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O impacto social da ciência

A minha vida é a ciência. Para encetar a minha colaboração com o Terra Ruiva, queria começar com uma reflexão sobre o modo como eu acho que a ciência e a sociedade se devem integrar.
Nunca, como hoje, foi a comunicação social tão inundada por informação científica. Todos os dias surgem estudos, atualizações, relatórios, que trazem mais informação sobre a COVID-19. Muitos destes, a maioria, ainda não passaram o crivo que a ciência impõe a si própria: todos os trabalhos devem ser alvo de avaliação por outros cientistas. A sua publicação, a sua mensagem, o seu impacto, dependem disso. Em princípio, idealmente, trabalhos sem qualidade suficiente não são publicados, nunca chegam a contribuir para o conhecimento científico ou a fazer parte da sua mensagem. Muitos dos estudos de que ouvimos falar são, por isso, poeira no ar, que precisa de assentar e solidificar. Mas não há mal nenhum nisso, a ciência é isso mesmo.

No entanto, já há muito tempo que a ciência chama a atenção para que uma pandemia com estas dimensões poderia ocorrer, mas não foi ouvida. Poder-se-iam ter tomado medidas atempadamente, caso estes trabalhos tivessem chegado aos ouvidos de políticos disponíveis para agir sobre essa informação. Esta discussão faz parte de uma mais alargada, sobre o impacto que a ciência tem, e que deve ter. Sobre o modo com esta informação viaja, desde o meio científico até à sociedade.
Na área que trabalho, os impactos de alterações climáticas e de paisagem nos ecossistemas, também tem sido produzida informação alarmante. A ciência tem produzido avisos especificamente dirigidos à sociedade. Não creio que possa, legitimamente, ser acusada de ter uma linguagem demasiado técnica e fechada. O que importa é haver disposição para ouvir. No entanto, aqueles que têm avisado acerca dos impactos das alterações climáticas são acusados de faltar à verdade, de ter algo a ganhar ou de serem alarmistas.

Podemos fazer algo? Podemos. A aparente impotência da população reside numa inversão de valores. Eu costumo dizer, meio a brincar, que um líder político não é um pastor, mas a ovelha que vai à frente (perdoem-me a metáfora pastoril). Podemos eleger líderes que valorizem a ciência, que estejam dispostos a ouvi-la e a agir sobre a informação que ela produz. Para provar o que digo basta vermos o que tem acontecido quando líderes ignorantes, e sem qualquer tipo de conhecimento científico, são eleitos. Não preciso de citar exemplos, sabemos quem eles são. É importante que a ciência saiba comunicar para o grande público, mas também é importante que este a queira ouvir. Podemos, portanto, começar por eleger bons líderes. Depois, podemos também tentar estar informados.

Se aos cientistas cabe a responsabilidade de traduzir o seu trabalho de modo a que todos possamos compreender também a nós, enquanto sociedade, deve caber a responsabilidade de querermos ouvir.

Agora todos esperamos por uma vacina, todos esperamos que os cientistas trabalhem bem e depressa. Mas a ciência não deve servir unicamente para isso, pelo menos não é essa a sua principal tarefa. A ciência não deve servir para nos salvar de um aperto, deve servir para os evitar. Tivessem os líderes políticos ouvido os avisos emitidos pelos epidemiologistas e talvez não estivéssemos aqui.
Será que agora, que esta crise nos obrigou a parar um pouco os líderes políticos vão aproveitar a oportunidade para tomar decisões corajosas no sentido certo? Será que, perante a evidência clara de que líderes ignorantes são algo de muito negativo para os seus povos, estamos dispostos a não os eleger, por muito atrativos que nos possam parecer?

Os tempos que vivemos são uma experiência social e científica de dimensão global. Já vimos como a poluição pode baixar muito rapidamente se forem tomadas medidas. O que causou esta diminuição foi a pandemia. E se fosse uma opção política? E se quiséssemos mesmo melhorar? A responsabilidade é de todos.

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Um Comentário

  1. Excelente texto.

    Claro, curto e sem partes adiposas.
    Embora redigido pelo punho de um técnico, dá para ver como domina a língua em que se expressa.
    Nota-se o pragmatismo discursivo tipicamente anglo-saxónico.
    Não é por acaso que se afirma que o Inglês é um idioma de cariz eminentemente técnico e científico, cujo laconismo se atem ao estritamente necessário, face ao Francês, língua mais vocacionada para temas filosóficos, especulativos, de abstracção pura e quase sempre vazados na característica prolixidade gaulesa.

    Não é em vão que o digo, visto que me recordo de ter compulsado livros dos meus dois filhos da Editora norte-americana McGraw Hill, de quando andavam no Instituto Superior técnico, e, apesar de tratarem de matérias em que eu era, obviamente, leigo, pude aperceber-me da concisão e clareza em que estavam escritos.

    Em tempos em que o nosso idioma pátrio anda tão mal tratado, até, por vezes, por quem deveria ter mais responsabilidade no que escreve, sabe bem, mesmo bem, ver que há jovens, como o que nos oferece este texto, que ainda interiorizam que a Língua Portuguesa é a essência mais pura da nossa matriz de Portugueses, à qual devemos a nossa identidade como Povo.

    Parabéns !

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