PÁGINA ABERTA: O homem que abraçava as árvores

Era Outono, aquela estação melancólica, indecisa, de ambíguas oscilações. O sol já perdera o calor persistente dos longos dias de Verão e aparecia agora mais fugaz, por vezes desaparecendo por completo sem aviso prévio.
Naquele dia permaneceu mais tempo, a manhã cresceu luminosa, os pássaros voltaram a cantar sobre a alta copa das árvores.

Um desconhecido passeava solitariamente pelos caminhos atapetados de folhas caídas, caminhava à minha frente num passo lento, descomprometido, sem aparente direcção, ao sabor do acaso. Parecia não dar conta das pessoas que cruzavam o seu caminho, como se não existissem. Ninguém sabia quem era e o que fazia aquele homem. Corria de boca em boca uma versão, que a ser verdadeira, deixava as pessoas estupefactas. Era coisa fora do normal, comentavam os velhos habituais frequentadores do jardim, que o viram algumas vezes abraçar as árvores.

O homem abraçava as árvores. Os seus braços fortes tinham gestos suaves ao enlaçarem os altos e frondosos troncos. Outras vezes ficava somente a olhá-las. Talvez por isso caminhava devagar, olhando para o alto, absorto e contemplativo.
Naquela manhã, vi o seu vulto a afastar-se. Hesitei ainda, até que tomada de súbita curiosidade, caminhei na sua direcção, tentando manter-me sempre a uma distância discreta. Por algum tempo, seguimos em perfeita sintonia, os meus passos no trilho dos seus passos; como se um tácito acordo nos conduzisse para o mesmo lugar.

Nisto, um grupo excursionista se interpõe entre a minha presença e a do desconhecido, foram breves minutos que nos distanciaram. De novo o avistei. Estava sentado num banco, à sombra da árvore mais antiga do jardim, inclinado para a frente, olhava com atenção para algo que segurava entre as mãos. Um pequeno livro de bolso, uma agenda ou uma fotografia… Não sei, onde estava não via bem.

Que recordava aquele homem? Que memórias o retinham ali, dia após dia? Que abandono ou vontade era a sua?
Não sei quanto tempo fiquei a observá-lo, até que a volubilidade do Outono me apanhou de surpresa; o sol escondera-se e pesadas nuvens negras desceram sobre as nossas cabeças. O homem imóvel, sentado no banco, olhou à sua volta surpreendido, como se acordasse de um sonho. Levantou-se, deu alguns passos em volta, ergueu a cabeça, contemplou o céu cor de chumbo e na palma das suas mãos estendidas ao alto, caíram as primeiras gotas de chuva. O vento parara de soprar e as árvores expectantes pareciam conter a respiração do tempo na dádiva da água caída do céu.

A chuva no início miúda, caía agora com maior intensidade. O jardim foi ficando um lugar deserto, onde figuras fantasmagóricas se confundiam com as formas das árvores. Afastei-me, fugindo da chuva que me fustigava o rosto. Olhei ainda para trás, o homem que abraçava as árvores era agora uma figura invisível na obscuridade da tarde.

Maria de Lurdes Águas Vieira

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2 Comentários

  1. AS ÁRVORES NOSSAS AMIGAS

    Não é por acaso que, ao caminharmos por uma floresta ou por uma mata, experimentamos uma sensação de sossego e de repouso interior, que nos acalma.

    Porquê ?

    Há apenas pouco mais de dois séculos, com o advento da Primeira Revolução Industrial, o homem foi encaminhado para as primeiras zonas fabris, nas periferias urbanas, e arrancado das suas origens milenares rurais, onde, durante milhões de anos, evoluiu, desde a fase de simples hominídio, até ao estádio final actual do “Homo Sapiens Sapiens”, cujo último parente, na escala evolutiva, foi o robusto “Homo Neanderthalensis”, com o qual partilhamos noventa e muitos por cento do genoma, visto que, segundo todos os estudos feitos, se conclui que houve cruzamentos entre o homem actual e o homem de Neanderthal.

    Durante todo este largo período, a Espécie Humana viveu sempre em contacto permanente com a Natureza ou, melhor dizendo, com o verde, a cor verde com que a clorofila pinta as plantas.
    Eis porque ao caminhar pelo campo, no meio das árvores e das ervas, é um pouco como recuar no tempo e regressar às origens, ao “paraíso perdido”.
    Na nossa memória genética, ainda persiste essa ligação.

    Desde criança que, sem que ninguém me tenha instruído nesse sentido, sinto pelas árvores uma admiração, uma veneração, um respeito e um carinho muito especiais.
    Jamais as imaginei como seres inferiores, apenas pelo facto de serem desprovidas de locomoção, muito pelo contrário.

    Elas podem viver – e já viveram – sem nós.
    Nós não podemos viver sem elas.

    Dei comigo, muitas vezes, a admirá-las e a observá-las, como amigas, na sua imponência acolhedora, grandeza, beleza e vetustez de muitos séculos, imaginando que aquele mesmo tronco rugoso e tosco, ali à minha frente, foi já testemunha presencial de acontecimentos bem mais antigos do que o meu próprio tetravô.

    Faço regularmente caminhadas e / ou corridas, numa enorme mata nacional localizada a poucos quilómetros da minha residência.
    Nessa mata, que foi a principal fornecedora da madeira para a construção das naus de quinhentos, onde, igualmente, num velho forno eram confeccionados os biscoitos – cozidos 2 vezes, para lhes extrair toda a humidade, a fim de que não ganhassem bolor –, que os marinheiros levavam nas longas viagens, nessa mata, dizia, onde existem pinheiros muitas vezes seculares, vi, há algum tempo atrás, algo que me chocou.

