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PÁGINA ABERTA: A atriz

Terra Ruiva
Última Atualização: 2020/Mai/Seg
Terra Ruiva
6 anos atrás
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A actriz

O rosto no espelho. Os olhos, sem maquilhagem, revelam agora visíveis sinais de cansaço. O corpo imóvel, suspenso da trajectória do olhar. Sobre o toucador os mais variados produtos de cosmética, que lhe transformam todas as noites o rosto em personagem de cena. Ela sabe. Viu o público de pé, a aplaudir, ouviu até o seu nome; ainda ouve rumores de passos, vozes, exclamações onde se espelham as últimas emoções do palco.

A porta fechada do camarim. Ele não vem, não vai entrar por ali, correr para abraçá-la. No espelho o rosto triste, a imobilidade do tempo. Noutras noites estava feliz, tinha pressa. Sob o toque delicado dos seus dedos, o sumptuoso trajo de representar vai escorregando pelo corpo até cair no chão. Sente um arrepio de frio, com gestos lentos vai ao reencontro do olhar das coisas. Começa a vestir-se, sobre o vestido, o amplo e comprido casaco, o tecido macio a afagar-lhe a pele. E o frio não passa, já se entranhou pelo corpo e acabou alojado no fundo da alma. Na cabeça o chapéu de abas longas esconde o desalinho do cabelo. Os leves sapatos desportivos, a carteira, dentro da carteira o bâton para retocar os lábios.

Está pronta para sair e não sabe para onde. É insustentável a ideia de regressar a casa. Começa a invadi-la um vago e opressivo sentimento – o teatro é agora um enorme espaço vazio onde se instalou o silêncio – é preciso sair, ir para qualquer parte.
Esforça-se por não chorar, é uma mulher forte, é a actriz que sabe dissimular a dor e simular o riso. Caminha depressa, os seus passos têm um som estranho, os pés parecem peças desarticuladas de um corpo que se move sem dinâmica.

Apanha um táxi. Fica agradavelmente surpreendida com a gentileza do taxista; pouco habitual e muito menos áquela hora da noite. Já sentada, a inevitável pergunta chega – Para onde deseja ir?… Ela não sabe. No espelho do retrovisor, um rosto jovem, uns olhos verdes intensos, olham-na com curiosidade. Ela não sabe.
É preciso que o carro circule para fazer circular o tempo. Hesita. – Leve-me até à beira rio – responde. Gostaria de dizer algo mais, de ser mais precisa. Talvez ele entenda. O seu olhar é amável. Envolve-se mais no amplo casaco e puxa as abas do chapéu sobre o rosto para não ser reconhecida.

Olha agora pelas janelas os cartazes luminosos das casas de espectáculos, o rápido caminhar das pessoas tocadas pelo frio de Janeiro. No passeio um par de namorados beija-se, param e beijam-se; seguem devagar pela extensa avenida, saboreando o amor. Semáforos, luzes. O táxi a afastar-se num momento mais rápido, cortando abruptamente o vagar do tempo.

É grande o rio. O taxista não sabe… aguarda. Pare frente ao cais – diz ela. Apaziguada, quase feliz, descansa numa aparente expectativa de quem espera alguém. A proximidade de um barco abre um sulco na imobilidade das águas. A alguns passos de distância um homem, é jovem, está só, numa mão segura um saco de plástico, na outra uma garrafa de cerveja. Também ele olha o rio, o corpo inclinado, mais inclinado agora, largos os gestos, soltas as palavras, perdem-se na densidade da noite. Deixa cair a garrafa que fica a flutuar na superfície da água. Parece zangado, gesticula e acaba por sentar-se num banco de costas voltadas para o rio. Começa a comer uma sandes que retira do saco, de repente pára, remexe nos bolsos das calças, ainda lhe restam algumas moedas, tem sede; levanta-se, guarda o que lhe resta da sandes e recomeça a andar, o corpo magro, desengonçado, caminha devagar por entre os carros e as luzes da grande cidade. Não é ainda um vagabundo – o taxista sabe – conhece as incongruentes histórias da noite, mas poderá vir a sê-lo.

Um denso nevoeiro desce agora sobre o negrume da noite. Fica mais pequeno o espaço dentro do carro, tão pequeno que o próprio acto de respirar perturba o apertado silêncio. A actriz, num gesto de instintiva defesa, aconchega-se melhor no amplo e confortável casaco. Sente-se frágil, ridiculamente frágil. Continua olhando pela janela a espessa e branca névoa. O número vermelho a aumentar no taxímetro, o movimento do carro que de novo arranca. Semáforos, luzes. Tudo a repetir-se.

A mensagem no telemóvel: reunião de última hora impede-me de estar contigo, beijos. Nesta noite, nesta mesma noite, o êxito da peça, os aplausos, o público. E agora nada, as palavras chegam distantes, frias, molhadas e em lágrimas deslizam pelos vidros do táxi.

Texto de: Maria de Lurdes Águas Vieira

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