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Opinião

Conhecer os nossos vizinhos naturais

Frederico Mestre
Última Atualização: 2020/Jul/Sáb
Frederico Mestre
6 anos atrás
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Enquanto biólogo uma das coisas que me espanta mais é o enorme desconhecimento que o público em geral tem acerca das espécies animais que constituem a nossa fauna. Acho estranho porque, afinal de contas, são estes os nossos vizinhos. Quer queiramos quer não, quer o saibamos ou não, dependemos destas espécies, numa rede complexa de interdependências.

Há tempos, falando para uma turma de crianças da primária fiz uma experiência para tentar saber se este fenómeno era verdadeiro, ou se era só a minha perceção. Será que as crianças tinham mais conhecimento acerca da fauna africana do que da nossa? Mostrei fotografias de diversas espécies de animais e pedi que dissessem bem alto o nome. Queria que dissessem a primeira coisa que lhes viesse à cabeça e que falassem todos, para poder avaliar não só se conheciam, mas quantos conheciam as espécies que lhes apresentava. No início coloquei espécies da fauna africana e, por isso, fui ouvindo “leão”, “hipopótamo”, “girafa”… Mas quando começaram a surgir espécies que vivem por cá a coisa foi mais complicada. Conseguiram identificar algumas claro, mas muito menos. Isto porque as suas cabeças estão cheias de personagens oriundas de outras paragens.

Mas não são só as crianças, há também adultos que têm muitas dúvidas acerca dos seus vizinhos naturais. Desconhecem a diferença entre uma lontra e uma foca (e que diferença há!), desconhecem a existência de uma espécie de gato, o gato-bravo, que não é o mesmo que um gato doméstico assilvestrado, desconhecem a existência de genetas, ou confundem-nas com gatos. Estas confusões são muito comuns, mas não é só no meio urbano, como se poderia pensar, também no meio rural há algum desconhecimento, embora muito menos. A que se deve este fenómeno e porque é ele importante?

As causas são essencialmente duas, a falta de contacto com as espécies e a falta de divulgação da sua presença e comportamentos. Conhecemos melhor as aves porque estas são mais visíveis e, por isso, há tantos observadores de aves. Mas os anfíbios, os répteis e os mamíferos não tanto. São espécies mais tímidas, frequentemente noturnas, que por isso mesmo se tornam mais difíceis de observar. Os mamíferos, o grupo com que mais tenho trabalhado, deixam algumas pistas da sua presença (por exemplo pegadas) ou podem ser vistos fugazmente a correr à frente dos nossos carros. Alguns podem encontrar a morte no alcatrão das estradas ao serem atropelados, o que é um grande problema para a conservação destas espécies. Mas, pelo menos nestas ocasiões, ainda os podemos ver, por desagradável que essa observação possa ser.

Mas por que conhecemos melhor a fauna de África do que a nossa (e aqui refiro-me concretamente aos mamíferos)? Bem porque as televisões passam documentários de locais maravilhosos e intocados em África e porque as histórias infantis têm frequentemente personagens que não são da nossa fauna.

No entanto, recentemente, tem-se assistido a algum movimento no sentido oposto. Já vão surgindo livros infantis com personagens que podemos encontrar num passeio pelo nosso campo e há já alguns bons documentários acerca dos locais fantásticos que o nosso país, a Península Ibérica ou a Europa, ainda têm.
Mas, porque é isto importante? Por que deveriam as pessoas conhecer melhor as espécies que podem efetivamente encontrar com um pouco de sorte num passeio de fim-de-semana? Bem, porque se não conhecermos a riqueza da nossa natureza, aquela que temos perto de nós, de que dependemos, não temos interesse em protegê-la. E isso tem um enorme impacto nas nossas ações, quer queiramos quer não, e no modo como aceitamos, ou não, políticas para conservar estas espécies.

Portanto, deixo um desafio, vamos tentar conhecer as espécies que existem em Portugal, em particular no Algarve, afinal de contas temos alguns valores naturais bastante importantes. Vamos conhecer para depois podermos conservar e exigir mais de quem gere os espaços naturais.

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PorFrederico Mestre
É natural de Moura, no Alentejo, licenciado em Biologia, mestrado em Biologia da Conservação e doutorado em Biologia pela Universidade de Évora. Desenvolve a sua actividade profissional como investigador pós-doutorado na mesma universidade. O seu trabalho incide sobre os impactos que as alterações climáticas e dos habitats naturais têm na biodiversidade. Tem outros interesses, com a fotografia e o urban sketching. Acredita que a ciência deve ser comunicada de modo claro, numa lógica de partilha de conhecimento com o público em geral.
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