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Opinião

Messines e o Penedo Grande

Frederico Mestre
Última Atualização: 2021/Mai/Ter
Frederico Mestre
5 anos atrás
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O Penedo Grande é uma formação imponente à escala local. Messines cresceu e desenvolveu-se aos pés do penedo, no vale. Muitas terras portuguesas surgiram deste modo, pequenos aglomerados de casas em vales férteis, e com mais acesso a água. Ao crescerem, estas terras acabam por ocupar os solos mais férteis dos quais os habitantes iniciais pretendiam tirar proveito. Foi o que se passou aqui.

Quando falamos de património é fácil esquecermo-nos do património natural. As serras, a vegetação natural, a fauna que a percorre, tudo isso é património. Para mim, este enquadramento natural, o tipo de vegetação que encontramos, o ondular, ou não, da paisagem tem um significado, diz-me se estou perto ou longe de casa.

Neste caso o Penedo Grande, que separa Messines da restante serra e define a entrada no barrocal onde domina o grés, é inseparável da vila que se protege sob a sua sombra. De toda a vila, por entre as ruas, se consegue ver a sua imponência. Gerações de messinenses passearam sobre a sombra do seu arvoredo.

Em 1758, após o terramoto foi enviado um questionário para os bispos das dioceses do reino, para que os párocos de todas as paróquias respondessem. Pretendia-se, assim, saber que estragos cada paróquia do país teria sofrido com o grande terramoto, mas queria-se também caracterizar a mesma, do ponto de vista geográfico, hidrográfico, agrícola, social, etc. Um dos conjuntos de perguntas deste inquérito questionava “O que se procura saber da serra”, ou seja, havendo uma serra na paróquia, queriam-se saber as suas características. “

Como se chama?” Respondeu o pároco “Chama-se a serra desta freguesia do Penedo Grande que começa junto deste lugar e vai continuando para as partes do Norte…”.

Quando se perguntava “De que plantas, ou ervas medicinais é a serra povoada” o pároco responde “Costuma a dita serra povoar-se por algumas partes de trigo, centeio e cevada, dando os frutos em muita abundância, principalmente não havendo securas.” No meio do séc. XVIII, portanto a serra era povoada por culturas cerealíferas.
No que respeita à fauna existente, o pároco refere “…bois, carneiros e chibatos e porcos…”, animais domésticos e “…perdizes e coelhos em abundância e de porcos bravos, lebres, corços e veados.”, animais silvestres. Nos dias que correm o coelho é vítima de diversas doenças que têm tido grande impacto nas suas populações, causando problemas aos predadores que necessitam destes como fonte de alimento. Veados ainda se podem encontrar por aqui, muito embora eu não tenha conhecimento do estado desta população, ao contrário do corço, que já não habita a nossa região.

Em 1841, na “Corografia ou Memória Económica, Estadística e Topográfica do Reino Do Algarve” diz Silva Lopes, a respeito do Penedo Grande, “S. Bartholomeo de Messines, aldeia grande situada mais á serra a N.E. da antecedente, nas fraldas, e ao S. de huma montanha por nome Penedo grande, coberta de oliveiras, alfarrobeiras e figueiras, com algumas fontes e pequenas hortas…”. Portanto, no séc. XIX, a paisagem vegetal do Penedo Grande era outra, abundavam as árvores típicas do chamado pomar de sequeiro, tão característico do Algarve.

Em 1909 na “Monografia de São Bartholomeu de Messines” Francisco X. D’Athaide Oliveira refere que “A fauna desta freguezia participa de indivíduos próprios do barrocal e próprios da serra. (…) Por isso ali encontramos as espécies cavallar, muar, bovino, caprino, asinino, lanígero e suino. (…) Alem daquellas especies que constituem propriamente a pecuaria, encontram-se todos os animaes domésticos, proprios da provincia, e a lebre, o coelho, a perdiz, a lontra, o texugo, o gato-bravo, a raposa, a gineta, o rato, as aves de arribação em dadas épocas do anno; e algumas vezes, na serra, o lobo e o porco-montez.” O autor não particulariza aqui o Penedo, mas refere, ao contrário dos anteriores, o lobo. As outras espécies silvestres referidas são ainda (umas mais que outras) prováveis de encontrar perto de nós.

Naturalmente a fidelidade destes relatos deve ser considerada com cautela, no entanto proporcionam-nos janelas interessantes sobre o passado. O Penedo Grande separa a serra do barrocal, abriga a vila de Messines, serviu de casa a populações humanas antigas, mas acima de tudo é fonte de inspiração e ligação com a Natureza para os que vivem aos seus pés.

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PorFrederico Mestre
É natural de Moura, no Alentejo, licenciado em Biologia, mestrado em Biologia da Conservação e doutorado em Biologia pela Universidade de Évora. Desenvolve a sua actividade profissional como investigador pós-doutorado na mesma universidade. O seu trabalho incide sobre os impactos que as alterações climáticas e dos habitats naturais têm na biodiversidade. Tem outros interesses, com a fotografia e o urban sketching. Acredita que a ciência deve ser comunicada de modo claro, numa lógica de partilha de conhecimento com o público em geral.
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