No rescaldo da comemoração do 47º aniversário do 25 de abril, inevitavelmente, surgem as inquietações sobre o estado anímico da democracia que nos foi oferecida nessa data, como se tornou comum ouvir dizer.
Na verdade, a democracia não nos foi oferecida, mas sim apresentada: aqui está ela, é linda e frágil, quem a amar deve tratá-la como a uma filha e protege-la para toda a vida. Mais complicada é a questão de como se pode viver em pleno essa democracia. Falamos de um país em que, segundo uma sondagem publicada recentemente pelo Expresso, apenas 10 por cento dos portugueses acredita viver em plena democracia.
Um dado inquietante que se intensifica quando 74 por cento dos mesmos portugueses diz que não se sente representado pela classe política.
Conseguir inverter a realidade que estes números apresentam é um extraordinário desafio para a nossa muito jovem democracia. É um grande desafio para os políticos deste país mas igualmente para os cidadãos. Porque se é verdade que os meios de intervenção cívica/política se resumem praticamente ao exercício do voto e à participação em consultas públicas ou orçamentos participativos também é verdade que todos estes meios têm uma fraca adesão. Assistindo à abstenção cada vez maior nas eleições ou às salas meio vazias quando se debate com o poder central ou local assuntos de interesse para a comunidade, a fraca participação popular parece revelar um desinteresse generalizado, o que poderá, para muitos políticos, representar uma benesse mas que, para quem está verdadeiramente ao serviço público, acaba por ser um factor de desmotivação e menor empenho.
Por outro lado, os que participam sentem frequentemente que as suas ideias, críticas ou sugestões não obtêm qualquer resultado prático e que a sua intervenção foi requerida para cumprir uma formalidade legal ou moral, mais do que para ser um elemento para análise e de verdadeira contribuição.
Estão assim criadas as condições para que um lado e o outro se sintam em diferentes patamares de cidadania que logo levam ao afastamento entre a dita classe política e o dito povo. E assim, em abril de 2021, escreve-se que 72 por cento dos portugueses acredita que a democracia não é para todos.
Concordando ou não com esta noção – mas sabendo que ela existe – questiona-se sobre o que fará esta massa que não se sente representada pela classe política e que sente que a democracia existente não a inclui e acolhe.
Repetirmos que a democracia é o sistema imperfeito mais perfeito, ou a pior forma de governo à exceção de todas as demais, pode dar-nos alguma confiança mas não a suficiente. Pois que a democracia, ao contrário da ditadura, permite que os seus inimigos se manifestem, cresçam e se organizem livremente, no seu seio.
Combater estes inimigos, esclarecer e participar são ações fundamentais para a defesa da democracia e para o seu enriquecimento. É uma tarefa constante que só pode ser feita pelos beneficiários da democracia: os cidadãos que se querem livres e iguais.







