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João de Deus 190 anos

  1. Mais uma volta redonda no calendário da eternidade de João de Deus. Regressa, como sempre, pela cauda do Inverno. Celebram-se 190 anos sobre o seu nascimento.

Está bem vivo. Muitos reparam. Outros, nem por isso. Podiam procurá-lo. Passar lá por casa. Entrar na sua intimidade. Conhecê-lo melhor. Merece.

1815. São Bartolomeu de Messines. Isabel Gertrudes, da Amorosa, e Pedro José, de Alcantarilha, aqui encalham. Não tarda, celebram casório. Amores firmados, filharada a rodos. Concebem uma dúzia. Perdem um terço.

João de Deus, nascido a 8 de Março, recebe o nome do irmão mais velho, falecido pouco depois do nascimento. Dar o nome do filho que desaparece ao que nasce, suaviza a perda.  A tradição chega ao final do século XX.

João de Deus será o mais famoso da prolífica sementeira de Pedro e Isabel. Sorve as primeiras letras na sua terra. Orbílio, o mestre de latim, um ferino miguelista, gosta de assentar a palmatória em mãos tenras. O latim subia assim mais depressa às cabecinhas vazias. Acreditava-se.

Foge da carreira eclesiástica a que os pais o querem destinar. Ainda recebe as Ordens Menores, na capela do Palácio Episcopal, em São Brás de Alportel. Completa os preparatórios no Seminário de Coimbra. Entra, em Direito, na Universidade.

Não se apressa. Leva dez anos para concluir o curso. Interrompe-o várias vezes. Calcorreia montes e vales para vir ao Algarve. Chega a levar três meses. Onde aparece petisco, cantoria, amigos e conversa, encalha.

Coimbra faz de o João, como é conhecido, lenda perpétua. A passar de geração em geração. É adulado por multidões de fãs, como hoje se diria. Deus da vida airada. Mansidão de carácter, talento literário, verbo melodioso, dichotes poéticos, improvisos e cantorias sem fim, são azougue para todos os estudantes de Coimbra.

Montado no seu burro, badalos pendurados na albarda, o chinfrim acorda a malta. Guiado por Deus, o cortejo da academia exulta em santas noitadas de farra. O Penedo da Saudade ou a Fonte do Castanheiro enquadram memoráveis encontros. Vozes esganiçadas em o Malhão, o Choradinho, o Ladrão, ladrão e muitas outras canções populares, que o João adapta ou compõe sobre poemas seus. Acompanha-os com sua inseparável viola. Gargantas afinadas. A tinto ou a aguardente. Até ao romper da bela aurora.

Completa a formatura, em 1859. Deixa-se ficar mais três anos na boémia coimbrã. António Araújo, amigo do peito, admira o seu viver, “já canonizado de superior inteligência literária, e de um coração de ouro sem liga”. A acender cigarros nas lâmpadas da Igreja de Santa Teresa. Ou a simular “síncopes e êxtases para apanhar doces às freirinhas” do convento.

Escreve inspirados versos que os companheiros copiam e guardam avidamente. As primeiras poesias aparecem publicadas nos jornais de Coimbra. Serão reunidas em livro, Flores do Campo, em 1868, editado por José António Garcia Blanco.

Antero de Quental, em 1860, anuncia o génio literário do poeta: “João de Deus ainda há pouco era uma vocação ignorada por todos; hoje, conhecem-no e amam-no alguns dos amigos da verdadeira Arte…”

A sua inspiração vai do lirismo intenso e despojado à sátira mais verrinosa e demolidora. Modela a língua, com virtuosismo. O ritmo e a métrica supuram qualidade literária. É uma poesia ao arrepio da moda ultra-romântica. Na aparência muito simples, atinge profundidade emocional. Encharca de júbilo ou melancolia o coração de quem a lê ou ouve.

