A menina Pulquéria

A menina Pulquéria foi a última governanta de Coco Chanel. Tinha sido criada de servir da nossa avó Violante. Veio da Gralheira da Amorosa para Portimão, aos sete anos. Nasceu, em Setembro de 1929. Ficou órfã de pai e mãe.

Pulquéria nunca frequentou a escola. O capelão da família ensinou-lhe as primeiras letras, a tabuada, e uns rudimentos da língua francesa.

Conservou-se em casa da avó, uns poucos de anos. Tratada como se fosse da família. Com nove anos, já servia à mesa. Era diligente.

Foi aprendendo as lides da casa. Mantinha as camas irrepreensivelmente feitas, lençóis bem engomados, colchas alindadas. E, dentro das mesas-de-cabeceira, os bacios soltavam um subtil cheiro a alfazema.

Aprendeu a cozinhar na perfeição. Com doze anos, já fazia pitéus de crescer água na boca. A avó gabava o cozido de grão da Pulquéria.

A coser, cerzir, fazer croché, deixava a avó gasta de espanto. Não havia roupa usada que não arranjasse. Camisa puída, virava-lhe o colarinho e ficava como nova. Farpela que deixasse de servir aos mais crescidos, ajustava-a para os pequenitos. Era assim, nas famílias, abastadas ou modestas. Ninguém deitava fora uma côdea de pão, quanto mais um retalho. Se não dava para vestir, ia para pano de limpeza.

A menina Pulquéria achava-se sortuda por estar na nossa família. Ouvia falar dos pobres que ao sábado faziam bicha para esmola, à porta da residência bisavó, na rua da Ribeira. Tinha compaixão.

Havia a tradição da moedinha de cinco réis. A bisavó gabava-se de dar dez réis a um ou outro. Não os fazia esperar. Descalços, maltrapilhos, depressa corriam para outras casas, a estender mãos sujas da fome. Quando Pulquéria chegou à casa da avó, a tradição estava a desaparecer.

Aos quinze anos, Pulquéria encantou-se num estoura-vergas do Poço Barreto. Em conversa murmurada, esticava-lhe os dedinhos para fora do postigo. Virgolino, dez anos mais velho, tocava-os ao de leve. A sós, o corpinho de Pulquéria seguiu todo atrás dos dedos.

Não tardaram a fugir para a França. Pulquéria não se despediu. A avó, e as duas filhas pequenas, nunca mais a viram. Nenhuma outra criada chegou aos tornozelos da Pulquéria, e até os tinha bonitos.

A avó, já as filhas crescidas, recebeu um dia uma carta de Paris. No interior do envelope, doze páginas escritas à mão, num português afrancesado. Entre as folhas, uma fotografia de uma mulher composta, já entrada na idade. O cabelo castanho, mise-en-plis cuidada, rouge à lèvres vermelho, blush vivo. Bem arranjada, mas em farda de trabalho.

A avó julgou reconhecer aquele sorriso, um pouco triste. O sinal negro no queixo, não enganava. Era mesmo a menina Pulquéria. Sentiu um pouco de alegria e outro tanto de saudade. Lembrava-se da jovem, pele clara, olhos azuis, voz suave. Uma figura encantadora, condescendia a avó.

A avó ficou a saber que o Virgolino, meses depois de chegar, desaparecera do bidonville de Campigny, onde moravam. Numa madrugada fria, caspa de neve no capote gelado, saiu da barraca para o chantier. Nunca mais foi visto.

A menina Pulquéria, ignorando o paradeiro do seu homem, teve de fazer-se à vida. Trabalhou como costureira e concierge em vários prédios, sobretudo no XVI.e Arrondissement, de Paris. Disseram-lhe, muito mais tarde, que o seu Virgolino vivia em Lausanne. Casara como um italiana e tinha uma catrefada de filhos. O patron, monsieur Silvá, um construtor bem sucedido, dava emprego a muitos compatriotas.

Pulquéria, nos últimos anos, estava ao serviço de madame Gabrielle Chasnel, uma senhora da alta sociedade, para quem trabalhara como ajudante de costura e não só. Assistia-a num seu apartamento, na Place Vendôme, junto ao Hotel Ritz.
Apesar de muito entrada nos anos, a madame, recebia aqui os seus clientes mais íntimos. Vivia ao lado, na melhor suite do hotel.

Madame Chasnel, há muito que tinha esquecido o ‘s’ e o nome de baptismo. Era mundialmente conhecida por Coco Chanel. Tinha origem humilde, como ela Pulquéria de Jesus (pronunciava Piulkèrià da Jêsiuus), mas não falava disso.

Gabrielle Chasnel nascera no asilo de Saumur, em 1883. Fora criada de servir. Vivera em Moulins com a tia Louise. Aprendeu com as freiras o ofício de costureira.
A vontadinha de abandonar a gaiola de agulha e dedal, depressa a pôs a arejar. Algum jeitinho para cantar, leva-a aos cabarets de Vichy. Uma canção que interpreta, «Qui a vu coco sur le Trocadéro?», cola-lhe o ‘petit nom’, Coco.

