase que não é minha, talvez valha a pena pensar nisto…

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