Solto de Coimbra, deixa lá a saudade da sua sombra. Ruma a sul. Demora-se por Beja. Colabora na imprensa local. Em O Bejense publica o artigo “O Lusíadas e a Conversação Preambular” (1863). Critica aqui o ultra-romantismo que Castilho incensa e promove. A prosa afiada inspira, dois anos depois, a carta “Bom Senso e Bom Gosto”, a resposta de Antero a Castilho (1865) que espevita a Questão Coimbrã. É o início da revolução literária, artística, que escancara as portas ao realismo. Emerge a Geração de 70. Antero, Eça, Ramalho, Oliveira Martins, entre muitos outros, admiram Deus.

Demora-se algum tempo em Évora. Escreve em A Folha do Sul. Desce a Messines que o reclama. Julga aqui sossegar. E fazer-se à vida.

O regresso é auspicioso. Como advogado, intervém num único caso, no tribunal de Silves. Consegue a absolvição do cliente. E é muito. Não tem paciência para vestir a toga. A barra dos tribunais entedia-o.

Para os amigos, sim, tem toda a pachorra. Convocam-no amiúde para o convívio. Silves, Monchique, Vila Nova de Portimão. Vida precária, errante, de bolsos sumidos. Os amigos, sobretudo Garcia Blanco e Domingos Leonardo Vieira, acham que o João poderia mudar de vida e dar um bom deputado. É popular. Os conterrâneos adoram-no.

Aceita candidatar-se. Faz campanha pelas aldeias. Militância empenhada. Pede para não votarem nele. Os votantes ignoram o apelo. Elegem-no, à segunda volta. De trouxa aviada, desembarca em Lisboa. Nunca mais regressará ao Algarve.

O andarilho estaca. Em Maio de 68, toma assento na Câmara dos Deputados. É o mais eloquente dos tribunos. Não tropeça numa única sílaba. Entra mudo e sai calado. Passagens breves pelas brasas, num ressonar suave, acompanha as intermináveis jornadas parlamentares. No ano seguinte, só comparece a três sessões. Chega.

Coração e corpo já andam longe dali. É cercado por olhos que não despegam. Guilhermina das Mercês. a morar perto de si, na baixa pombalina, acelera-lhe as palpitações. Não tarda o enleio dos corpos. A primeira filha, Maria Isabel, assoma em 1869.

Quando, em 1874, o João e a sua querida “Mercê das Mercês”, como carinhosamente a trata, sobem ao altar, a Maria Isabel já tem 5 anos. Mais três rebentos virão. Dois “galfarros”, o José do Espírito Santo, o João de Deus Júnior e a caçula, Clotilde Raphaela. Pai extremoso. A todos “abençoa” e itera sempre que “muito os ama”.

Desunha-se para garantir o sustento da família. Cose roupa à máquina para uma loja no Chiado, faz rimas para papel de rebuçados, traduz livros do francês, redige sermões, compõe hinos para ofícios religiosos. E escreve poesia. Dirige, com António José de Carvalho o Diccionario Prosodico de Portugal e Brazil (1877).

Conhecendo-lhe erudição e arte, a Casa Rolland insta-o a conceber um método prático de aprendizagem da leitura e da escrita. Mergulha aturadamente na redação da Cartilha Maternal ou Arte de leitura, publicada em 1876. Procura dar resposta mais eficaz à dramática situação do analfabetismo em Portugal, que o aflige. São Bartolomeu de Messines é um exemplo bem triste. Neste ano, das 1759 crianças que deviam estar na escola, só 29 meninas e 40 rapazes a frequentam. No país, não é muito diferente.

Apesar da resistência dos adeptos do Método de Castilho, a Cartilha Maternal virá a ser muito popular. Inúmeras edições esgotam. Desenvolve um labor intenso em sua casa para ensinar as primeiras letras ou formar professores para os instruir no seu método. A constituição da Associação de Escolas Móveis pelo Método João de Deus (1882) será fundamental para o alargamento da Cartilha a todo o país. Contributo decisivo para libertar da escravidão do analfabetismo milhões de portugueses.