Coco é cortejada. Jovens com muito dinheiro, têm sempre mais charme. Coco sabe-o. Étienne Balsan, um rico proprietário, criador de cavalos, ensina-lhe tiques e costumes de um mundo de saltos altos.

Do Étienne, pula para o colo do Arthur «Boy» Capel. Assiste às corridas de cavalo, vestindo as suas próprias criações. Chapéus, saias, calças, inspiradas no mundo do pólo e das corridas de cavalo, fazem-na notada. E, ainda mais, quando solta a saia preta do luto para a leveza dos dias.

“Boy” Capel abre-lhe o primeiro salon de mode, em Paris, na Rue Chambon. Coco depressa ascende ao estrelato e à fortuna. É muito inteligente. Sabe insinuar-se. E viver. Vestuário, chapéus, perfumes, jóias, nascem na cabecinha criativa. E francos e dólares infinitos afluem às suas muitas contas bancárias.

Sempre soube quem devia estender nos seus lençóis de algodão ou cetim. O grã-duque russo Dimitri Pavlovitch, o poeta Paul Reverdy, e tantos outros, afagaram-lhe o corpo perfumado e o pedaço mais dócil dos seus caprichos. Até Igor Stravinsky, a quem tinha dado acolhimento com a família, lhe amarfanhou o cetim.

Muito selectiva, o toque artístico na amizade era-lhe essencial. Salvador Dali, Picasso, Jean Cocteau, e mais muitas centenas no mundo, decoravam-lhe a alma e a inspiração. Até chega a conceber fatos para os bailarinos da ópera de S. Petersburgo, na criação Train Bleu, do empresário Serge Diaghilev.

Pulquéria só aparece quando já derruía a aparência física de Coco. E presenciou o seu passamento, num frio Janeiro de 1971, na suite do Hotel Ritz que agora tem o seu nome.

Pulquéria conservou sempre muito carinho pela elegante velhinha que, mirrada nos seus 87 anos, ainda cintilava de austera ternura, na discreta essência do seu Chanel 19.

Perdoou tudo a madame Chanel. Insolências e manias de senhora rica, esquecida que tinha sido igual a si na juventude. Só numa ou outra ocasião lhe falou disto. A idade já não lhe punha tanto freio na língua. Soltava, sem o desejar, perdigotos comezinhos da rude infância. O glamour planetário de Coco, esvaiu-se naquele 10 de Janeiro, junto à Place Vendôme.

Só não compreendia, e muito menos lhe perdoava, que a madame tivesse sido amante de um oficial nazi, Hans Gunther von Dincklage. E que passasse informações para o estado-maior de Hitler, nos primeiros tempos da Segunda Guerra mundial. Só não foi presa, com a vitória dos aliados, por intervenção de Winston Churchill com quem privara, quando namorava o duque de Westminster, Hugh Richard Arthur Grosvenor.

A menina Pulquéria não era ignorante. Sabia muito sobre a barbárie do regime nazi e do sofrimento dos povos que subjugou. E, também na sua terra, sabia corticeiros em Silves, seus parentes, barbaramente torturados pela Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, no tempo de Salazar.

O sorriso triste da menina Pulquéria, na fotografia, denuncia que gostaria de ter tido outra vida. Mas cedo entendeu que somos marcados a ferro quente ou ouro macio à nascença. E apenas um, ou uma em cem milhões, vê o ferro transformado em ouro.

Nunca teria o arrojo de madame Chanel. O corpo, o seu, pedia-lhe mais do que um frémito. Amor, talvez. O Virgolino assomava-lhe sempre que ia um pouco mais além com homem que a galanteasse. E se conheceu gente rica, culta e elegante!

Apesar de tudo, mademoiselle Pulquéria – assim era tratada – não se queixa. Viveu sem dificuldades. Juntava poupanças e enviava-as para o Crédito Agrícola. Pensava um dia, com marido, filhos e netos, viver na casa que queria construir na Gralheira da Amorosa, se possível, com um orçamento em conta do Virgolino. Não aconteceu.

Há poucos anos, uma amiga, de Alcorochel, Torres Novas, colega de trabalho em Paris, convenceu-a a ficarem juntas num lar muito cómodo, o Paraíso do Idoso.

Lá vivem as duas amigas. Viúvas de nenhum marido. Pulquéria e Etelvina dormitam frente à televisão. As tristezas sem cheiros que sacodem o mundo não lhes travam o torpor. Conformam-se.
Coco jaz na campa, por si desenhada, no cemitério de Bois-de-Vaux, em Lausanne. Ainda soou que foi a empresa de monsieur Silvá que fez os trabalhos. Rumor falso.

Do tempo longo da menina Pulquéria, ficou apenas um vazio humedecido no olhar. Não teve um filho para lhe dar vida melhor que a sua. E se gostava de crianças, meu Deus. Madame Chanel também não, mas alguém lhe herdou a fortuna.

No fundo, acredita que ela, Etelvina e madame Chanel, são irmãs no princípio e no fim. Na longa meada da existência, muito distintas. Abraçando, até às últimas forças, uma ausência. E ficando iguaizinhas no último suspiro.

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