    A mata é atravessada, em vários pontos, por grandes postes com linhas de alta tensão da REN e, para obviar a eventuais incêndios, todo o coberto arbóreo, sob as linhas e ao longo das mesmas tem de ser cortado.
    Naquele dia, ia no meu treino e vi que pessoas do serviço de conservação da mata se preparavam para cortar um enorme pinheiro bravo de não menos de cinquenta metros de altura com um diâmetro de tronco de quase um metro, como tive, depois, ocasião de constatar.
    Tinha, seguramente, mais de trezentos anos.

    Alí fiquei a observar, chocado, a ver como, em escassos minutos, o tronco daquele ser vivo imponente foi separado das raízes pela motosserra e a sua vida ceifada.
    Porém, o momento mais doloroso foi o da queda daquele gigante, que, mesmo já por terra, exangue, não perdeu, de todo, a sua dignidade.

    Não quis ver mais nada, nem prosseguir o meu treino.
    Voltei para trás, entrei no carro e regressei a casa.

    As árvores, que já acolheram, nos seus ramos, nos alvores de uma longa evolução de milhões de anos, os símios, nossos parentes já muito afastados, antes de descerem para passar a ser bípedes e caminhar erectos, as árvores, dizia, são seres que, contrariamente ao que muitos poderão pensar, desenvolveram técnicas de sobrevivência verdadeiramente notáveis.

    Quando um elefante ou uma girafa se começam a alimentar das folhas de uma acácia, a mesma envia um fluido de aviso para outras acácias da zona, originando que estas segregam uma substância, que lançam nas folhas, tornando-as amargas, o que impede os herbívoros de as comerem.

    Segundo estudos feitos, quando estão próximas, as árvores estão ligadas entre si, através de um sistema radicular comum, ao mesmo tempo que trocam nutrientes e se ajudam mutuamente.
    Numa floresta, é comum haver árvores mais antigas, que assumem o papel de matriarcas, coordenando a partilha de nutrientes.
    Estas árvores são tão importantes na floresta que, quando cortadas, diminuem a expectativa de vida das que as rodeiam.

    Não nos apercebemos com os nossos sentidos, mas todo o espaço em que nos movemos está, continuamente, a ser bombardeado e atravessado por radiações de toda a espécie.
    Do mesmo modo, parece haver provas de que, ao abraçarmos uma árvore, existem mesmo troca de fluidos, que mexem com a estabilização do nosso equilíbrio emocional, pelo que não será propriamente asneira abraçar uma árvore, pela energia positiva que nos transmite.
    Existem filosofias orientais que o afirmam e provam.

    Do mesmo modo que a vida animal teve origem no mar, também as primeiras formas de vida vegetal surgiram da água.
    Foram as algas.

    Abreviando, já em terra, muito antes de surgirem as árvores, os arbustos lutaram entre si, durante muitos milhões de anos, pela obtenção da luz do Sol, não podendo elevar-se mais, devido a que a consistência do seu caule não o permitia, até que um grupo desses arbustos “descobriu” uma substância fibrosa, a lenhina, que lhe permitiu formar um tronco duro, que, por sua vez, lhes possibilitou elevarem-se – sempre na luta pela obtenção da luz solar – para alturas muito maiores : tinham aparecido as árvores, fenómeno que ocorreu, há cerca de 380 milhões de anos, no Período Devoniano Médio ( Era Paleozóica ).

    Após terem surgido, as árvores iam completando os seus ciclos de vida, morrendo e os troncos caindo, assim como devido às grandes intempéries, que derrubavam milhões de árvores, todas ficando soterradas por sedimentos e também devido a convulsões geológicas.
    Tudo isto ocorreu, durante cerca de cem milhões de anos, sem que os troncos fossem reciclados por agentes biológicos.

    Só no final deste longo período de cem milhões de anos, surgiram as primeiras bactérias que passaram a decompor a madeira.
    Durante esses cerca de cem milhões de anos, toda a quantidade incomensurável de árvores enterradas, cuja madeira não foi decomposta, deu origem às minas de carvão, que hoje se exploram.
    Dito de outro modo, se, desde a origem do aparecimento das árvores as mesmas, à medida que fossem morrendo, tivessem sido logo decompostas por bactérias, não existiriam hoje minas de carvão mineral.

    O petróleo, esse, tem outra origem.
    Embora exista alguma controvérsia sobre a origem do petróleo, a explicação mais consensual é de que resultou da transformação química, por acção de bactérias, ao longo de muitos milhões de anos, dos restos de matéria orgânica vária – especialmente, fitoplâncton –, acumulada, no fundo dos oceanos, mares ou lagos antigos, sob a pressão de camadas de sedimentos, que se foram depositando e formando rochas sedimentares.

    Os hidrocarbonetos e compostos voláteis formados migram, depois, devido à pressão a que estão submetidos, para impregnar areias e rochas porosas, geralmente, arenitos.
    Quando ocorre estas serem, posteriormente, “aprisionadas” por camadas impermeáveis, forma-se o que se chama uma jazida de petróleo, onde os hidrocarbonetos formados ficam retidos.

    Pode igualmente ser encontrado em terra.
    Um exemplo é aquele de que temos ouvido e lido, ultimamente, sobre a exploração, nos EUA, de petróleo em zonas xistosas.

    Nestes processos, costumam intervir movimentações geológicas da crosta terrestre, como se verifica, designadamente, na formação das jazidas terrestres.

    O petróleo não é, pois encontrado, na Natureza, em camadas líquidas entre rochas, mas impregnando rochas sedimentares, em cuja porosidade se aloja.
    Nisto consiste, em termos muito gerais, a formação do petróleo.

    O petróleo, na forma de betume, era já utilizado, desde a Antiguidade para calafetar embarcações e para outros fins, mesmo bélicos.

  2. Ótimo conteúdo, adorei!

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