PÁGINA ABERTA: Momentos Mágicos- O Menir… Ou melhor a família

O ritual é sempre o mesmo, quando quero fazer um passeio. Tenho de apresentar argumentos persuasivos, é muito giro e, anda lá e, vais gostar, por isto ou aquilo e finalmente quando consigo o almejado está bem, já desvendei tudo o que vamos ver, só faltando a constatação in loco dos argumentos que apresentei!

Mas um dia, conheci um casal que não precisava de ser persuadido, estavam sempre prontos para partir e, ele ou ela diziam-me: “Olhe, então vamos a tal sítio, há lá uma coisa que vai gostar de ver, e mais não digo.” Ah! Tão fácil! Fogo! Finalmente encontrei as minhas almas gémeas das caminhadas associadas a passeios! Aquilo era mais do que suficiente para ficar em pulgas na expetativa da partida!

Na sequência de uma dessas conversas lá iniciámos mais uma aventura, com a finalidade de ver os campos floridos e menires ali tão perto, e de que eu nunca ouvira falar nem lera! Carro parado e estacionado, apetrechados para as quatro estações, e a imprescindível merenda na mochila, lá partimos em direção aos campos floridos!

Fomos ter a uma casa pequenina e modesta, bem típica do Algarve de outros tempos. Pelas cores nas ombreiras das portas e janelas, revelava ser ocupada por alguém com sensibilidade artística, sabe-se lá vinda de onde, que tinha escolhido aquele cantinho para fazer o seu pedaço de paraíso na Terra. Não estava lá ninguém e como não havia portões nem muros, pudemos andar por ali à vontade.
Ao darmos a volta à casa, já o Joaquim apontava para algo. Parei surpresa para admirar o trabalho em ferro forjado que servia de proteção a uma enorme janela. Já uma modernice! Era uma cabeça de mulher, com cabelo, pescoço e tudo, em relevo. Os pormenores do rosto eram espantosos! Estava lá tudo: os olhos, as sobrancelhas, as pestanas, os lábios, o nariz, as orelhas e até as ondas do cabelo! Impressionante! Agora tentem visualizar isto tudo em ferro forjado com o tamanho de dois por dois metros! Que obra tão inesperada, ali naquele meio rural, em que os ferros nas janelas até podiam ser bonitos, mas não eram obras de arte! Já tinha ganho a viagem e ainda agora tínhamos começado o passeio!

Saciados os sentidos, lá prosseguimos, comentando o achado. Ali mesmo ao lado, quase junto à casa, existia um afloramento rochoso de grés vermelho, tão característico de Silves. O Joaquim já tinha subido lá para cima e de braço esticado apontava para um sítio junto aos seus pés, com um semblante que dizia: “Voilá!” Enquanto me dirigia para lá, pensava: “O menir não é! Será que ele não sabe o que é um menir?”
Posiciono-me a seu lado e dirijo o olhar para o local por ele apontado. Bem! Eu olhar, olhava. Mas os meus olhos levaram um tempo a entender o que era aquilo! E olhos inquietos, mandando mensagens ao cérebro, que assimilava e transformava em algo concreto, que fazia disparar emoções. E então o que viam os meus olhos? O que era assim tão inesperado para me causar tanta consternação?

O que de começo me pareciam uns buracos resultantes da ação da erosão, olhando com mais atenção, percebi que afinal eram três sepulturas escavadas no grés, e mais perturbante ainda, é que tinham o formato do corpo humano, com os braços junto ao corpo! Mas não era só isso! O que mais me perturbou é que as covas tinham tamanhos diferentes, sugerindo pertencerem a um pai, a uma mãe e uma criança!
Quando assimilei tudo, senti o meu íntimo e pele arrepiarem-se, tal foi a consternação que senti. O choque foi tão forte que nem eu própria entendia a minha reação! Tive de me sentar e respirar fundo para retornar à acalmia e, no meu cérebro iam-se formando perguntas: Quem seriam? Qual a sua história? Será que os moradores da casa ao lado, ao descobrirem aquele achado no seu quase quintal, ajudou-os a concluir que aquele era o tal cantinho de paraíso que tanto procuraram? É bem possível! Será que os veneram?
Aquelas covas com formas humanas tinham tal força, que me senti perante algo transcendental, que guardaria para sempre na memória. O silêncio do local, as covas vazias, que já tinham sido ocupadas por seres que tinham vivido, amado, e partido, sugerindo uma passagem para outro além.

Por ali ficamos em silêncio veneratório e com respeito nos afastamos. No entanto, eu ficaria para sempre tocada por aquele momento, em que via na minha mente um homem com o braço por cima dos ombros de uma mulher, que por sua vez levava pela mão uma criança, e via-os a caminharem em direção a um local, fosse ele qual fosse, juntos para sempre!
Fomo-nos afastando para continuarmos o nosso passeio pelos tais campos floridos, rumo ao mehir, que pude constatar era grande, majestoso com inscrições e tudo, no cimo de um monte. Mas devido às circunstâncias, apesar da sua majestosidade, foi relegado para segundo plano. Pobre menir! Tenho de ir lá visitá-lo propositadamente pois ele merece! Está prometido menir! Palavra de escuteiro!

Agora que passei para o papel, trazendo estes sentimentos de volta, entendo porque me tocou tanto! Eu não estava preparada psicologicamente para o que ia encontrar. Mas o Joaquim ao manter o suspenso do que íamos ver, conseguiu surpreender-me e de que maneira! Aliás, fiquei surpreendida para sempre! Grande sacaninha!

Para o Joaquim e a Filomena, companheiros incansáveis de aventuras por montes e vales sem fim
Vale Fuzeiros, Silves

Texto de Aurora Silva

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