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De predador a perdedor

Homem do sexo masculino é predador. E de predador a perdedor vai um passinho. Suave ou abrupto. Longo ou curto. Acontece. Sempre. Não o deseja. Nem acredita na mudança.

Almerindo, assim que lhe despontou o buço, começou a ser notado. Bonitinho. Espigado. Pérolas magnéticas nos olhos. Era desejado. Ou assim se sentia.

Com 15 anos, chegou às primícias da carne. Não como o seu pai, já que os tempos eram outros. Papá foi, pela mão do avô, franquear a porta da casa de meninas da rua do Carapeto. Era o costume. Iniciação rápida. Profissional. Papá entrou petiz. Saiu, minutos depois, homem feito. Santo homem. Casou. Fez filhos. Sim, claro, quem os faz é o homem. A mulher não é ouvida, nem achada. Concede. Transporta-os. Alimenta-os. Atura-os. Ordem natural das coisas, na primeira metade do século XX. Antes, ainda era mais natural, naturalmente.

Almerindo, o varão do Almerindo pai, já teve iniciação de amador. Amador de praia. As bifas começavam a arribar ao Algarve. Não tardou a enroscar-se numa delas. Atrás de uma rocha. A rocha não estremeceu.
Muitas se seguiram. Rochas, areia fulva e colchões de molas. Rabiscava uma cruz por cada uma, no caderno de inglês do liceu. Cruzes canhoto. Nem se lembrava dos nomes. Mas eram mulheres com rosto e tudo no sítio. Troféus fugazes. Coleccionados a eito. Quando os anos sessenta se aproximaram do fim, a colecção foi enriquecida com infinitas portuguesas.

Os pais das compatriotas não gostaram que as filhas se soltassem, assim sem mais, nem menos. Mas elas, sonsas e esquivas, começaram a dançar o twist, o yeh-yeh, nas matinées das garagens. Ah, já me esquecia, e os slows. Dos que requerem dengosos movimentos em slow motion. Quiçá na horizontal, posição mais confortável.

Chegadas as cãs e as rugas, Almerindo amansou. Perdeu a fluência na língua dos bifes e na língua de Camões. Amancebou-se com uma colega do serviço. Subiu ao altar. Teve dois filhos. Almoço e jantar a horas. E tédio a qualquer hora.

Cansado do tédio, rua e interiores esconsos voltaram a chamá-lo. Almoçaradas à quinta. Jantaradas à sexta. Alternância ao Sábado. Casa de alterne mais agradável do que a própria casa. Lá deixou coiro e cabelo, em cash.

Também há homens poupados e probos. Ousam usar cartão de crédito. Não têm medo de que as legítimas lhes piquem os extractos bancários. Justiça lhes seja feita. Honrados, também os há. E os que sabem fazê-las, integram, com mérito, este respeitável contingente.

Agora, já trôpego, a parte de trás da rocha é um grão de argila na memória de Almerindo. A fiel esposa, farta de aturar o infiel que dormitava no sofá frente à televisão, pô-lo à porta. Do lado de fora, o Almerindo teve de procurar abrigo. Encontrou.

Tem agora a felicidade possível. No quarto de uma pensão. E reparte a pensão, de reforma, com um par de glúteos cariocas. Mas dorme sozinho. Glúteo free não é moda recente.

Almerindo assoma à janela para ver passar comboios. Vê-se neles. A viajar, à aventura, para a terra da juventude. Como o avô que se alistou voluntariamente para emoções fortes. E sorte teve de não ficar atolado para sempre nos lamaçais gelados da Flandres, em 1918. Almerido devia agradecer-lhe, em mensagem póstuma, a sua própria vinda ao mundo.

Homem do sexo masculino que se preze continua assim. Não sei se mais moderado. Ou menos imoderado. Vem do longe antigo e não nota. Começa predador. Acaba perdedor.

Os triunfos são provisórios. As perdas definitivas. As pequenas perdas, com a idade, ainda mais. As fraldas absorventes, como os cueiros na infância mais remota, aguardam nas prateleiras dos supermercados.

Uns são postos à porta. Outros, mais ousados, saem pelo próprio pé. Há sempre um colo jovem e morno que os espera, sem grande paciência, é mais que provável. Ou outro, ainda mais certo e seguro. O colo virtual e gelado da solidão.

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