PÁGINA ABERTA: Memórias dos meus avós

Conheci o meu avô já velhinho – teria eu seis ou sete anitos.
Nasceu em meados da década de setenta do século XIX.
Na sua vetusta face, eram visíveis os sulcos de profundas rugas, que traiam o passar inclemente dos anos, testemunhas de uma longa vivência, por vezes, dura.

Recordo-o de jaqueta, calça de surrobeco, castanha, chapéu de feltro de três bicos e abas largas, cintura cingida por uma longa faixa de pano preto, com franjas nas extremidades, que lhe dava várias voltas à anca – na altura, não se usava cinto -, sentado na cadeira de bunho, à sombra da latada, de onde pendiam belos cachos de uvas brancas, a fazer, placidamente, o seu cigarro de tabaco de onça Duque, com mortalha de papel “Zig-Zag”, o qual acendia com um isqueiro de uma técnica antiquíssima, semelhante ao de pederneira, composto por um bocado de vidro, um pequeno rectângulo de madeira com um minúsculo prego, de que sobressaia apenas cerca de 1 mm da cabeça, e, como isca, uma castanha seca de abrótea ou barbas de milho.

Nos anos da minha infância, havia vagar para tudo.
Não só para trabalhar, mas também para socializar, no sentido mais nobre e convivial do termo.
Embora nalgumas alturas do ano, designadamente no Inverno, as condições económicas, para algumas famílias, fossem algo difíceis e mais parcas do que as de hoje, isso não as impedia de encontrarem sempre dentro de si, de um modo natural, uma força e alegria de viver, que exteriorizavam em manifestações, as mais diversas, desde cantigas, às danças populares.

A impressão que retenho, aos meus olhos de criança, é que esse era um tempo em que as pessoas eram, com reduzidas excepções e no geral, mais sãs umas para com as outras e em que o espírito de solidariedade, entre vizinhos e não só, não era palavra vã.
Um tempo em que as portas das casas não se trancavam, permanecendo apenas encostadas ou, mesmo, abertas, de par em par.
Um tempo em que o ser sobrelevava o ter.

Vivia-se, ao ritmo do devir das Estações do Ano, as quais eram, verdadeiramente, o calendário das fainas e rotinas, que eram bem distintas e demarcadas, com Primaveras amenas, Estios de canículas extremas, Outonos, em que, fielmente, surgiam as primeiras chuvas, que propiciavam o arroteamento das terras para a preparação das sementeiras e, por fim, Invernos muitíssimo chuvosos, ao ponto de a labuta rural ter de ser, por vezes, suspensa, por semanas, visto que as pessoas não podiam ir aos campos tratar dos trabalhos agrícolas, por tão alagados estarem os terrenos.

Os “tractores” do tempo para lavrar as terras eram as mulas, machos ou bois.
Os excrementos destes animais eram aproveitados e amontoados em estrumeiras, onde ficavam a curtir, ao rigor do tempo, e se transformavam em estrume, adubo natural, do qual, na altura da sementeira das batatas, se colocava um pouco, no fundo de cada covato, sobre uma pequena porção de Nitrato do Chile ou guano (“buano”, na gíria popular), ocorrendo igual procedimento, ao longo dos regos, quando se semeava favas ou griséus.
Era ver as galinhas esgaravatarem os monturos de estrume e retirarem dele brancos e gordos gusanos, com cujas proteínas se deliciavam …

Quem, dos mais velhos, não se recorda de ver, pelo país fora, em todas as vilas e aldeias, afixada na parede de um qualquer prédio, geralmente na parte central da localidade, a publicidade ao Nitrato do Chile, sob a forma de um quadro, geralmente em metal ou azulejaria, de fundo amarelo e preto com um cavaleiro ?
Na nossa terra, existiu um desses cartazes, na parte lateral da casa do Remexido, que dá para a Igreja Matriz.

Ainda no âmbito da memória que guardo dos meus avós maternos, nesta deriva de recordações, visualizo a grande seira de figos, de belos figos meio tostados ao Sol, que eram postos a secar, sobre esteiras de junco – os almanxares -, que eu degustava, deliciado, quando ia de visita a sua casa, e a que eles recorriam, na estação fria do ano, como parte da dieta alimentar, de cujo menú constava o xarém – antiga designação árabe para “papas de milho” -, a que juntavam torresmos e, outras vezes, conquilhas, além de bons cozidos de grão, que a minha avó preparava com as couves da horta, chouriça, linguiça e bocados do porco preto, que retirava da “arca frigorífica” da época, a enorme salgadeira de madeira, onde eram conservados, enterrados em sal.

