Memórias Breves (30) – Homens como os outros

DOIS HOMENS  que  se  marcam em registos de  humanismo, de palavras e nas ações: Alberto Camus  e José Saramago. O Argelino, de nacionalidade francesa e o Português, Ribatejano, José Saramago.

 

CAMUS: jornalista, romancista,  dramaturgo, filósofo. Nasceu em Mondavi, na Argélia, ainda colónia francesa, a 7 de Novembro de 1913. Figura central do pensamento europeu e norte-africano. Homem de combates políticos pelo mundo, nas palavras e ações. As suas palavras foram fortes para as fraquezas dos intervenientes que, no absurdo das conveniências, levaram o Homem filósofo  a todas as suas posições públicas e de reflexões. Daí as suas obras, os seus títulos, contactos académicos, as suas palavras fortes, os conteúdos dos seus tratados filosóficos considerados provocatórios, desde “O Estrangeiro”, em que se joga o destino de um homem perante o absurdo e questiona-se o sentido da existência, e : “A Queda”, “O Míto de Sísifo”, “A Peste”, ou “O Homem Revoltado”. Seguindo as grandes linhas dos moralistas franceses, num sentido da moral e do dever dos homens para além das contingências históricas. Camus foi traduzido em mais de quarenta línguas e adaptado para o cinema por Luchino Visconti, em 1967, sendo indubitavelmente uma das obras-primas da literatura francesa do século XX.

ALBERT CAMUS, filho de imigrantes pobres da Argélia, teve um caminho de vida  repleto de  todas as condições de um jovem pobre, inteligente  e estudioso, na sua vontade em alcançar  cultura, tendo  na  comunidade intelectual de Paris, críticos  à sua independência  de pensador e filho de trabalhador rural. O jovem Camus conseguiu romper para estudos universitários, obtendo a licenciatura em Filosofia, apresentando a sua tese sobre “Plotino e Santo Agostinho”. O jornalismo atraiu este filho de “Mondovi”, em ensaios, e que logo ingressa, já em Paris, no “París-Soir”. Durante a segunda grande guerra mundial, adere à Resistência, como os demais resistentes da Liberdade. Em 1945 é redator principal no periódico “Combat”. Em 1945 abandona a atividade jornalística pela literatura, iniciando-se na obra “L ´Envers et l ´Endroit”. É notável e pouco reconhecido. Entretanto… as suas narrativas possuíam um estilo enérgico, sóbrio. E sempre nessa sua urgência, nesse seu estilo, foi em continuidade, até que, em 1957, a 3 anos da sua morte, recebe o reconhecimento mundial: O Prémio Nobel da Literatura.

Albert Camus propunha transpor o desespero dado ao absurdo do universo, por uma abertura lúcida no mundo. Em 1956 foi-lhe concedido o PRÉMIO NOBEL DA LITERATURA, pela sua extensa obra, a partir do título, “LA CHUTE”. Camus apaixonou ao rubro certa juventude do após guerra. O radicalismo, assim considerado, no após guerra, na exposição do absurdo, aliado à vibrante textura do seu estilo, granjearam-lhe a adesão das gerações novas cansadas de ideologias sofisticadas. A vida real de Camus leva-o a obras, desde L´Etranger  – 1942,  L´Homme Révolté –1951, etc. O seu livro ”A Peste” de -1947, debruçava-se com angústia sobre a condição humana. Ainda escreveu teatro: Calígula -1945, entre outras peças de renome. Morreu aos 47 anos, 1960. Repousa num pequeno cemitério, em Villevin.

Quando, Nicolas Sarkosy, então presidente da República Francesa, pretendeu, em 2010, transladar o corpo mortal de  Albert CAMUS para o Panteão Nacional de Paris, os filhos do pensador opuseram-se, nessa vontade paterna em descansar na  humilde terra  em que viveu.

 

  1. S. Lembro a minha lição em 1970, em Mondovi- sua Terra natal: “Hommage – Albert Camus”. A minha primeira “internacionalização”, ao nível profissional.

 

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JOSÉ SARAMAGO, uma vivência idêntica em “estatuto” social, ao de CAMUS: cidadãos comuns, na palavra e na iniciativa. Com a mesma veemência e a mesma força com que são reivindicados os direitos, também no dever comum.

Saramago, natural da Azinhaga- Golegã, onde nasce a 16/11/1922. Aos 25 anos já é autor…Seguir-se-ão mais  40 títulos, em continuidade, ganhando a internalização. Falava do seu avô, num heroísmo… Um guardião! Ei-lo, o menino do seu Avô. Deixando a Azinhaga para outros meios e outros contactos. Procura estudar, conhecer, dizer os seus sentimentos guardados. O Moço Saramago tem a “ambição” das letras, no dizer e no contar. Então, terá de aguardar para os tempos. Com a primária feita, vai à procura das palavras… Às bibliotecas, fontes do conhecimento. Frequenta a Biblioteca Pública do Palácio Galveias – Lisboa, onde recolhe e semeia e as palavras: 40 livros irão, num futuro, serem publicados e admirados. Mas sem Mestres, como se lançará a semente!? Guiado pela curiosidade e pela vontade, na maior força em aprender, vai desenvolvendo-se no precoce e no jovem adulto. Em 1947, após a 2ª grande guerra mundial, apura o conhecimento para o testemunho dos poderosos dela e as mortes pela exigência dos grandes em serem defendidos, pelas “fogueiras” que acendem aos seus interesses.

O jovem Saramago, aos 25 anos, é autor da “Viúva” que logo “morre” para dar vida à “Terra do Pecado” ,1947.  No livro que Juan Arias,  admirador espanhol publicou, numa conversa em Lanzarote, com Saramago, este  afirma:  “VIVEMOS PARA DIZER QUEM SOMOS”.  E vai em conversa:  “ Por vezes, ao acabar de ler certas cartas dos leitores, dou comigo a chorar”.

Vamos pela memória. Em 1980, Saramago prepara o título “ Levantado do Chão”. Passa por S. Bartolomeu de Messines, visitando o monumento sacro, a Igreja de S. Bartolomeu, imóvel de raiz renascentista. O Escritor memoriza o monumento sacro, no seu exterior, em que as duas pilastras, num estilo barroco do século XVIII, encimadas de jarrões, nos levam em degraus da mesma matéria, ao interior do templo  renascentista. E nessa admiração, pela pedra vermelha  (o grés), em que pela chuva, a água lhe dá uma vida que a pedra  se recupera, ficando-se nessa admiração. As metamorfoses encantam o escritor: O grés árido e o mesmo regado pelas chuvas… o encantam, naturalmente… Não deixei essa memória da visita a Messines do Escritor Saramago, nesse reparo à pedra ruiva de Messines. Lembro-o, no meu livro publicado em 2010: “ As Tentações de Maria Lua”.

Retomo, de novo, Juan Arias, nos encontros do Homem amargo de ver que o mundo não muda apesar desse pessimismo no fundo, dessa amargura. Arias, numa definição: É que José não é uma pessoa infeliz… Sim a amargura de que todo o mundo custa a mudar e que luta contra moinhos de vento…

Duas Figuras europeias, CAMUS e SARAMAGO, nascidos no mesmo século, que entenderam os tempos nas suas palavras escritas: pouco interessam os ódios… E quanto amadas e ousadas, nos deixaram…

 

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