PÁGINA ABERTA: Covid-19- Desconfinamento- Creches

Tarde de Maio amena, nuvens no céu, sombras que correm no chão ao sabor da brisa. Rodrigo Leão, Pasion, no leitor de CD. Sons harmoniosos, por vezes nostálgicos, por vezes fortes, por vezes doces, por vezes de um Amor total, um Amor profundo. Não podemos deixar de pensar no que já vivemos, no que já amámos, no quanto amamos e quem amamos.

AMOR. TANTO que um ser humano pode Amar intensamente: uma flor, um animal, uma tarde, um som, uma voz, um toque, um cheiro, uma causa, um momento, um outro ser humano, outros seres humanos, a humanidade…
Tantos poetas, escritores, músicos definiram o Amor… cada um de nós escolherá qual a definição que mais lhe diz. Para mim, a frase de Saint-Exupéry, “Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos” de O Principezinho, é a tal.

Podemos viver sem paixão, sem Amor? Poderemos não conseguir experimentar o sentimento da dádiva, de que o outro é mais importante do que nós, que só nos sentimos completos quando usufruímos da sua presença? Ou apenas vamos erguendo muros em nosso redor que nos impedem de darmos e, consequentemente, de recebermos um sentimento?

O ser humano é um ser gregário, revê-se no outro. Desde pequenos, medimo-nos pelo grau de aceitação dos outros. Se somos populares, se temos muitos “amigos”, somos bons; se assim não é, então, algo está errado connosco.
Na família, primeiro, na creche, depois, e por fim na escola, vamos sempre medindo o nosso valor pelas reações dos outros ao que fazemos ou dizemos. Após a adolescência, fazemos a nossa opção: entramos para o grupo dos populares ou para o grupo dos à parte, dos anti-sociais.
Quer num, quer noutro, sofremos e rimos! Quer num, quer noutro, apenas queremos pertencer, apaixonarmo-nos pelos outros, partilhar as nossas paixões e viver com eles as suas! Alguém tem de nos dizer que somos especiais, alguém tem de nos confirmar que temos importância neste Mundo! Alguém tem de se apaixonar por nós, seguir-nos, e nós segui-los também…

Estão a abrir vão abrir as creches. No entanto, pasme-se, as crianças, que só têm esta infância, não vão poder interagir com os amigos, não vão poder partilhar brinquedos, não vão poder adormecer olhando para o seu melhor amigo ou amiga ou dando-lhe a mão. Que primeira infância será a destas crianças? Sabendo que muitos pais as deixam demasiado tempo na creche por diversas razões, que infância vai ser esta? A criança é o ser que mais puramente chega ao outro, só não o faz se crescer com maus exemplos. A criança respeita, cuida, ampara, ama e apaixona-se por cada segundo da sua vida, por cada experiência, vivendo-a com toda a intensidade que encontra dentro de si. Se, durante meses, lhe disserem que não se pode chegar ao Outro, que, no seu Amigo ou Amiga, poderá encontrar um perigo que não só lhe fará mal a si, mas também aos seus familiares, isso não irá ficar marcado nela para sempre?

Sabemos que tudo o que a criança vive até aos 3 anos de idade é determinante para o seu futuro. Então, o que vamos ensinar-lhes agora?
Já terão de conviver com as máscaras nos adultos, retirando-lhes, ainda mais, a capacidade de “ler” as expressões faciais. Sabemos que, por as crianças passarem tanto tempo sozinhas ou em frente a um ecrã, lhes é cada vez mais difícil reconhecer e compreender as emoções nos outros. Então, vamos acrescer-lhes a impossibilidade de tocar? E depois, daqui a largos meses, dizemos-lhes que, afinal agora, já não há problema, que o Outro já não é inimigo?
Sabemos que é necessário que os pais trabalhem e, para isso, têm que colocar os filhos nas creches; sabemos que para os pais que trabalham a partir de casa é muitos difícil fazê-lo com os filhos pequenos pedindo atenção; também sabemos que também há pais que já não aguentam os filhos em casa e a violência para com as crianças está a aumentar.

Estamos todos fartos, com os nervos à flor da pele, mas as crianças não têm culpa. Até em cenários de guerra elas conseguem sorrir e jogar à bola. Então, face a esta pandemia, deixemo-las continuar a ser crianças, a crescer com os outros, com o toque – agora ainda mais necessário – com paixão, com Amor. Não as deixemos começar a direccionar a sua vida para o isolamento, onde se tem uma falsa ideia de partilha, mas onde não há espontaneidade, nem carinho físico ou paixão.

Na minha opinião, as regras para as creches deveriam terminar à porta das mesmas. Os cuidados com roupa, com brinquedos, com pais, deveriam parar à porta. Lá dentro, devia continuar um mundo sem Covid: o mundo da fantasia, da alegria, dos risos, das brincadeiras em conjunto, de mãos dadas.

12/05/2020

Paula Villares Pires

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