Seca do figo no almanxar

Como em qualquer casa rústica, do tempo, junto à salgadeira, estavam a enfusa para a água fresca, no Verão, o pote para o azeite e, a seu lado, a arca de madeira com o pão, que a minha avó mantinha embrulhado num imaculado pano branco de linho.

Recordo o respeito quase reverencial que as pessoas antigas tinham pelo pão – que consideravam o símbolo dos alimentos -, ao ponto de, quando o deixavam cair, o beijar, porque viam nele uma conotação religiosa com a Última Ceia de Cristo e com a Eucaristia.

À mesa, nunca se colocava o pão virado ao contrário, pois entendiam que ali estava qualquer coisa de sagrado, que se devia respeitar.
Os actos mais prosaicos, como o cozer o pão, eram rodeados de rituais, que eram passados e mantidos de pais para filhos.

Nos dias mais quentes de Verão, quando queria refrescar o vinho para acompanhar a refeição, o meu avô dirigia-se ao poço, colocava a garrafa dentro do balde, fazia descê-lo, até ficar imerso, e aí o mantinha, durante algumas horas, após o que retirava a garrafa, gelada, com uma fresquidão natural.

Era assim a vida dos mais antigos, feita de valores, que os guiavam, como parâmetros de conduta e ética, na sua vida de todos os dias, valores que, transpostos para as relação sociais, impunham regras pacificamente aceites por todos.
Seria impensável o não respeito pelos mais velhos – fossem ou não familiares -, em quem os mais novos reconheciam a sabedoria acumulada, ao longo dos anos, e cujos conselhos ouviam, com reverência, não obstante a natural e saudável rebeldia que cada nova geração traz sempre consigo.

Apesar da minha pouca idade, ajudei, bastas vezes, a moer o milho nas velhas mós – “móses”, no vernáculo local -, que existiam na casa dos meus avós e que figuravam em, praticamente, todas as casas rurais de então, a fim de se obter a farinha de milho, com que se fazia o xarém.

Segundo refere Ataíde Oliveira, na sua “Monografia de São Bartolomeu de Messines”, este tipo de mós é bem ancestral e foi criação do homem neolítico, nosso antepassado longínquo, que terá colonizado, fortemente, toda a vasta zona da nossa freguesia, facto que foi atestado pelos inúmeros vestígios documentais, na forma de sepulturas escavadas no grés, assim como de instrumentos vários, que aqui foram encontrados, tendo muitos deles sido adquiridos aos habitantes locais, por Estácio da Veiga, insigne arqueólogo e investigador algarvio do século XIX.

Nas visitas a casa dos meus avós, onde, por norma, ficava, durante algum tempo, pedia que, nas noites mais quentes de Verão ou de “marmaço” – como se dizia -, me fizessem a cama para pernoitar, sobre o lajedo exterior do pátio, local mais fresco, onde tinha, como tecto, a abóbada celeste.

Depois de todos se terem recolhido, ali ficava, sob o manto estrelado, de uma diáfana transparência, durante horas, fascinado e embrenhado nas minhas lucubrações, apenas eu e o Universo, contemplando aquele céu puro, esplendente e feérico, pontilhado por uma miríade de pequenas luminárias, cintilando, onde se divisava o perfil dum corpo alongado, que me intrigava, que o meu avô apelidava de “Estrada de Santiago” e que, mais tarde, soube chamar-se “Via Láctea”, devido ao seu tom esbranquiçado, semelhante a leite.
A “Estrada de Santiago” retira o nome do facto de ter sido o guia utilizado, à noite, pelos peregrinos, nos caminhos, quando se dirigiam a Santiago de Compostela, a fim de adorarem o seu santo.

Perante toda aquela magnificência, havia uma questão que, na minha lógica incipiente e elementar de criança, me intrigava, profundamente, quando me perguntava se o Universo teria fim e, se sim, onde e como seria.
Por fim, vencido pelo sono, via-me, em sonhos, voando, sem peso, por paragens cheias de luz, estranhas e deslumbrantes, a que apenas a imaginação pode aceder.

Dentre as experiências que mais apreciava, era a beleza ímpar das noites de luar, no campo, quando os contornos das coisas se tornavam esmaecidos, cobertos pela poalha difusa recebida da Lua, única fonte luminosa, de um matiz vagamente prateado.

Uma das ocupações de que mais gostava era ordenhar as ovelhas churra, animais extremamente dóceis, que me permitiam brincadeiras, como a de colocar-me debaixo de alguma, apertar-lhe o amojo, dirigir o jacto do leite para a boca e bebê-lo morno, ao natural.