Nenhum algarvio conseguiu até hoje o reconhecimento público que João de Deus teve. O rei D. Carlos, no dia do aniversário, em 1895, foi a casa condecorá-lo. João de Deus já está muito doente. O rei apõe-lhe o colar da Grã-cruz da Ordem de Santiago. Agradece-lhe o que fez pela nação. É a coroação simbólica do português mais popular do seu tempo, como poeta e pedagogo.

Inaudita e extraordinária a homenagem que simultaneamente lhe é prestada pelos estudantes da Universidade de Coimbra, a que se juntam as academias de Lisboa, do Porto e estudantes de todo o país. Dezenas de milhar de pessoas de todas as classes sociais, foram frente à sua casa, demonstrar-lhe o carinho e a admiração dos portugueses, de “lama até aos joelhos e chuva até aos ossos”.

João de Deus apareceu à janela, apoiado pela mulher e filha. Profundamente sensibilizado, agradece. No dia seguinte, realiza-se em sua honra, o sarau no teatro D. Maria II. Assiste ao lado do rei. Culmina assim a fantástica homenagem que lhe foi prestada pelo seu 65º aniversário.

Não fruirá, por muito tempo, as memórias doces do “Festival” e do rebuliço jubiloso, vivido ou relatado. Nove meses depois, o último sopro leva-o para a eternidade. 11 de Janeiro de 1896. O funeral foi das maiores manifestações de pesar em Portugal. O préstito demorou cinco horas e meia a atravessar Lisboa, da Estrela aos Jerónimos. Centenas de milhares de portugueses, no cortejo, às janelas, nas ruas pejadas, curvaram-se perante a sua grandeza humana. As primeiras páginas dos jornais de todo o país, foram integralmente ocupadas com imagens e notícias de João de Deus.

Foi logo prometido ao Panteão Nacional. Teve de esperar, no Mosteiro dos Jerónimos, mais de setenta anos. As obras de Santa Engrácia só terminaram em 1967. Almeida Garret, João de Deus, Sidónio Pais, Guerra Junqueiro e Teófilo Braga, foram os primeiros a entrar no mármore  onde permanecem. Lá está, em boa companhia, como sabemos.

A seu tempo será revelada, gota a gota, a extraordinária vida de Deus. Um homem indiferente à vacuidade humana e seu florilégio de ostentação. Sábio, inteligente, talentoso, culto, humilde, generoso, tolerante. De uma espiritualidade profunda e magnânima. Raros mortais a possuem.

Nunca esqueceu as suas origens. Sempre preocupado com os que mais sofrem. Tentando, pela instrução, pela arte e pela cultura, elevar o seu semelhante. Sem distinção de credo, raça, ideologia ou fortuna. Exemplo para os nossos dias, de feroz e egótico materialismo.

Deus merece ser resgatado das amnésias colectivas. As que nos querem cegar e vergar.

José Alberto Quaresma

Texto publicado na Agenda 2020, editada pela Câmara Municipal de Silves

 

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Um Comentário

  1. Só agora li o artigo de José Alberto Quaresma sobre o nosso saudoso João de Deus.
    É um daqueles escritos que, pelo fino recorte literário da sua prosa, não merecia as 1900 visitas que regista, mas 5000 ou 10.000 ou mais …

    Desconheço se este senhor é Messinense.
    Se o for, é um motivo de orgulho para todos os nossos conterrâneos poder contar com um talento deste quilate, entre nós, um talento que, desde já, felicito vivamente.

    Num tempo em que vão rareando, cada vez mais, os valores que respeitam e bem tratam a Língua de Camões, num tempo em que a iliteracia tomou o freio nos dentes, designadamente nos mais jovens, que, displicente e, mesmo, acintosamente, a atropelam e agridem, sabe bem encontrar, ainda, nos dias que correm, alguém que mantêm o culto de manejar a pena com sabedoria, bom gosto, arte e oferece aos outros o prazer da leitura de um naco de prosa de altíssima qualidade.

    Os meus parabéns.

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