Épa-Ingredientes

Épa- Ingredientes. Gelado aromatizado de baunilha com pastilha elástica (2%). Contém açúcares e edulcorantes. Ingredientes: LEITE magro reconstituído (54%).

Estas 3 letras em Portugal, como se costuma dizer segundo o dito popular, são, juntas: “pau para toda a obra”. Quando a vidinha corre às mil maravilhas, “Epá porreiro”; já no Restaurante da Mariazinha quando os carapaus alimados não têm sal suficiente, “ Epá, minha senhora, olhe que estão um pouco moles”.
E como a desconfiança nos corre no sangue, nada melhor, à cautela “Epá tem cuidado, olha que os gajos não são de fiar”.
Chegado o Verão, e os dias de calor, não há português que não mame um geladinho; sabe bem, é fresquinho e segundo dizem tem cálcio.
– Ora o que vai ser?
– Epá, deixe cá ver…Olhe, venha um Epá.
Não é só por dá cá aquela palha, que a OLÁ, é líder de mercado há 50 anos no ramo dos sorvetes. A marca sempre se pautou pela peculiaridade dos nomes e, com toda a certeza, buscou no quotidiano a sua fonte de inspiração.
Ora vejamos, no caso concreto do EPÁ, onde cedo perceberam que, pela familiaridade do nome, entravam directamente no coração das crianças – “Epá cala-te ou levas uma lambada”.
– O que deseja menino?
– Quero um Epá.
– Só um bocadinho que vou ver se há, balbucia o Simões.
– Quero um com a maior pastilha que tiver, e vermelha, espeta o puto.
O Simões entra que nem um perdigueiro nas profundezas do gelo, farejando todas as caixas, e até o sangue lhe subir à cabeça vai remexendo, remexendo, por entre aquela amálgama de pequenos prazeres. Regressado à superfície, após tomar o fôlego, sorri.
-Aqui tem meu menino, o mais fresquinho e com uma grande pastilha vermelha.
Os olhos do puto esbugalhados e fixos nas mãos do Simões revelam justamente uma coisa: – como é que a aquela foca, após aquele mergulho glaciar demorado, foi capaz de vir à superfície com aquilo pelo qual ele se vinha lambendo durante toda a tarde.

Ora, como é evidente, a OLÁ sabe de todas estas coisas a que as crianças são sensíveis, e como tal, espeta com uma pastilha no fundo de um copo, e um senhor cómico de pernas para o ar dentro de uma arca, e eis a receita para o sucesso.

Em Portugal fala-se nos cafés com uma sabedoria nunca vista. Para além disso, enuncia-se veementemente aquilo que se fazia «se»… Este «se» confere de imediato uma irresponsabilidade pelo aquilo que se disse, na medida em que, remete logo para um plano longínquo e utópico: “Epá «se» eu fosse Presidente da República isto andava nos eixos”.

E repare-se agora na leveza da pedinchice, quando se emprega esta palavrinha capitular, “Epá empresta aí 5 paus para beber qualquer coisa”. Isto conjugado com uma palmadinha nas costas e um sorriso rasgado confere ao outro compincha, sem necessidade de mais, a certeza de que irá receber, um dia, o retorno financeiro da sua gratidão.
Bem, o que eu proponho é passar o E + Pá de uma mera interjeição a uma coisa mais séria. Condecora-se tanta gente com a Ordem do Infante, e de Grão-mestre, que está mais do que na hora de elevar estas 3 letras a Património Cultural e com honras de estado.
Epá e já agora, como dizia o Padre António Vieira, “peço desculpa por ter me alongado, mas não tive tempo de o fazer menor”.

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