Num tempo em que nem rádio havia, a única música com que me deliciava era, ao entardecer, ouvir o canto deslumbrante do rouxinol, que, por norma, o fazia, na espessura da vegetação, sendo raramente visto, com a sua sóbria plumagem acastanhada.

A toutinegra, reconhecível pela cabecinha preta, essa, escolhia os ramos das árvores mais altas, de onde os machos, com os seus gorjeios dobrados e maviosos, por alturas de Abril / Maio, procuravam seduzir alguma fêmea para acasalar, fazer ninho e dar origem à próxima criação.

Era um desfiar de contínuas descobertas e solicitações, como só a vida rural, em contacto aberto com a Natureza, pode proporcionar.

Naqueles tempos, quase todas as casas do campo tinham uma pocilga, onde era costume engordarem o seu porco, cuja carne constituía um complemento essencial da alimentação, designadamente, durante a época do Inverno.
No decurso da fase de engorda, o porco era capado, a fim de que a carne, ao ser consumida, não apresentasse o gosto acentuado a “porcum” (termo usado na gíria popular), próprio dos porcos “inteiros”.
Para o efeito, o meu avô chamava o capador – profissão que suponho extinta, actualmente -, que lhe excisava os órgãos genitais, a frio … desinfectando a ferida com vinagre., numa operação que me impressionava, pela rudeza.
O capador era um profissional do tempo, que percorria montes e vales, oferecendo os seus serviços, para infortúnio dos pobres animais …

O dia da matança do porco – animal criado com farelo, milho, bolotas, alfarrobas e hortaliças – tinha início pela manhã, bem cedo, e era, dantes, uma ocasião de festa e confraternização.
Eram convidados amigos e vizinhos, que vinham ajudar, visto que eram necessários muitos braços, desde logo, para elevar o animal – com um peso, quase sempre, acima de dez arrobas – para cima do caixote, onde teria lugar a matança, assim como para o manietar, especialmente, no estertor e nas vascas da morte.

A faca para o “sacrifício” era de secção triangular, isto é, de três gumes.
O golpe era aplicado, pelo matador, na zona da carótida do animal, que se esvaia em sangue, o qual a minha avó aparava num recipiente, a que era adicionado um pouco de vinagre, para que não coagulasse, ao mesmo tempo que o mexia.

Com esse sangue, era cozinhada a chamada moleja, prato a que eram adicionadas miudezas do porco, entre as quais bocados de “bofe”’ (pulmões) e de “cachola” (o fígado do animal, no vernáculo algarvio … há quanto tempo não utilizava estes termos … ! ).

Refira-se que a moleja é também conhecida, na parte Norte do país, por “sarrabulho”, donde, as célebres “papas e arroz de sarrabulho”.
Eu apreciava, especialmente, as “queixadas” grelhadas – a que outros chamam faceiras -, porventura, a parte mais saborosa do porco.

Depois de morto, o animal era chamuscado com tojo em chamas, que ia sendo colocado sobre ele, com o auxílio de uma forquilha, seguindo-se a raspagem com a crosta áspera de um bocado de cortiça, ao mesmo tempo que ia sendo vertida um pouco de água sobre o local, até que toda a pele exterior tivesse sido retirada, juntamente com os pêlos.
Por fim, o porco era colocado de barriga para cima e aberto com um extenso golpe, que lhe expunha as cavidades torácica e abdominal.

O povo costuma dizer, na sua velha sabedoria, que “se quiseres ver, por dentro, o teu corpo, abre um porco”.
Com efeito, assim é.
Todos os seus órgãos internos são semelhantes aos nossos e na mesma posição relativa.

O “desmanchar” do porco, como se dizia, envolvia muito trabalho, não só pelo acto em si, mas por todas as fases subsequentes.
Uma delas, que eu achava especialmente original, era a lavagem, na ribeira, das tripas do animal – intestinos delgado e grosso -, os quais tinham de ser virados do avesso, com o auxílio de uma pequena vara de madeira.
Era com eles que seriam feitos os enchidos.
O intestino grosso destinava-se à confecção dos paios e o delgado às linguiças e chouriças.
Para o efeito, era picada para um grande alguidar a carne magra de um dos presuntos do animal, à qual tinha de se juntar alguma carne gorda para “ligar” a textura dos enchidos.
De seguida, era feita a separação para dois alguidares separados.
O picado destinado à feitura dos paios e linguiças era temperado com massa de pimentão da horta e um pouco de alho, sendo que ao dos chouriços era juntado cravo de cabecinha q.b.
Todas estas operações eram efectuadas pela mão mestra da minha avó, que utilizava um pequeno funil de cano curto e grosso, cuja boca enfiava no intestino delgado, para mais facilmente o encher com a carne picada e temperada, sendo que, a espaços, picava o enchido com um garfo, a fim de retirar algum ar.
Nada passava despercebido aos meus olhos curiosos de criança …

Seria fastidioso descrever toda a parte restante do tratamento e destino das carnes, parte substancial das quais era guardada na salgadeira de madeira, entre grossas camadas de sal.

