Mulher

Março é mês de celebrarmos a Mulher. É mês de relembrar o papel da mulher na sociedade, um papel em parceria com o homem, lado a lado, iguais nos direitos, diferentes na sua essência, por isso complementares.

Relembrar a razão por que se comemora o Dia da Mulher nunca é de mais. Infelizmente, a forma como este dia é maioritariamente comemorado, remete-nos pouco para as razões da sua criação. É fundamental que as mulheres ensinem aos seus filhos, que a luta pela igualdade de direitos, tem sido árdua e passa fundamentalmente pela mudança de mentalidades, passa pela educação das novas gerações. Só pela educação, pela cultura, se muda profundamente uma sociedade.

O Dia Internacional da Mulher surge em honra da greve das trabalhadoras têxteis nova-iorquinas, em 1908. Posteriormente, o movimento das mulheres rapidamente assumiu uma postura global, sendo atualmente celebrado em quase todo o mundo. Celebra as conquistas nas mulheres, provenientes dos mais diferentes contextos socioeconómicos, políticos, culturais, étnicos. Apesar dos passos já dados ao nível dos direitos humanos, neste dia é importante refletir sobre os milhares de mulheres que por esse mundo fora, com coragem e determinação estão a mudar a sua, e a história de todos nós. É também importante valorizar e aplaudir a coragem de muitos homens que cada vez mais olham para a Mulher como parceira, rompendo com estereótipos e crenças enraizadas por décadas e décadas. A mudança efetiva tem-se mostrado difícil e lenta para a maior parte das mulheres e raparigas do mundo. Muitos têm sido os obstáculos que permanecem inalterados na lei e na cultura de muitos países. A construção de um mundo mais justo para todos é uma responsabilidade conjunta e global.

Não queiramos ser iguais, pois somos diferentes. Não queiramos copiar um estilo masculino, afirmemos a nossa feminilidade. Afirmemos a nossa vontade, a nossa capacidade de romper com as convenções e o “instituído” e de lutar pelos nossos sonhos.

Como dizia uma outra mulher que rompeu com muitas das convenções da sua época…

“Ó Mulher! Como és fraca e como és forte!
Como sabes ser doce e desgraçada!
Como sabes fingir quando em teu peito
A tua alma se estorce amargurada!”
Florbela Espanca

Florbela Espanca coloca neste poema um grito de feminilidade, mostrando que as mulheres são donas de uma capacidade de entrega imensa, de suportar as suas dores e continuar a sorrir para o mundo. Mas que as dores sejam na luta pela afirmação, na luta pela igualdade nos direitos e nas oportunidades, e não na resignação a um destino socialmente imposto.

Em pleno século XXI, as mulheres continuam, entre outras coisas, a receber baixos salários (atualmente, as mulheres continuam a ganhar menos 23% que os homens); a serem violentadas de forma extremas (1 em cada 3 mulheres já sofreu algum tipo de violência física ou sexual; mais de 200 milhões de mulheres e raparigas foram vítimas da mutilação genital); a serem usadas de acordo com os desejos de pais ou convenções sociais/culturais (12 milhões de raparigas são forçadas a casar-se antes dos 18 anos, muitas mesmos ainda jovens adolescentes ou ainda na sua infância – 23 raparigas por minuto, 1 rapariga em cada 3 segundos).

Apesar das mulheres serem iguais aos homens perante a lei portuguesa, as estatísticas mostram que, em 2017, as mulheres receberam menos 14,8% que os homens. E, em termos de violência, os números não são muito animadores: em 2019, um total de 28 mulheres (num universo de 35, quando contabilizando crianças e homens) morreram em contexto de violência doméstica — uma média de mais de 2 mulheres por mês. O contexto de pandemia agravou ainda mais este cenário de violência, dirigida a mulheres e a crianças. A violência no namoro, assume uma dimensão de crescente preocupação.

Nós mulheres, temos de tomar as rédeas desta mudança, pois somos os principais pilares na educação dos nossos filhos, homens e mulheres de amanhã. Ensinemos o respeito, a tolerância, a empatia, a compaixão. Ensinemos a Não Discriminação seja por que razão for. Construamos a partir de casa a igualdade de género entre homens e mulheres.

Terminando esta reflexão, recordemos ainda nestas últimas linhas, aquele que dedicou a maior parte da sua obra poética à Mulher – o poeta e pedagogo João de Deus que comemora a 8 de março o aniversário do seu nascimento. Também ele acreditou que a educação era o motor da mudança e por isso dedicou uma boa parte da sua vida à alfabetização dos menos afortunados. Deixo-vos com um pequeno extrato do seu poema “Não”, dedicado à Mulher:

Tenho-te muito amor,
E amas-me muito, creio:
Mas ouve-me, receio
Tomar-te desgraçada:
O homem, minha amada,
Não perde nada, goza;
Mas a mulher é rosa…
Sim, a mulher é flor!

Veja Também

Maioridade

O nosso Terra Ruiva comemora este mês 21 anos. Esta era, antigamente, a idade em …

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *