Comunicar ciência na imprensa regional

O Terra Ruiva faz 21 anos. Vou aproveitar este espaço e este tempo para refletir um pouco sobre o que tem sido a minha colaboração, o que pretendo que ela seja e a relevância de se falar de ciência na imprensa regional.

A imprensa regional tem um papel bastante relevante para as comunidades locais. Curiosamente, as redes sociais, com a sua propensão global, acabaram por contribuir para difundir esta imprensa nas comunidades locais e junto daqueles que deixaram as suas terras de origem. Os meios de comunicação difundem os seus conteúdos nas redes sociais e estes acabam por ter muito mais impacto, ser mais lidos, suscitar a discussão e servir de elemento conector com os que, entretanto, procuraram a sua sorte em outras paragens. A imprensa regional é, por isso, um veículo ideal para transmitir informação científica, seja ela de âmbito global, nacional ou regional.

Em teoria, a relação entre cientistas, decisores políticos e população é, na verdade, muito simples: os cientistas produzem conhecimento. Os políticos pesam os diversos valores que têm de contemplar na sua ação (que não são unicamente científicos) e definem políticas. A população vota, selecionando as políticas que lhe interessam, entre estas as que se relacionam com ciência. Mas isto exige que estes três intervenientes estejam informados e consigam comunicar entre si.

A população tem de se querer manter informada, os cientistas têm de ser capazes de informar e os políticos têm de saber (e querer) traduzir o conhecimento em políticas.

Os problemas começam quando esta aparente simplicidade choca com a realidade. Os cientistas nem sempre sabem comunicar de modo que a sua mensagem seja compreendida para políticos e pela população em geral. Os políticos nem sempre sabem valorizar a informação que recebem e pesar os diversos valores na sua ação política. A população nem sempre está bem informada e abstém-se de participar pelo voto.

O modo como as notícias de ciência são dadas deixa, frequentemente, os cientistas exasperados, mas a responsabilidade é de todos os envolvidos em comunicação de ciência. Para uma notícia procura-se frequentemente uma frase forte, uma mensagem direta, e a ciência é mais complexa o que isso. Frequentemente os jornalistas traduzem a ciência de modo enviesado para os seus leitores, mas os cientistas são também responsáveis por esta falha de comunicação. Temos o dever de simplificar a linguagem científica quando queremos que ela passe, evitando jargão científico. Fazem falta jornalistas de ciência, mas também cientistas que comuniquem eficazmente.

A população tem também de querer saber. Tem de saber quem ouvir e onde procurar informação. Infelizmente os gurus da internet que difundem informação falsa, usando jargão pseudocientífico, são seguidos por muitos. E, de repente, existe um enorme descrédito sobre o trabalho de cientistas. Não me refiro só aos que duvidam da existência da COVID-19 ou da eficácia das máscaras. Há negacionistas das alterações climáticas, da presença do Homem na Lua, do facto da Terra ser redonda, etc. E esses são factos incontestáveis, não há discussão.

Sendo biólogo, os meus textos têm-se focado em aspetos que, na maioria dos casos, se centram no estudo da vida e dos seres vivos, na sustentabilidade e nas ameaças aos ecossistemas. No entanto, de futuro, irei ocasionalmente aventurar-me em outras áreas científicas. Fá-lo-ei com a humildade de quem não é um especialista, mas fazendo uso da minha perspetiva privilegiada como biólogo para discutir outras áreas científicas tentando descodificar as notícias dos nossos dias. Pretendo, portanto, contribuir para diminuir a distância entre a ciência e a população, discutindo assuntos de âmbito regional, nacional e global que nos afetam todos os dias. Espero ser eficaz!

 

 

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