O dia terminava com um farto almoço para todos, já pela tarde adiantada, que a minha avó preparara, entretanto, com as melhores partes da carne do animal, com a ajuda de algumas vizinhas, que acorriam a ajudá-la, nesse dia.
Terminado o repasto, já bem “alegres”, cada um mostrava as suas habilidades, uns cantando modas de antigamente, ao som de ferrinhos e do harmónio – instrumento indispensável para animar a festa -, outros contando anedotas e outros apenas ouvindo e rindo.
O meu avô, bom anfitrião, não escondia a sua alegria por aquele dia bem passado, no seio de amigos, que, no final, se despediam com um “até para o ano”.

As matanças do porco, em casa do meu avô, foram, porventura, das experiências mais marcantes que a minha memória regista, nas visitas que lhe fazia, embora muitas outras solicitações prendessem a minha atenção, no dia-a-dia, ao longo dessas estadias.

Sempre que ouvia uma galinha cacarejar, festivamente, lá ia eu buscar o ovo, ainda quentinho , acabado de pôr, que entregava a minha avó, que me retribuía com um sorriso de agradecimento.

Cerca dos finais de Agosto, tinha lugar a apanha das amêndoas e alfarrobas, o que era feito com compridas varas, com as quais se varejavam os frutos, designadamente, os que estavam nos ramos mais altos, tarefa em que, embora novinho, gostava de participar.

Apanha da amêndoa

Dependendo do tempo climatérico e das chuvas, era, geralmente, em Novembro que tinha lugar a apanha da azeitona, igualmente por varejamento, para o que eram colocados no chão os panais, sobre os quais os frutos caiam, facilitando a recolha.
Havia oliveiras produzindo azeitonas de vários tipos :

– maçanilha (redondas como berlindes e com um caroço mínimo)
– verdeal ( com cores de vários matizes, desde o tom verde ao roxo)
– bical (terminando em bico)
– galega (negra)

O meu avô destinava o maior volume das azeitonas para a produção de azeite, pelo que eram encaminhadas para o lagar, restando uma parte para conserva e consumo da casa, britadas ou “retalhadas”.
Reparei que a minha avó, no processo de conserva que fazia às azeitonas, preferia a própria água da chuva, que mudava, de quando em quando.

De todas – ouvi, muitas vezes, dizer ao meu avô -, a galega é a rainha e a que produz azeite de melhor qualidade.

Tenho ainda claramente presentes, também, os trabalhos da eira, um terreiro plano, redondo, com o chão duro, onde as espigas do trigo e das vagens do grão eram acabadas de secar e, depois, malhadas.
O piso da eira era raspado e limpo, depois, regado e alisado para, logo de seguida, se espalhar palha miúda, a qual, ao ser batida com uma enxada rasa, formava, depois de seca, uma superfície bastante dura.

A acção de malhar os cereais na eira era feita, ao sol e durante o calor, quando a humidade é menor, a fim de que o grão mais facilmente se soltasse, o que exigia um trabalho violento e incómodo, uma vez que as poeiras e a palha picavam e ardiam no corpo.
De seguida, aproveitando o vento, o malhado ia sendo atirado ao alto com a forquilha, de forma a separar o mais possível o cereal das palhas.
No chão, com o ancinho, ia-se retirando as palhas mais grossas e, com a vassoura e o rodo, juntava-se o grão já limpo em montes.

Debulhando cereais

Finalmente, para uma limpeza mais acurada, joeirava-se o cereal num crivo com a malha adequada.
Em alternativa à malhagem braçal, eram, por vezes, utilizados os animais, que pisoteavam o cereal.

Depois da tarefa da eira, o grão era guardado em arcas de madeira, em local seco, sendo o trigo levado para o moinho, a fim de obter a farinha para o pão.
Era também para a eira que eram conduzidas as maçarocas do milho para se lhes retirar a fatana, a palha áspera que as veste e com que as famílias mais pobres, à falta de melhor, enchiam os colchões das camas.
Um dos meus pitéus preferidos era maçaroca assada, na fase em que o milho ainda está em leite.
Uma das tarefas em que gostava de participar era no corte da bandeira do milho.

Certa vez, no negrume da noite, quebrando o silêncio, vindo do escuro, do lado do palheiro, ouvi um piar sinistro e arrepiante.
Perguntei ao meu avô o que era.
“É o canto de uma coruja” – respondeu.
Explicou-me, com ar muito sério, imbuído na sua crendice ancestral de pessoa do campo, que o canto da coruja era de “mau agoiro” e sinal de que alguém estava para morrer.

Terminadas as tarefas do dia e após a ceia, o frio, nas longas noites de Inverno, convidava a que nos reuníssemos, aos serões, à volta do calor aconchegante da lareira, cujo brasado, crepitando, fúlvido, era, de quando em vez, ateado com uma comprida haste de ferro, fazendo elevar-se no ar pequenas chispas de fogo.
Suspenso do tecto da lareira, estava colocado o varal, de onde pendiam chouriças e linguiças para secarem ao fumeiro, como se dizia.
A um canto, estavam as duas panelas de ferro de tripé utilizadas, uma, para cozinhar os alimentos e a outra, bem maior, para o aquecimento da água destinada aos banhos.

No decurso desses saudosos serões, enquanto a minha avó aproveitava para remendar alguma roupa ou para fazer peúgas, manejando habilmente o fio com cinco agulhas, o meu avô contava velhos contos e lendas, passados, por tradição oral, desde tempos imemoriais, que tinha ouvido já ao seu próprio avô, que lhe chegou a contar sobre as Guerras Liberais, entre liberais e absolutistas, de quando era ainda criança.

Os contos que mais gostava de ouvir eram os de bruxas, vagueando pelos caminhos, no negrume da noite.
Dizia-se que faziam fogueiras nas encruzilhadas dos caminhos solitários e que, aí, dançavam e cantavam com vozes que mais pareciam guinchos.
Ai de quem tivesse a pouca sorte de por lá passar.

Toda esta ambiência ganhava especial fascínio, nas noites de temporal, em que o céu parecia abrir-se, em enormes torrentes de chuva, e o vento bramia, lá fora.
Aconteceu algumas vezes que, depois da entrada na cama, assustado com as histórias que tinha acabado de ouvir, me escondia debaixo dos cobertores, onde adormecia, transido de medo.

O meu tio Gregório, almocreve, levava-me, algumas vezes, a passear na sua mula, um animal imponente, de cuja garupa altíssima eu receava cair, quando nela montava.
Não obstante ser de estatura baixa, era rijo como aço.
Era para mim um espanto ver como ele conseguia aparelhar o animal – sem qualquer ajuda que não fossem os próprios braços – com duas sacas de trigo de 100 kgs., cada.
De seguida, pegava em mim, como se uma pena fosse, e sentava-me sobre a carga.
E lá íamos nós, a caminho do moinho.

Um outro passeio que procurava não perder era a ida à fonte, montado na “Castanha” – o nome da mula -, quando era necessário refazer a provisão de água, para o que era colocada, sobre o dorso do animal, a canga, uma estrutura de madeira com espaço para quatro cântaros de zinco, dois em cada lado.
Depois dos cântaros cheios, sentávamo-nos um pouco a fruir a paz reinante no local, à sombra de velhos plátanos e envolvidos pela delicada fragrância dos olorosos e túrgidos mentrastos, que ali nasciam, espontaneamente, na fresquidão do chão sempre húmido.
O meu tio, bom conversador e pessoa de um optimismo contagiante, aproveitava para contar peripécias cómicas da sua vida de almocreve, assim como alguns episódios mais sérios dessa custosa profissão.

Todas estas vivências foram, a um tempo, lúdicas e também uma escola, onde constatei a dureza, a que a vida obriga, experiências que me ajudaram a crescer, como pessoa.

Os últimos dias do meu avô retiveram-no na cama, incapacitado, de onde não mais pôde sair, por ter ficado entrevado – como se dizia naquele tempo ou, literalmente, metido nas ‘trevas’ de uma imobilidade permanente -, provavelmente por algum AVC, termo que, então, se desconhecia.

Após o falecimento dos meus avós, foi-se com eles, para sempre, o encanto e a magia dos momentos passados na sua companhia e das visitas que lhes fazia.
A vida é assim mesmo.
Não espera por ninguém e todos temos de amadurecer para podermos vir a ser pais, a fim de transmitirmos aos nossos o testemunho para a próxima geração.

Apesar de tudo se ter esvaído, sem retorno, como a areia por entre os dedos de uma mão aberta, e não ser hoje mais do que uma memória saudosa, querida e irrepetível, apesar disso, sobrou algo, que adorna, hoje ainda, a minha lembrança e que jamais perecerá.

Texto e imagens: José Domingos

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